Highway to Hell é um álbum de 1979 da banda australiana AC/DC, um dos nomes mais icônicos do rock pesado mundial. Mas este nome poderia também ilustrar o título de uma apresentação sobre as perspectivas para o vinho nos próximos anos. Além do crescente impacto do aquecimento global e diversas safras recentes com perdas significativas, a demanda por vinho, sobretudo nos países desenvolvidos, mostra um cenário de forte retração.
Estimativas para a França, um dos três maiores produtores de vinho do mundo, apontam para uma queda no consumo de vinho entre 19% e 26% nos próximos 10 anos. O principal motivo? O menor interesse das faixas mais jovens da população. Seja por fatores relacionados à saúde ou aos preços cada vez mais altos do vinho, não há dúvida que muitos jovens tiraram o vinho de sua lista de interesses.
Busca de alternativas
Este cenário sombrio para boa parte dos países mais desenvolvidos acendeu o alerta vermelho para produtores ao redor do mundo. Dentre as diversas iniciativas para reverter esta tendência, duas tendem a ganhar peso: buscar a demanda em outros países e/ou incentivar o consumo dos jovens. A primeira pode parecer promissora. Somente cerca de 20% dos oito bilhões de habitantes do nosso planeta vivem em países desenvolvidos.
Porém, boa parte dos países em desenvolvimento que poderiam absorver mais vinho enfrentam obstáculos significativos. Se somarmos China (onde há restrições de consumo por conta de questões políticas e econômicas) e Índia (limitações religiosas) são quase 36% da população mundial. Já na África, que responde por quase 20% dos humanos, o nível de pobreza atual coloca o vinho longe das prioridades. Obviamente, se espera que o consumo de vinho avance nas áreas em desenvolvimento, mas isso pode levar muito mais tempo que os produtores necessitam para reduzir seus crescentes estoques.
O jovem e o vinho
A grande aposta segue, portanto, em incentivar o consumo por parte dos jovens. Muito tempo se perde em tentar entender o motivo da queda, portanto a busca de soluções é ainda mais difícil. O que muita gente não parece perceber, porém, é que não é somente no consumo de bebidas alcóolicas (incluindo o vinho) que as novas gerações diferem das anteriores. Um exemplo é a música. Depois de um longo domínio que durou desde o final dos anos 1970, o rock perdeu seu espaço na música mundial. Diversos gêneros tomaram seu lugar, mostrando um gosto musical bastante eclético e distinto do passado.
Se no passado bandas como Rolling Stones, Led Zeppelin, Pink Floyd, U2 ou Nirvana atraiam multidões, hoje isso mudou. Quem lota os estádios com as novas gerações são artistas como Bruno Mars, Taylor Swift, Billie Eilish, The Weeknd ou Drake. Há algo de errado com isso? Absolutamente não, cada um escuta o que gosta. Isso causou uma histeria entre as bandas ou empresários de rock? Talvez alguns casos isolados, mas faz parte das mudanças que nosso mundo vive.
No caso do vinho, porém, a coisa muda de figura. Sim, existem enormes interesses econômicos relacionados à queda no consumo dos jovens. Se, de um lado, perdem as vinícolas, de outro ganham os fabricantes de energéticos e refrigerantes. Os jovens (assim como também os demais) têm todo o direito de beber o que mais faz sentido para eles, da mesma forma que escutam as músicas que melhor refletem seus gostos e anseios.
Mudança de paradigma
O mundo passa por fases, e isso está acontecendo neste exato momento. Neste contexto, é compreensível a preocupação dos produtores de vinho, que não devem medir esforços em buscar soluções para os desafios do futuro. Porém, tudo tem limite. Cada um tem o direito de escolher o que gosta de beber ou ouvir, entre tantas outras escolhas individuais.
Se eu prefiro Pink Floyd e Radiohead na comparação com Ariana Grande ou Bad Bunny, tenho zero problema com quem acha o contrário. Da mesma forma, prefiro uma boa taça de vinho que Vodka Red Bull, Jäggerbomb ou Bullfrog, mas acredito que é 100% válido pensar diferente e deixar o vinho de lado. Cada um com suas escolhas, o mundo já tem desafios sérios demais para que alguém queira se intrometer do que está dentro da taça dos outros. Um brinde a todos, no meu caso um vinho acompanhado por um belo rock alternativo.
Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, um autodidata que segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!
Disclaimer: Os conteúdos publicados nesta coluna são da inteira responsabilidade do seu autor. O WineFun não se responsabiliza por esses conteúdos nem por ações que resultem dos mesmos ou comentários emitidos pelos leitores.
Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal