A Mourvèdre é uma variedade geralmente associada à França, sobretudo à região costeira do Mediterrâneo, com destaque especial para denominação de Bandol. Porém, na verdade, ela é uma uva de origem espanhola, onde ainda concentra sua maior área plantada e é conhecida como Monastrell. Por justiça, o nome espanhol deveria ser o mais usado, mais convencionalmente se passou a usar o nome francês, quando fora da Espanha.
É uma variedade de longa história, possivelmente já vinificada na época do Império Romano e, durante a Idade Média, gozou de excelente reputação. Nas últimas décadas, porém, vem rapidamente perdendo área plantada, sobretudo na Espanha, onde ainda segue como uma das variedades tintas mais cultivadas.
Origem e nome
Ainda não há uma identificação científica definitiva sobre a origem da Mourvèdre e como ela se relaciona com outras variedades cultivadas atualmente. Há uma teoria que ela seria originária da cidade de Mataró, na Catalunha, próximo da fronteira francesa. Porém, a hipótese mais aceita é que tenha se originado no que hoje é a Comunidad Valenciana.
O seu nome em francês tem origem na antiga denominação da cidade de Sagunto (que fica a cerca de 20 minutos ao nordeste de Valência): Murviedro em espanhol ou Morvedre no dialeto valenciano. Este nome, por sua vez, deriva do fato desta cidade, na Idade Média, ter muralhas antigas (muri veteres, ou muros viejos). Já o nome em castelhano deriva da palavra monasteriellu, diminutivo de monasteriu em latim, possivelmente se referindo à participação dos monges em sua disseminação através da Catalunha e Valência.
Uma longa história
Existem diversas referências aos vinhos de Sagunto já na época romana, mas não há evidências que comprovem que eles seriam elaborados a partir da Mourvèdre. Assim, a primeira referência explícita à variedade, na sua grafia Monastrell, data de 1327, em uma carta de um monge descrevendo os melhores vinhos comercializados na época na Europa.
Ele se refere a “vinhos espanhóis finos, os da Gasconha e os Monastrell de Empordan”. Já outras correspondências, de 1494 e 1495, se referem ao “Generoso Vino de Murviedro” e ao “Vino de Alicante, que é exportado em grande escala para a Inglaterra e Alemanha”.
Na França, documentos dos séculos XVI e XVII identificam a Mourvèdre, sob os nomes de Morves, Mouvias ou Mourvégué, embora seja possível que seu cultivo tenha sido anterior, por conta do prestígio gozado pelos vinhos de Sagunto. Já sua expansão para o Novo Mundo se deu no século XIX, possivelmente em 1831 na Austrália e em torno de 1865 nos Estados Unidos.
Características e vinhos
A Mourvèdre é uma uva de cachos médios a grandes, cônicos e de grande concentração de grãos. Estes são de dimensão pequena a média, com cascas grossas e coloração negro azulada. É uma variedade de vigor médio a alto, com ótima adaptação a climas secos, que, porém, demanda cuidados em temperaturas muito elevadas. É sensível ao míldio e oídio e prefere solos com boa profundidade.
Já seus vinhos, em geral, se mostram intensos e encorpados, com teor de açúcar e álcool mais elevados e acidez média a baixa. Quando jovens, trazem uma coloração violácea intensa, com taninos bem presentes, mas bom potencial de evolução. No olfativo, costumam apresentar notas de frutas negras, toque florais (violeta), pimenta do reino e ervas. É uma variedade que muitas vezes apresenta aromas redutivos em seus vinhos
Área plantada
Segundo dados da OIV, a área plantada de Mourvèdre ao redor do mundo, em 2015, era de 56.256 hectares. Apesar de estar muita associada à França, sobretudo as regiões ao longo do Mediterrâneo, é na Espanha que ela predomina. Este país concentra cerca de 76,5% da área plantada ao redor do mundo, com 43.066 hectares. Porém, este domínio já foi muito maior, dado que o total de vinhedos em 1990 era de 108.213 hectares, rapidamente caindo para 67.160 em 2000 até a área atual. Apesar disso, ainda é a sexta variedade mais plantada na Espanha, a quarta entre as tintas.
Se na Espanha a área plantada vem caindo, o inverso ocorreu na França. Em 2015 ficava em torno de 16,6% do total mundial, com 9.150 hectares, porém em 1979 ela era de apenas 3.146 hectares. Outros países com vinhedos significativos eram Austrália (751 ha ou 1,3%) e Estados Unidos (418 ha, ou 0,7%).
Nomes alternativos
Além de ser conhecida como Monastrell na Espanha, ela também é chamada de Mataró no país ibérico, com a denominação Mourvédre sendo mais usada na França e em escala internacional.
No entanto, segundo o catálogo da Universidade da California – Davis, há diversas outras expressões regionais para denominar esta variedade, como Alcallata, Alcayata, Alicante, Arach Sap, Baltazar, Balthazar, Balzac, Balzac noir, Balzar, Benada, Benadu, Beneda, Beni Carlo, Berardi, Bod, Bon Avis, Buona Vise, Casca, Catalan, Cayata, Caymilari Sarda, Charnet, Churret, Clairett noire, Damas noir, Drug, English Colossal, Espagnen, Espar, Esparte, Estrangle-Chien, Etrangle-Chien, Flouron, Flouroux, Garrut, Gayata tinta, Karis, Maneschaou, Marseillais, Mataró, Mataro, Maurostel, Monastre, Monastrell Menudo, Monastrell Verdadero, Morastell, Morrastel, Morvegue, Mourvede, Mourvedon, Mourvegue, Mourves, Mourveze, Murvedr, Murviedro, Negre Trinciera, Negria, Negron, Neyron, Piemonaise, Pinot Fleri, Plant de Ledenon, Plant de Saint Gilles, Reina, Ros, Rossola negra, Rossola nera, Spar, Tinta, Tintilla, Tinto, Tire Droit, Torrentes, Trinchiera, Verema, Veremeta e Vereneta.
Fontes: Foundation Plants Services Grapes, UC Davis; Distribution of the World´s Grapevine Varieties, OIV; Vitivinicultura.net; Plantgrape; El Libro de la Monastrell; Wine Folly