Nova proibição de consumo e transporte: qual o futuro do vinho na África do Sul?

Last Updated on 16 de janeiro de 2021 by Wine Fun

A COVID-19 afeta o mercado de vinhos de muitas maneiras. Um impacto significativo é gerado pelo fechamento de bares e restaurantes e pela redução do turismo. Assim, o chamado consumo on trade mostrou forte redução em todo mundo. A solução foi contar com uma melhora do consumo off trade, onde o consumidor recorre a supermercados e outros canais, como o online, para comprar vinhos.

Em alguns países, porém, nem isso tem sido possível. É o caso da África do Sul. No final de 2020, pela terceira vez no ano, o governo sul africano anunciou uma extensão indefinida da proibição do comércio e transporte de produtos com teor alcoólico. Ou seja, já não bastasse a impossibilidade de consumir fora de casa, para quem não tinha vinhos estocados isso significa zero consumo. Simples assim.

Impacto sobre o setor

O setor vitivinícola sul africano continua sofrendo as consequências das ações de seu governo. Segundo a VinPro (que representa o setor vitivinícola), a situação pode ser descrita como terrível. “As duas proibições anteriores tiveram um impacto devastador na indústria vinícola, com uma perda de mais de R 7,5 bilhões (cerca de R$ 2,6 bilhões). Isso inclui receita de vendas, perdas significativas de empregos e uma série de vinícolas e instalações turísticas sendo forçadas a fechar suas portas.”

E isso vai se agravar ainda mais com o novo bloqueio, que começou na última semana de dezembro e ainda não tem data para acabar. Segundo o presidente sul-africano, Cyril Ramaphosa, a proibição de venda e de transporte de álcool faz parte do esforço para reduzir a pressão sobre os hospitais.

A justificativa é que a queda do consumo de bebidas alcóolicas protege os hospitais e estabelecimentos de saúde, já lotados por conta da COVID 19, de um número excessivo de internações relacionadas ao abuso de bebidas alcoólicas.

Impacto desigual

Para o jornalista Tim James, em artigo publicado no site sul-africano WineMag, o impacto será mais sentido pelos grandes produtores. Evidências sugerem que são os grandes produtores que sofreram mais com o bloqueio – os grandes distribuidores (como Distell e KWV) e as cooperativas. Produtores menores teriam uma estrutura de custos mais flexível e conseguido compensar melhor as perdas através dos negócios online.

A chegada da safra 2021 torna a situação mais dramática. O jornalista menciona que circula na África do Sul a história de que alguns meses atrás um navio deixou a Cidade do Cabo com muitos milhões de litros de vinho branco. Eles teriam sido vendidos a preços muito baixos, possivelmente um quarto do valor normal. Uma medida desesperada para abrir espaço para a nova safra.

Perspectivas negativas

Por conta dos efeitos das proibições, a VinPro estima que entre 80 vinícolas e 350 produtores de uva podem sair do negócio nos próximos 12 a 18 meses. Para James, isso deve ser acompanhado também pela redução da área plantada, com o abandono de vinhedos sendo mais intenso em 2020 e 2021 do que nos anos anteriores.

Também preocupante é a situação dos estoques. A indústria vinícola sul-africana ainda tem a maior parte da safra 2020 em armazenamento, com a safra de 2021 prevista para começar em breve. Situação definida como “desastrosa” pelo enólogo sul-africano Bruce Jack, em entrevista ao portal Vinex.

O estoque de vinho somado da indústria atingiria 640 milhões de litros, muito em decorrência da proibição de venda de álcool. Isso representa cerca de 65% da colheita média de um ano e indica que não há capacidade de armazenamento suficiente para processar a próxima safra de uvas.

Reposicionamento?

Talvez o único fator positivo seja um possível reposicionamento do vinho sul africano, atualmente um dos mais baratos do mundo. Dentre os onze maiores exportadores de vinho do mundo, aqueles com vendas externas superiores a 2 milhões de hectolitros por ano, o vinho sul africano aparece com o segundo pior preço médio, somente acima da Espanha.

Se forem confirmadas as perspectivas de redução da área plantada e volume produzido, a percepção é que o impacto seja maior sobre os vinhos de menor qualidade. Deste modo, para quem está acostumado a beber os inúmeros vinhos de alta qualidade da África do Sul, o efeito será menor.

Porém, para a indústria vitivinícola sul africana, uma certeza: se a pandemia tornou as coisas muito complicadas, o governo local também tem uma grande parcela de culpa, pois além de praticamente fechar o mercado doméstico, também dificulta as exportações, por conta da proibição do transporte.

Fontes: WineMag; WineNews; EyeWitness News; Vinex

Imagem: Ulrike Mai via Pixabay

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