Last Updated on 31 de agosto de 2020 by Wine Fun
O Brasil é um país um tanto diferente dos demais em muitos aspectos. Existe até a expressão que associa a jabuticaba, que eu saiba uma fruta não encontrada em outros lugares, com esta capacidade do Brasil ser diferente. E quando falamos do cultivo de uvas ou consumo de vinhos no Brasil, não poderia ser diferente. Mais uma jabuticaba.
Nos principais países do mundo do vinho, a produção de uvas se concentra quase que inteiramente nas variedades de Vitis vinifera, como Cabernet Sauvignon, Chardonnay, ou mesmo variedades menos conhecidas, como Sultanina ou Airén. Porém, no Brasil o quadro é diferente. Na terra da jabuticaba, são as uvas híbridas ou de Vitis labrusca (também chamadas de americanas) que predominam.
Dados de produção
E isso se reflete nos vinhos mais produzidos no Brasil. Embora considerados de forma quase que unânime como inferiores em termos de qualidade, são os vinhos de variedades não europeias que lideram as estatísticas de produção no Brasil. Segundo dados da Uvibra, no Rio Grande do Sul foram produzidos 257,1 milhões de litros de vinhos em 2018, dos quais apenas 15% a partir de variedades de Vitis vinifera.
Os demais são produzidos a partir de uvas híbridas ou americanas, como Isabel, Bordô ou Niagara. Como não há dados detalhados dos vinhos elaboradas por variedade, temos que recorrer às informações de área plantada para tentar entender quais são as uvas que dominam os vinhedos e as mesas brasileiras.
Área de vinhedos
A área cultivada com videiras no Brasil foi de 75.951 hectares em 2018, 2,7% inferior à verificada no ano anterior. Destes, 47.383 hectares (62,4% do total) eram no Rio Grande do Sul. A seguir vinham Pernambuco, com 8.976 ha, São Paulo (7.223 ha), Santa Catarina (4.727 ha) e Paraná (3.600 ha).
Não há dados recentes sobre a distribuição por variedade. Mas dados de 2015 do Cadastro Vitícola, referentes somente ao Rio Grande do Sul, dão uma visão mais clara. Quase 50% dos vinhedos, que totalizavam 40.336 hectares, eram plantados com a variedade híbrida Isabel (com 26% do total) e a americana Bordô (23%). A seguir vinham as americanas Niágara Branca, Concord e Niágara Rosada.
A primeira variedade de Vitis vinifera, ou europeia, era a Cabernet Sauvignon (em oitavo lugar com 2,55% do total), seguida por Chardonnay (2,51%), Merlot (1,88%), Moscato Branco (1,24%) e Pinot Noir (1,10%).
Como mudar isso?
Obviamente olhar somente para área plantada não traz um quadro completo, pois uma proporção significativa das uvas é usada para consumo direto ou produção de suco de uva.
Dados de 2018 referentes ao Rio Grande do Sul indicam que dos 542 milhões de litros de produtos derivados de uvas produzidos, apenas 7% foram direcionados a vinhos finos (a partir de uvas europeias), com a parcela de vinhos de mesa (feitos das demais uvas) chegando a quase 35%. Sucos tinham uma participação na faixa de 29%.
Criar uma cultura de consumo de vinhos no Brasil, portanto, passa por um longo processo de aprendizado e realocação de recursos. E isso necessariamente significa que vinhos de uvas europeias ganhem mais espaço na mesa dos brasileiros. Se nosso consumo per capita já é muito baixo, aquele de vinhos de melhor qualidade é ainda menor.
Imagem: Marcelo de Morais Teixeira GKDantas do Pixabay