O que são, quais os impactos e como minimizar os danos das geadas de primavera

Last Updated on 15 de julho de 2024 by Wine Fun

O aquecimento global é uma realidade, com profundos impactos sobre o mundo do vinho. Produtores ao redor do planeta reportam importantes alterações no ciclo de maturação das uvas nas últimas décadas, resultado de diversos fatores climáticos distintos. Primaveras e verões mais quentes e secos são os fenômenos mais mencionados, até porque são de fácil percepção para quem visita regiões produtoras de vinho. Porém, são apenas algumas das peças deste complexo quebra-cabeças.

Não somente o ciclo vegetativo e o perfil fenólico das uvas mudam com o aquecimento global. Ele é responsável também pelo aumento da ocorrência de eventos climáticos extremos, com destaque para as geadas de primavera. Neste caso, além de um efeito qualitativo sobre os vinhos, elas podem trazer um enorme impacto do ponto de vista de quantidade. Basta lembrar o que ocorreu na Borgonha e outras partes da França em 2021, quando uma massa de ar polar atingiu várias áreas do país no começo de abril e levou a perdas que chegaram a 85% em algumas sub-regiões.

Geadas de primavera e o aquecimento global

Mas como o aquecimento global potencializa os impactos negativos das geadas de primavera? Em primeiro lugar, vale a pena entender o que são estas geadas. Em geral, elas são causadas por um deslocamento rápido de massas de ar extremamente frio, provenientes das regiões polares. Elas levam a uma enorme queda de temperaturas em uma questão de horas. No caso da Borgonha em 2021, as temperaturas passaram de 12 ºC positivos a -8ºC em menos de um dia, uma enorme variação térmica em um período muito curto de tempo.

Massas de ar frio nunca foram incomuns na primavera em regiões como a Borgonha ou o Loire, por exemplo.  Porém, um fator ligado ao aquecimento global potencializou o impacto negativo delas sobre a viticultura. Não somente os verões e primaveras são mais quentes, também os invernos acabam sendo menos rigorosos. E, por conta de invernos mais amenos, as videiras brotam mais cedo, ficando extremamente vulneráveis às geadas de primavera.

Se as videiras estão dormentes, como ocorre no inverno, o impacto de uma massa de ar extremamente frio é nulo. Porém, isso muda completamente após brotação ocorrer, com um efeito geralmente devastador. O broto da videira contém água em seu interior e, quando as temperaturas caem abaixo de zero, esta água congela e expande, levando ao rompimento de células e grandes danos físicos. Na prática, estes brotos ficam marrons ou pretos, sem capacidade de regeneração. A videira necessita de uma nova brotação.

O que fazer para evitar grandes perdas com geadas de primavera?

Por conta do aquecimento global, as geadas de primavera se tornam um dos principais desafios para os produtores de várias regiões. E, infelizmente, estão cada dia mais recorrentes. Matteo Gallo, da vinícola Vie de Romans, na região italiana do Friuli, explica que no passado geadas de primavera eram raras na região. Mas elas se intensificaram de tal forma nos últimos dez anos que a vinícola teve que agir para reduzir a intensidade das perdas. No caso deste produtor do nordeste da Itália, a solução adotada foi a instalação de torres de ventilação.

Apesar de cara e nem sempre eficaz, esta é uma das soluções para combater o pacto das geadas de primavera. Porém, existem diversas alternativas. Algumas envolvem medidas para reduzir o impacto do frio extremo nos brotos, como aquecedores, aspersores de água e uso de helicópteros. Outras passam por mudanças no cultivo ou disposição dos vinhedos, inclusive alterações na época de poda, sistema de condução e plantio em áreas mais altas. Vale a pena discutir brevemente cada uma desta opções.

Aquecedores e velas

Uma das alternativas mais tradicionais para evitar o impacto das geadas de primavera é a instalação de aquecedores próximos às videiras. Existem vários formatos diferentes, inclusive aquecedores muito parecidos com aqueles que usados nas áreas externas de casas ou restaurantes, com pequenas torres móveis, que geram calor.

Um formato tradicional e visualmente encantador (veja imagem abaixo) é o das tradicionais velas, chamadas de bougies em francês. São velas de parafina, geralmente instaladas em latas ou baldes de metal. Elas são acesas quando existe risco elevado de geada, geralmente no final da noite ou madrugada, quando as temperaturas atingem os pontos mínimos. Tem uma boa eficácia em boa parte das situações, mas são caras e difícil manutenção.

Imagem:  Mídias sociais do governo da França

Torres de ventilação e helicópteros

Em geral, o ar mais frio fica nas partes mais próximas do solo e esta estratégia para combater as geadas de primavera explora este fenômeno da física.  São torres com cerca de 12 metros de altura (pense em uma miniatura das torres de energia eólica), que giram rapidamente para permitir uma maior circulação do ar, misturando ar frio mais próximo do solo com aquele mais alto, que é mais quente.

No caso da Vie de Romans, cada uma delas cobre entre quatro e cinco hectares de vinhedos, com resultado muito bom em geadas não tão extremas, já que existe uma diferença de temperatura que pode chegar a até 10ºC entre o solo e a parte mais alta das torres, onde ficam as lâminas. Porém, esta estratégia tem limitações no caso de geadas extremas (como a da Borgonha em 2021), pois o ar com temperaturas abaixo de zero não estava somente no solo.

Além das torres de ventilação, também o uso de helicópteros explora este fenômeno da física, conseguindo misturar ar de diferentes camadas. Da mesma forma que as torres, porém, tem pouco efeito em eventos extremos e custo bastante elevado.

Aspersores de água

Esta técnica consiste em borrifar água nas videiras antes da chegada da geada. Ela pode parecer contraintuitiva, mas permite a criação de uma camada de proteção aos brotos. Neste caso, a camada de água criada na parte exterior da videira congela, mantendo uma temperatura não muito distante de zero grau. Isso reduz o impacto da geada nas partes internas dos brotos, muitas vezes evitando o congelamento da água que fica dentro deles.

Os aspersores, ou sprinklers em inglês, têm um custo relativamente elevado e contam com um importante fator limitador: deve existir água abundante perto dos vinhedos, que possa ser canalizada e borrifada sobre as videiras. É o caso, por exemplo, de partes de Chablis, onde corpos d’água como o rio Serein e um lago artificial criado perto de Beine fornecem água para os aspersores.

Novos vinhedos e condução de videiras

Existem alternativas que têm foco na disposição dos vinhedos e técnicas de poda. Por exemplo, como o ar frio se concentra nas partes mais baixas, uma opção é evitar estas áreas para o plantio de videiras. É algo que acontece, por exemplo, na região do Barolo, onde os fundos de vales acabam tendo uso para outras culturas, deixando a viticultura para áreas mais elevadas.

Outras medidas dizem respeito à condução ou poda das videiras. Ao invés de um sistema de condução mais baixo, mais próximo ao solo, as videiras podem ter condução mais alta, onde o ar é menos frio.  Uma outra opção é cobrir as fileiras em áreas mais sensíveis com tecidos sintéticos, algo como colocar uma espécie de cobertor nas videiras. Por fim, há também quem combata o impacto das geadas de primavera usando uma poda de inverno mais tardia, com objetivo de atrasar a brotação.

Fontes: Entrevistas com produtores, WSET Understanding wines: Explaining style and quality; Wine Scholar Guild Bourgogne Master Level Study Manual

Imagem: Jorge Guillen via Pixabay

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