Last Updated on 17 de julho de 2022 by Wine Fun
Conhecida por produzir alguns dos vinhos mais aclamados e icônicos do mundo, a Borgonha é complicada, confusa e muito complexa. Mas é apaixonante.
A região concentra menos de 4% da área plantada de vinhedos na França e é extremamente fragmentada. Prova disso são as 84 Apelações de Origem Protegidas (AOP) que representam 23% do total existente na França. É uma quantidade enorme de pequenas Apelações, o que por si só já se constitui num enorme desafio de memorização. E tudo fica ainda mais complicado porque muitos dos nomes são compostos, com sufixos misturando o nome de uma vila com vinhedos, numa grafia estranha a quem não domina a língua francesa.

Uma boa forma de nos guiarmos pela Borgonha é usar a classificação dos vinhos, instituída em 1936 e que define quatro níveis, teoricamente escalonados por qualidade. Mas como veremos ao longo deste artigo, mesmo essa classificação esconde armadilhas. Definitivamente, a Borgonha não é para amadores.
Classificação dos vinhos na Borgonha
O critério para classificação dos vinhos da Borgonha é a localização do vinhedo. Esse é um conceito totalmente diferente do usado em Bordeaux. Enquanto na Borgonha todos os vinhos produzidos num vinhedo específico compartilham a mesma classificação, independente do produtor, em Bordeaux é o contrário: todos os vinhos de um produtor compartilham a mesma classificação, independente do vinhedo onde é produzido. Simples, não? Bem-vindo à França!

Essa é a pirâmide apresenta a classificação dos vinhos da Borgonha. A qualidade dos vinhos, teoricamente, caminha de baixo para cima, começando nos Régionale, supostamente os mais simples, e escalando até os Grands Crus. No meio desses dois extremos encontram-se as classificações Village e Village Premier Cru.
Colocada dessa forma, a classificação parece ter sido feita com base em critérios científicos. Mas não é bem assim. Conceitos gerais, como a localização do vinhedo, guiaram a classificação, mas não se pode descartar o fator humano nas escolhas feitas.
Critérios de definição
Na Borgonha há mais de 1.200 parcelas de terrenos, os chamados climats. Todo esse registro dos vinhedos e terrenos foi iniciado pelos monges na Idade Média. Os monges, obviamente, não dispunham dos conhecimentos de geologia disponíveis hoje. Eles não faziam ideia que estavam numa paisagem fraturada, gerada durante a última elevação continental que criou os Alpes e que, por conta disso, tinham diante de si um solo extremamente diverso.
Mas o que importa é que eles reconheciam que parcelas de terrenos diferentes produziam uvas que geravam vinhos diferentes e, pacientemente, classificaram os terrenos, de acordo com a qualidade da uva produzida. E é espantoso que, séculos depois, o avanço da ciência, especialmente na área de geologia, comprovou o acerto do mapeamento feito pelos monges séculos atrás.
Em 1936, seguindo os passos da implantação das denominações de origem na França, os produtores da Borgonha se reuniram para formalizar quais vinhedos seriam agraciados com o status de Village, Premier Cru e Grand Cru. A base para isso foi todo o legado deixado pelos séculos de experiência dos produtores da região, principalmente os monges cistercienses e beneditinos, e critérios objetivos, como a localização dos vinhedos, incluindo as várias dimensões do terroir.
Mas numa reunião entre produtores, com diversos interesses envolvidos, da vaidade até questões puramente econômicas, é fácil supor que nem sempre os critérios racionais prevaleceram. É o caso desses dez vinhedos que foram classificados como Premier Cru, e que se encontram nesse patamar até hoje, mas que são reconhecidos e precificados como se fossem Grand Crus.

Os dez Premier Crus “quase” Grand Crus
Geralmente como “Top Tier Premiers Crus”, ou “primeira linha de Premier Crus” , apesar de não existir oficialmente tal classificação, esses vinhedos possuem sempre uma história interessante por trás. Vamos a elas:
Gevrey-Chambertin “Les Clos St-Jacques”.
Tem preço e prestígio superiores ao de alguns Grand Crus desse village, como Mazoyères-Chambertin, só para ficar num exemplo. Em 1936, quando foi definida as classificações da AOC, o vinhedo pertencia ao “esnobe” Conde de Moucheron que, segundo consta, decidiu não pleitear nenhuma classificação. O conde vendeu o vinhedo em 1955 e hoje cinco produtores possuem parcelas, incluindo o grande produtor da AOC, Armand Rousseau.
Chambolle-Musigny “Les Amoureueses”
Nesse caso, há uma razão técnica (discutível) para não ser classificado como Grand Cru. Pela sua localização está mais sujeito às variações de safra. Isso contraria um dos princípios de um Grand Cru, que é a consistência. Mas nas boas safras, esse vinhedo encanta a ponto dos conhecedores o colocarem em pé de igualdade com o aclamado Musigny.
Vosne-Romanée “Aux Malconsorts”
Faz fronteira ao norte com um vizinho ilustre, La Tache. Duas razões são apontadas como decisivas para ter sido escolhido como Premier Cru. A primeira está relacionada a história. Somente no século XVI passou a ser cultivado. Antes era dominado por um campo de espinhos e, por isso, estava fora do radar. A segunda, e, talvez, mais decisiva, é que são vinhos que demandam pelo menos 15 anos de guarda para atingirem o ponto ideal de consumo. É curioso que são vinhos relativamente acessíveis quando jovens, mas que mudam de patamar de preço quando atingem a maturidade.
Nuit-Saint-Georges “Les Saint-Georges”
Esse vinhedo goza de enorme prestígio, especialmente no mercado americano. Qualidades não faltam. Mas o motivo para ele não ter sido promovido a Grand Cru tem a ver com os princípios éticos de um homem. Henri Gouges, proprietário de parcelas no vinhedo, presidiu a Comissão em 1936 que definiu as AOCs. Constrangido por classificar um vinhedo no qual era proprietário, simplesmente retirou-o da lista.
Pommard “Les Rugiens”
Ao contrário dos vinhedos mencionados acima, não uma razão histórica, ou mesmo pitoresca, como o esnobismo do conde esnobe, ou do produtor humilde. O fato é que esse vinhedo é reconhecido (e precificado) como um “Vrai Grand Cru”.
Volnay “Les Caillerets”
Esse vinhedo tem todos atributos (localização no meio da encosta), qualidade, consistência, reconhecimento e, “last but not least” preço de Grand Cru. Mas não é. O village de Volnay é “suis generis”. Historicamente era uma propriedade da nobreza, não do clero. E metade do village é classificado como Premier Cru. Numa área tão nobre assim, diz a lenda, que não foi fácil escolher, entre vários candidatos, um ou dois para receberem o status de Grand Cru. E nenhum foi escolhido!
Meursault “Les Perrières”
O caso aqui é ilustrativo da complexidade da Borgonha. O vinhedo é composto por três partes: Perrières-Dessus, Perrières Dessous (a grafia não está errada, é muito parecida com a anterior) e Clos de Perrières. Essa última, Clos de Perrières, é monopólio de uma família, os Bardet e os vinhos são engarrafados como Domaine Albert Gruvault. É esse climat que se destaca e está em fase avançada para se tornar um Grand Cru.
Puligny-Montrachet “Le Cailleret”
É a extensão norte do icônico vinhedo de Montrachet e se beneficia de características similares de solo. Porém, um pequeno detalhe topográfico provoca a inclinação do vinhedo um pouco mais para orientação leste, ao invés do sudeste, observada em Montrachet e considerada ideal. Isso, teoricamente, prejudica o amadurecimento em safras ruins. Porém, nas safras boas o prestígio dos vinhos produzidos se equipara aos do vizinho ilustre.
Pulligny-Montrachet “Les Pucelles”
A situação é muito parecida com o vinhedo anterior, “Le Cailleret”. O pequeno detalhe aqui tem a ver com a composição do solo, que é mais fundo e pedregoso que os vizinhos ilustres. Com isso, há menos presença de calcário no solo. Apesar de esse ser um argumento técnico defensável, de acordo com o aclamado crítico e autor especializado em Borgonha, Remington Norman, “Les Pucelles pode ser facilmente confundido com o Grand Cru Bâtard em degustações às cegas”.
Enfim, como foi dito na introdução, a Borgonha é complicada, confusa, repleta de sutilezas, como o caso desses Premiers Crus, e muito complexa. Mas é apaixonante. Desvendar a Borgonha talvez seja uma das mais prazerosas aventuras que um enófilo pode aspirar.
Renato Nahas é Professor da ABS-Campinas. Concluiu a certificação de Bourgogne Master Level da WSG é Formador homologado pelo Consejo Regulador de Jerez. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWE e CWS, este último pela Society Wine Educators.
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Fotos: Renato Nahas, arquivo pessoal; BIBV, ScholarsGuild, PXHere
Realmente, muito complexo. Parabéns pelo artigo Renato, fruto de muito trabalho. Um grande abraço amigo.
Valeu Alexandre. Você é realmente muito gentil. abração
Excelente artigo, Nahas!
Parabéns!!
Vou levar em conta quando estiver de olho em Borgonhas pra comprar.
Grande abraço!