Preço dos vinhos da Borgonha atingiu seu máximo?

Não há qualquer dúvida de que, na média, os vinhos da Borgonha são os mais caros do mundo. E não estamos apenas falando de vinhos raros e de baixíssima produção, provenientes de vinhedos Grand Cru. Sim, nestes casos é comum falar em valores acima de mil euros por garrafa para produtores consagrados. Mesmo vinhedos que há poucos anos tinham vinhos na faixa de 100 euros, como Clos de la Roche, em Morey St Denis, hoje os preços estão em torno de 300 euros.

Esta inflação desproporcional atingiu também o “segundo escalão” da Borgonha, os Premiers Crus. Há cinco anos era possível comprar facilmente um Volnay Clos de Chênes de um produtor top por menos de 100 euros. Hoje o preço fica em torno de 140 a 180 euros. Isso definitivamente, inclui este vinho na categoria de “vinho de celebração” –  aquele de consumo somente em datas especiais.

Porém, o que mais me impressiona não é o avanço dos preços destes vinhos, que sempre foram mais elitizados. Afinal de contas, o que puxa os preços é a escassez: somente 1% dos vinhos da Borgonha são Grands Crus, com os Premiers Crus respondendo por pouco menos de 10% do total. O que realmente preocupa é o que acontece com os outros 89%.

Preços fora de controle

A base da pirâmide de classificação dos vinhos da Borgonha é a categoria chamada simplesmente de Bourgogne. Estes Borgonhas genéricos, em uma tradução livre, são vinhos que contam não somente com as uvas provenientes da Côte d’Or, mas também de áreas da Côte Chalonnaise, Mâconnais e Yonne. Não são, portanto, vinhos raros e exclusivos.

Porém, o preço destes vinhos subiu, na média, entre 50% e 60% desde 2014. À exceção de safras pontuais (como 2021, e 2024, que está chegando agora ao mercado), não há como falar de escassez aqui. Somente nesta categoria se produz cerca de 80 milhões de garrafas ao ano, praticamente metade da produção da Borgonha. A escalada de preços, portanto, pode refletir dois fatores: pura especulação e/ou uma crescente procura por estes vinhos.

A resposta, possivelmente, é uma combinação de ambos. Por exemplo, não há dúvidas que os preços “salgados” de Grand Crus, Premier Crus e mesmo Villages tenha levado muitos consumidores a migrarem para vinhos menos caros. Em paralelo, vinhos da Borgonha se firmam, cada dia mais, como um verdadeiro objeto de desejo para apreciadores ao redor do mundo.

Um exemplo prático

Na semana passada passei por uma experiência interessante. Eu e um amigo borgonhês decidimos nos encontrar para colocar o papo em dia e “derrubar” algumas garrafas de vinho em um winebar em Beaune. Sendo dois wine geeks, pedimos ao sommelier fazer a escolha, o que nos permitiria uma avaliação completamente isenta dos vinhos degustados. Duas condições eram essenciais: ele teria toda a liberdade para escolher os vinhos e nós não teríamos qualquer informação prévia sobre eles.

Foram três vinhos: um branco, um tinto bem leve e um tinto mais estruturado. Entre idas e vindas, algumas impressões certas e outras erradas, chegamos às nossas conclusões sobre cada um deles. Um painel bem interessante e diversificado, lembrando que cada garrafa custou 45 euros – eram todos vinhos de pequenos produtores de baixa intervenção já ganhando status de rising star.  Vale lembrar também que preço de winebar é sempre mais alto.

A surpresa da noite foi a de que nenhum dos três vinhos era da Borgonha. Um era um Chasselas da Savoie, outro um Poulsard do Jura e o terceiro um Pinot Noir de Auvergne. Ao ser perguntado por suas escolhas (muito interessantes por sinal), o sommelier foi categórico. “Eles oferecem melhor custo-benefício que vinhos da Borgonha na mesma faixa de preços”. Para ele, a incessante busca dos apreciadores pelos novos potenciais nomes icônicos da Borgonha mexe de forma não justificada com os preços, mesmo nas “escalas mais baixas” da pirâmide de classificação.

O que esperar dos preços?

Sem bola de cristal e sem a arrogância de alguns influenciadores de plantão, confesso que não é fácil prever o que irá acontecer com o preço dos vinhos da Borgonha nos próximos anos. Mas vou dar os meus pitacos. Para mim, o preço dos vinhos mais raros, “instagramáveis” e caros desta região francesa seguirá em patamar bem elevado.

É só fazer a conta entre o crescimento na produção (zero) e o aumento no mundo de bilionários e influenciadores que postam estas garrafas para atrair mais audiência. Podemos dizer, também, que a competição neste segmento de alta gama da Borgonha é muito limitada. Portanto, não parece haver uma força suficiente para mexer neste segmento, a não ser que mudem os hábitos de consumo e ostentação de nossa sociedade.

Uma outra dinâmica?

Já para os vinhos de categorias mais acessíveis, como os Village e, sobretudo, os regionais, o quadro parece distinto. Em primeiro lugar, o volume de produção é significativo e o “termômetro de ostentação” não é tão aquecido. O principal, porém, é que existe competição direta. E muita, mesmo sem sair de perto da Borgonha. Mesmo com preços em alta, Jura, Auvergne e Savoie podem oferecer vinhos incríveis, de características não tão diferentes.

Isso sem falar do Beaujolais, onde pelo preço de um Borgonha genérico, é possível beber muito bem. São múltiplas opções tanto com Gamay como Chardonnay, em diferentes estilos e de terroirs específicos. Nada como uma competição saudável!  

Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, que estuda continuamente e segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!

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Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal

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