Para muita gente, as tabelas de safras podem parecer uma invenção moderna. Afinal de contas, foi somente com o surgimento dos críticos de vinhos e por conta da ampliação da base de consumidores que se tornou necessário diferenciar os vinhos de diversas safras. Porém, isso não é verdade.
Em algumas regiões mais tradicionais, como Bordeaux e Piemonte, existem registros de produtores com história mais que centenária que se deram ao trabalho de acompanhar seus vinhos ao longo do tempo. Mas os pioneiros na elaboração de tabelas não foram nem os franceses nem os italianos, mas sim os alemães.
Mais de 200 safras avaliadas
O mais antigo acompanhamento continuado da qualidade de safras foi feito para a região do Rheingau, na Alemanha. Cobre os anos entre 1682 e 1884, incluindo, portanto, a classificação para 203 safras consecutivas. Isso não é pouca coisa. No mesmo período, por exemplo, a Inglaterra foi governada por 12 reis diferentes e o Vaticano escolheu 17 papas distintos.
O Rheingau, como região vinícola, é muito mais antiga que o Bordeaux, por exemplo, mas o período mais decisivo de sua história veio no século XVIII. Três eventos marcaram a época: os primeiros plantios da Riesling, a introdução da conceito de colheita tardia e a colheita seletiva de cachos. Tudo isso aconteceu na mesma propriedade: Schloss Johannisberg, em 1720-21, 1775 e 1787, respectivamente.
Por várias décadas do início do século XIX os Rieslings do Rheingau ficavam entre os vinhos mais procurados e caros do mundo. De fato, na década de 1850, a região do Rheingau era um dos principais centros para a produção de vinhos de alta qualidade do mundo.
As estatísticas
A tabela de safras aparece em um livro chamado Karte und Statistik des Weinbaues im Rheingau, compilado em 1885 por Heinrich Wilhelm Dahlen. Para quem tiver a curiosidade de procurar, cópia digital do livro está disponível online na Landesbibliothekszentrum Rheinland-Pfalz.
A tabela em si usa um código de cor para avaliar a qualidade dos vinhos de cada safra, juntamente com uma indicação escrita sobre a quantidade da colheita. O código de cores de qualidade divide as safras em quatro grupos e sete sub-grupos distintos: excelente, excelente/boa, boa, boa/mediana, mediana, mediana/ruim e ruim.
E os alemães não aliviaram nas avaliações: a maior quantidade de classificações ficou para safras consideradas ruim, com 63 incidências. Por outro lado, apenas 26 foram avaliadas como excelentes, como pode ser visto na tabela abaixo. Pena que esta objetividade não seja tão comum nas tabelas de safras atuais!
| Excelente | 26 |
| Excelente/Boa | 1 |
| Boa | 50 |
| Boa/Mediana | 14 |
| Mediana | 45 |
| Mediana/Ruim | 9 |
| Ruim | 63 |
Imagem: Landesbibliothekszentrum Rheinland-Pfalz