Qualidade e custo-benefício: saiba escolher melhor um Chablis Premier Cru

Last Updated on 1 de outubro de 2022 by Wine Fun

Vinhos para acompanhar mais de perto. Se as garrafas mais disputadas de Chablis são aquelas provenientes dos vinhedos classificados como Grand Cru, possivelmente aqueles de melhor custo-benefício desta região acabem sendo alguns dos Premiers Crus. Como todos os vinhos desta região, são elaborados com a Chardonnay , que consegue entregar uma expressão única nesta região do norte da Borgonha, refletindo um terroir muito diferenciado.

Porém, escolher um Premier Cru em Chablis exige mais atenção e cuidado do que um Grand Cru. Os vinhos do ponto mais alto da classificação estão todos agrupados em uma única denominação de origem, provenientes de sete climats de uma colina na margem direita do rio Serein. Já os Premiers Crus, por outro lado, são muito mais numerosos, espalhados por um território amplo e mais heterogêneo, em diversas localidades da região de Chablis.

Vinhedos selecionados

A classificação de vinhos do Chablis, publicada em 1938, dividiu originalmente os vinhos da região em três grupos: Grand Cru, Chablis e Petit Chablis. Foi somente a partir de 1967 que os vinhedos, ou climats, começaram a ser classificados como Premier Cru. Deste modo, estes vinhos ainda dividem as regras de cultivo e produção com os Chablis. A diferença é que as uvas são provenientes de vinhedos classificados como Premier Cru, considerados superiores aos que não obtiveram classificação.  

A área atual dos vinhedos Premier Cru fica em torno de 780 hectares, produzindo cerca de 14% dos vinhos da região de Chablis, com uma média anual na faixa de 37 mil hectolitros. Estes vinhedos estão localizados nas communes de Beine, Chablis, La Chapelle-Vaupelteigne, Chichée, Courgis, Fleys, Fontenay-près-Chablis, Fyé, Maligny, Milly e Poinchy.

No total, existem 40 climats diferentes classificados como Premier Cru, agrupados em 17 climats chamados de “guarda-chuva”, por, muitas vezes, agregarem mais de um climat. Como este conceito pode causar confusão (sem mencionar que, além dos climats diferentes muitas vezes existem diversos lieux-dits dentro do mesmo climat, são 79 dentro da classificação Premier Cru), vale a pena analisar isso mais a fundo.

Duas margens

Podemos dividir estes 40 climats em dois grupos distintos: aqueles situados na margem direita ou esquerda do Serein. Dos situados à direita, muitos deles são próximos à colina que concentra os Grands Crus (em vermelho escuro no mapa acima). Até por conta desta proximidade, orientação e composição de solos, muita gente considera que nesta margem fiquem alguns dos melhores Premier Cru de Chablis. Entre eles, destaque para Montée de Tonnerre, Mont de Milieu e Vaulorent.

Dos 17 climats guarda-chuva, sete ficam na margem direita, com um total de 16 climats diferentes. Já na margem esquerda se situam os 10 climats guarda-chuva remanescentes, com um total de 24 climats. Os principais destaques desta margem, conhecida por vinhos mais heterogêneos – por conta das diferenças de terroir – são Montmains, Vaillons e Côte de Léchet.

Climats guarda-chuva e subsidiários

Algo que sempre causa confusão na hora de analisar os Premier Cru de Chablis é a diferença entre os climats guarda-chuva e os chamados subsidiários. Para simplificar a vida dos consumidores, o conselho da denominação de origem decidiu agregar os 40 climats em 17 grupos distintos. Estes 17 são chamados de guarda-chuva, ou porte-drapeau, em francês. Porém, permite que os produtores optem por colocar nos rótulos tanto o nome do climat guarda-chuva como subsidiário.

Algo que também causa alguma confusão é o fato de que a grafia dos lieux-dits ou climats varia. Por exemplo, o climat Vaupoulent também pode ser chamado de Vau Pulan ou Les Vaupulents, da mesma forma que Beugnons é sinônimo de Les Beugnons.

Decifrando o rótulo

Mas a principal confusão é ainda no que diz respeito ao uso do nome do climat guarda-chuva ou subsidiário. Por exemplo, o climat guarda-chuva de Montmains, um dos principais da margem esquerda, é composto por sete lieux-dits distintos. São eles: Les Monts-Mains, Les Forêts, Les Bout des Butteaux, Vaux Miolot, Le Milieu des Butteaux, Les Ecueillis e Vaugerlains). Estes lieux-dits, por sua vez, são agrupados em três climats subsidiários distintos. Estes climats são Les Mont-Mains, Les Fôrets (ambos coincidindo com os lieux-dits de mesmo nome) e Butteaux (combinando os cinco liex-dits restantes).

Isso abre ao produtor a opção de rotular seus vinhos de três formas distintas, dependendo da localização de suas parcelas de vinhedos. O vinho pode ser rotulado como Chablis Premier Cru Montmains. Isso corre nos casos onde as uvas sejam provenientes de qualquer um dos sete lieux-dits do climat guarda-chuva, de mesmo nome. Seria, assim, um nome mais genérico. Porém, caso as uvas sejam provenientes de Les Forêts, o produtor pode optar. As alternativas são Chablis Premier Cru Montmains (nome do climat guarda-chuva) ou Chablis Premier Cru Les Forêts (nome do lieu-dit e climat Les Forêts). O mesmo ocorre com Butteaux.

Assim, se você se defrontar com uma garrafa do Chablis Premier Cru La Forest da Domaine Vincent Dauvissat, poderá concluir (apesar da grafia também ser diferente) que este é um vinho elaborado com uvas do climat guarda-chuva Montmains, mais especificamente de parcelas situadas em Les Forêts. Algo na mesma linha ocorre com o Chablis Premier Cru Butteaux, de outro produtor lendário da região, Domaine François Raveneau. No caso, as uvas são provenientes de Butteaux. Caso optassem, ambos poderiam ter lançado os vinhos alternativamente como Chablis Premier Cru Montmains.

Quais climats?

Depois de esclarecer o conceito, fica mais fácil saber quais são os climats de cada uma das margens do Serein. Na margem direita, são eles (com seus climats subsidiários entre parênteses): Fourchaume (Vaupulent, Côte de Fontenay, L’Homme Mort, Vaulorent), Montée de Tonnerre (Chapelot, Pied d’Aloup, Côte de Bréchain), Mont de Milieu, Vaucopin, Berdiot, Côte de Vaubarousse e Les Fourneaux (Morein, Côte des Près Girots).

Já na margem esquerda, são eles: Beauroy (Troësmes, Côte de Savant), Vau du Vey (Vaux Ragons), Vau Ligneau, Côte de Léchet, Vaillons (Chatains, Sécher, Beugnons, Les Lys, Mélinots, Roncières, Les Epinottes), Montmains (Montmains, Forêts, Butteaux), Chaume de Talvat, Côte de Jouan, Les Beauregards (Côte de Cuissy) e Vosgros (Vaugiraut).

* Elevados a Premier Cru em 1978

Vinhos e produtores

Os Premiers Crus de Chablis, por conta de sua qualidade, muitas vezes aparecem dentre os melhores custos-benefício da Borgonha. Embora variem muito, tanto em função do climat como do produtor ou safra, em geral são vinhos que mostram bom potencial de evolução (pico em geral entre cinco a dez anos, superando esta marca para melhores produtores e safras). Sempre elaborados a partir da Chardonnay, trazem a inconfundível mineralidade da região, harmonizando muito bem com frutos do mar e ganhando complexidade ao longo do tempo.

Em termos de estilo, o Master of Wine Jasper Morris acredita em características levemente distintas para os Premiers Crus da margem direita e esquerda. Aqueles da margem esquerda, como Vaillons, Montmains e Côte de Léchet, mostram mais presença de frutas brancas. São também mais verticais e diretos, ideais para o consumo com frutos do mar. Já os da margem direita, com exceção de Fourchaume e Vaucopin, são mais clássicos, em um estilo mais próximo àqueles dos vinhedos Grand Cru.

Praticamente todos os melhores produtores da região elaboram vinhos Premier Cru, com destaque para François Ravenneau (Butteax e duas cuvées do climat Montée de de Tonnerre – uma de mesmo nome e outra do climat subsidiário Chapelot) e Domaine Vincent Dauvissat (La Forest, Sécher e Vaillons).

Fontes: Vins de Bourgogne; Wine Scholar Guild; Inside Burgundy, Jasper Morris; The World Atlas of Wine, Hugh Johnson

Mapa e Tabela: Wine Scholar Guild

Imagem: Dylan Valente via Unsplash

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