A queda persistente no consumo de vinho vem produzindo consequências que, até pouco tempo atrás, seriam difíceis de imaginar. No início de março de 2026, o presidente da França, Emmanuel Macron, anunciou que seu governo avalia a adoção de uma política de redução da área plantada de vinhedos — uma tentativa clara de ajustar a oferta à demanda.
Razões para isso não faltam. Em 2024, a produção global caiu 4,8% em relação a 2023. Na França, no entanto, a queda foi de 23% — um número assombroso e bastante preocupante. O país, que historicamente se revezava com a Itália na liderança entre os maiores produtores mundiais, distanciou-se da primeira posição, segundo dados da Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV).

É previsível que, em um cenário como esse, os produtores se movimentem para se adaptarem às novas tendências de consumo, na tentativa de preservar seus volumes. Afinal, embora o consumo total esteja em queda, alguns segmentos — como o dos vinhos rosés — apresentam desempenho superior à média.
Exemplos de adaptação
Um exemplo emblemático vem da região de Roussillon, no sul da França. É um bom exemplo — ainda que bastante triste para os amantes de vinhos doces, como veremos a seguir. Na zona de produção ao redor da cidade de Collioure, na Catalunha francesa e próxima da Espanha, existem duas AOC (denominações de origem controlada). Para os vinhos tranquilos — tintos, brancos e rosés — utiliza-se a AOC Collioure. Já os vinhos doces, produzidos majoritariamente com as mesmas uvas usadas nos tintos e rosés, recebem a denominação Banyuls, que também pode constar como Banyuls Grand Cru.
Banyuls é um dos vinhos doces de maior destaque da categoria. Trata-se de um vinho fortificado, elaborado por um método semelhante ao do Vinho do Porto. A principal diferença está nas variedades utilizadas: a uva dominante é a Grenache. O problema é que, enquanto o consumo de vinhos doces cai — ou melhor, desaba —, o de rosés segue crescendo. Como consequência, produtores têm sido forçados a desviar uvas de vinhedos nobres de Grenache, alguns com mais de 60 anos, para a produção de rosés jovens. Algo que certamente contraria a vontade de Baco, o deus do vinho — e também a de muitos enófilos de bom gosto.
Até tu, Bordeaux?
Os tintos de Bordeaux conquistaram fama mundial por sua estrutura e pela rara capacidade de combinar elegância e potência. Vinhos longevos encantam pelo equilíbrio: em um bom Bordeaux, nada falta e nada sobra. Taninos, acidez, corpo e álcool se harmonizam de forma quase exemplar, fazendo suspirar o coração dos enófilos mais exigentes.
Apesar de Bordeaux continuar reinando no imaginário dos apreciadores, a região também sente os efeitos da queda no consumo e busca alternativas. É interessante observar um movimento recente que, guardadas as devidas proporções, lembra o que ocorre em Roussillon.
Em uma região onde as regras de produção são tradicionalmente rígidas, as mudanças precisam ser aprovadas pelo órgão regulador local. A partir da safra de 2025, novas regras permitirão a produção de tintos de Bordeaux pensados para serem servidos em temperaturas mais baixas do que as tradicionais, com perfil mais frutado, menor teor alcoólico (mínimo de 11%) e níveis mais moderados de taninos.
O conceito, na verdade, não é totalmente novo na região. Ele busca resgatar a tradição dos antigos clarets, vinhos historicamente mais leves e fáceis de beber. A ideia é ampliar a presença dos vinhos de Bordeaux em um segmento de consumo em ascensão: o dos vinhos mais descontraídos, associados a ocasiões informais, como wine bars e happy hours — os chamados vinhos glou-glou, termo informalmente usado na França para designar vinhos com rótulos fáceis de beber. Cerca de 40 produtores já se comprometeram a lançar vinhos nesse estilo e estimam colocar no mercado mais de um milhão de garrafas, segundo a associação de produtores de Bordeaux e de Bordeaux Supérieur.
Novos tempos
O vinho sempre mudou ao longo da história — novas uvas, novos estilos, novos mercados. Ainda assim, é difícil não sentir certa melancolia ao ver vinhedos antigos de Grenache destinados a rosés jovens e descompromissados, ou de Bordeaux, em busca de seu espaço no universo dos vinhos glou-glou. Talvez seja apenas mais um capítulo da longa história de adaptação do vinho ao seu tempo. Mas fica a dúvida inevitável: se até Bordeaux está mudando, o que mais ainda está por vir?
Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora aprofundar-se no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG e de Bordeaux ML. É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e como Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, esta última pela Society of Wine Educators.
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Foto da capa: Renato Nahas, arquivo pessoal
Imagem: OIV