Tenho dificuldades em pensar em alguém que eu conheço que faria uma destas duas coisas em sã consciência. Mas em um mundo cheio de exageros como este no qual vivemos atualmente, nada mais me surpreende. Seja na ilusão ou fantasia, o que chama a atenção hoje é o inusitado e isso inclui o mundo do vinho. Sangria de Château Petrus? Desperdício de Champagne Cristal em camarotes e afins? Não faltam exemplos de exageros que recebem mais atenção do que deveriam.
O vinho parece definitivamente ter ganhado espaço na cultura popular como um produto exclusivo e requintado. Por conta dos preços praticados, sobretudo no Brasil, não é difícil imaginar o porquê. Porém, antes que isso se torne uma realidade absoluta, meu protesto. Sim, existem vinhos raros e de difícil acesso, mas o objetivo do vinho não é se tornar um produto de luxo. Por milhares de anos, esta bebida fermentada foi um dos principais companheiros de refeições em boa parte do mundo. Cabe a quem consome e comunica o vinho ajudar a preservar isso.
Vinhos diferentes para cada momento
Sim, existem momentos especiais que merecem um vinho igualmente especial. Porém, talvez à exceção do que alguns instagramers tentam mostrar, nossas vidas são muito mais complexas e menos exuberantes. Não vamos a restaurantes estrelados todas as semanas ou a hotéis luxuosos em praias paradisíacas todos os meses. A escolha dos vinhos deve levar isso em consideração.
Uma lição interessante pode ser aprendida com os produtores da região de Langhe, no Piemonte. É desta pequena área do noroeste da Itália que têm origem os Barolos e Barbarescos, dois dos vinhos italianos mais apreciados. Mas há muito mais nesta região do que estes dois tintos, vistos por muitos como glamorosos e sofisticados.
Mesmo seus produtores não bebem, em sua vida pessoal, Barolos ou Barbarescos o tempo todo. Eles deixam claro que estes grandes vinhos são companheiros ideais apenas em certos momentos. No dia a dia, a realidade é diferente. Vontade de beber Nebbiolo? Langhe Nebbiolo é a escolha mais comum. Um belo prato com carne? Barbera pode ser a melhor opção. Pizza? Dolcetto é a pedida certa. Dia mais quente? Porque não um Pelaverga ou mesmo um Arneis, Chardonnay ou Sauvignon Blanc local. Isso sem falar de vinhos de outras regiões do mundo.
Exageros de iniciantes
Embora a cultura do vinho tenha crescido muito no Brasil nos últimos anos, ainda estamos nos estágios iniciais de conhecer e aproveitar melhor tudo o que o mundo do vinho pode oferecer. Ainda existe um “certo deslumbramento” no ar quando se fala de vinhos nas mídias sociais. Isso fica evidente com o excesso de vídeos com sabragem de Champagne, Grand Cru da Borgonha com churrasco ou harmonização de vinhos com relógios de marca.
Provar, degustar e postar vinhos mais simples não vai arranhar sua imagem, ao menos para pessoas que tenham bom senso. O vinho não deve ser visto com um artigo de luxo ou item para colecionador. Vinho não se bebe sozinho ou na frente das câmeras, ele deve ser compartilhado e desfrutado como companheiro nas refeições, para os encontros com amigos e família. Como me confidenciou recentemente um produtor da Borgonha, ele adoraria poder tirar seus vinhos das mídias sociais. Nas suas palavras “não é para isso que eu, meus ancestrais e meus filhos nos dedicamos. Se eu quisesse a luz dos holofotes, mudaria de carreira, não condiz com horas e horas nos vinhedos ou dentro da cantina”.
Vinho é inclusivo e democrático (ou deveria ser, ao menos). Não deixe que isso seja apenas uma coisa do passado. Um Feliz Natal a todos!
Como eu me descrevo? Sou um amante exigente (pode chamar de chato mesmo) de vinhos, um autodidata que segue na eterna busca de vinhos que consigam exprimir, com qualidade, artesanalidade, criatividade e autenticidade, e que fujam dos modismos e das definições vazias. A recompensa é que eles existem, basta procurar!
Disclaimer: Os conteúdos publicados nesta coluna são da inteira responsabilidade do seu autor. O WineFun não se responsabiliza por esses conteúdos nem por ações que resultem dos mesmos ou comentários emitidos pelos leitores.
Foto: Alessandro Tommasi, arquivo pessoal