Segunda variedade mais plantada em Portugal, a Touriga Franca segue sendo a principal uva, ao menos em termos de área cultivada, da região do Douro. Além de seu uso em vinhos monovarietais, ela também é parte fundamental dos cortes da região, sejam eles os vinhos tranquilos engarrafados como Douro ou os vinhos do Porto. Nestes cortes, em geral ela tem um papel importante: trazer componentes aromáticos e contribuir para maior equilíbrio e estrutura aos vinhos.
Até 2000 esta uva era chamada de Touriga Francesa, embora não tenha qualquer relação genética com variedades originárias da França. Análises recentes de DNA confirmaram que a Touriga Franca é um cruzamento natural entre Touriga Nacional e Marufo, variedade também conhecida em Portugal como Mourisco.
Histórico
É difícil precisar exatamente quando o cruzamento ocorreu, com diversas menções das uvas Tinta da França ou Tinta Francesa no início do século XX. Já o nome Touriga Francesa originou-se nos anos 1940, quando a uva já tinha uma grande presença tanto no Douro como no Dão. Vale lembrar que, por conta do seus menores rendimentos, a Touriga Nacional perdeu espaço nos vinhedos após a filoxera. A Touriga Francesa acabou se beneficiando, aparecendo como um de seus substitutos.
A partir da década de 1990, a Touriga Nacional passou a retomar parte do espaço perdido, em detrimento das outras uvas que compõem o tradicional blend do Douro. A Touriga Franca, porém, vem registrando nos últimos anos um crescimento de sua área plantada. Entre 2018 e 2022, o aumento estimado na área de vinhedos foi de cerca de 13%.
Características e vinhos
A Touriga Franca é uma variedade de alta produtividade, que mostra cachos de tamanho médio a grande, com grãos médios e arredondados, de coloração azulada e cascas não muito espessas. É uma uva de maturação média e com boa resistência a doenças fúngicas, com certa sensibilidade à podridão cinzenta. Além de adaptar-se a vários tipos de solo, exige elevada insolação e calor, apresentando bom comportamento com a maioria dos porta-enxertos.
Muitas vezes usada em cortes com a Touriga Nacional, ela mostra importantes diferenças em relação à sua genitora. Enquanto a Touriga Nacional traz aromas de frutas mais negras, intensos e profundos, a Touriga Franca tende a exibir perfis mais suaves e delicados, com destaque para frutas vermelhas e notas florais (rosa). No palato, embora possa mostrar estrutura mais firme, a Touriga Franca oferece taninos menos intensos, com média acidez e presença intensa de frutas.
Área plantada e nome alternativos
Segundo dados da OIV, a área plantada de Touriga Franca ao redor do mundo, em 2015, era de 15.379 hectares, totalmente concentrados em Portugal. Dados mais recentes (2022) divulgados pelo Instituto da Vinha e do Vinho de Portugal, indicam uma leve queda, para 15.315 hectares de videiras. Isso a colocava como a segunda variedade mais plantada em vinhedos portugueses, somente atrás da Tempranillo, chamada localmente de Tinta Roriz ou Aragonez.
Deste total, 12.213 hectares, ou quase 80% do total, se localizavam no Douro, onde a Touriga Nacional correspondia a cerca de 28% da área de videiras. Outras áreas com presença desta variedade eram Dão, Terras de Cister, Trás-os-Montes e Bairrada Por conta da pequena diversidade geográfica e de ser uva de histórico relativamente recente, a Touriga Franca recebe poucos nomes alternativos. Chamada até 2000 de Touriga Francesa, ainda há quem a chame de Albino de Souza, Esgana Cão, Rifete ou Tourigo Francês.
Fontes: Foundation Plants Services Grapes, UC Davis; Distribution of the World´s Grapevine Varieties, OIV; Instituto da Vinha e do Vinho; Wines of Portugal; Varietal discrimination and genetic relationships of Vitis vinifera L. cultivars from two major Controlled Appellation (DOC) regions in Portugal, Castro et al; Advid; Infovini; Terras & Terroir; Plansel
Imagem: Quinta de Cottas