Tradição milenar e reconhecimento recente: conheça a história do vinho no Etna

Last Updated on 2 de novembro de 2023 by Wine Fun

Talvez não seja exagero afirmar que os vinhos do Etna atingiram nos últimos anos um patamar de qualidade jamais visto anteriormente.  Seus tintos, elaborados sobretudo a partir da Nerello Mascalese, conseguem combinar elegância, precisão, alta acidez e taninos finos, colocando esta região em destaque mesmo em um país como a Itália, conhecido pela alta qualidade de seus vinhos tintos.

Os vinhos brancos do Etna, porém, não ficam atrás. Além do enorme avanço nas técnicas de vinificação nas últimas décadas, pesa muito o terroir diferenciado da região. São solos vulcânicos, que aportam muita mineralidade, combinado com altitude (não são poucos os vinhedos acima de 800 metros de altitude) e grande presença de vinhas velhas. Esta combinação de fatores permite à região do Etna combater o impacto do aquecimento global de forma surpreendente.

Porém, existe também a questão da tradição. Embora os vinhos do Etna tenham ganhado muita projeção recentemente, a viticultura está presente na região há milhares de anos. Assim, para entender melhor seus vinhos de hoje, vale a pena embarcar na máquina do tempo e conhecer a longa e rica história do Etna.

Os vinhedos em terraços nas encostas do Etna

História e mitologia

Falar em história na Sicília implica em mergulhar em um passado distante. O primeiro assentamento grego foi Naxos, que fica na costa leste da ilha, aos pés do vulcão. E foram os gregos que possivelmente trouxeram a viticultura para a região do Etna, entre 800 e 600 antes de Cristo, com esta atividade ocupando uma posição de destaque. Moedas cunhadas em Naxos entre 550 e 530 AC trazem representações de uvas. Vale lembrar que o vinho possuía um importante papel nos cultos Dionísicos, parte integral das manifestações religiosas dos gregos antigos.

O vinho da Sicília, possivelmente do Etna, tem também presença de destaque na mitologia grega. Foi com o potente vinho da região que Ulisses, o herói da Odisseia, teria embebedado Polifemo, o gigante de um olho que mantinha o herói e seus companheiros cativos. Na obra de Homero, a Sicília seria a ilha dominada pelos Cíclopes, estes míticos gigantes que teriam tentado evitar a volta de Ulisses para Ítaca após a Guerra de Troia.

Vinhos de grande reputação

Os gregos, porém, deram apenas início à longa trajetória dos vinhos do Etna. Os romanos, que conquistaram a Sicília gradualmente entre 260 e 210 AC tiveram um papel fundamental na viticultura da região. A produção de vinhos ao redor do Etna aumentou de forma significativa, impulsionada pela fertilidade dos solos vulcânicos.

O avanço, porém, não foi apenas em termos de quantidade. Há diversos relatos datados em torno de 200 AC que colocam os vinhos do Etna entre os melhores do mundo. A Sicília, na época, era um dos principais celeiros de Roma, provendo à república romana uma grande variedade de produtos agrícolas, inclusive o vinho.

Idade Média e importância econômica

A viticultura seguiu presente no Etna mesmo durante o turbulento período que sucedeu ao Império Romano. Nem mesmo as invasões de povos bárbaros, seguidas pela conquista da área pelos bizantinos, árabes e normandos colocaram fim à longa tradição local. Em 1435, já no período da dominação aragonesa, foi estabelecida em Catania a Maestranza dei Vigneri, uma associação de produtores da região.

Durante os séculos seguintes os vinhos do Etna seguiram em alta, inclusive sendo exportado para outras regiões europeias, como Itália continental e Alemanha, como atestam documentos de 1569. A partir de 1700, as exportações ocupavam importante espaço, com o vinho sendo um dos principais produtos comercializados a partir do porto de Riposto.

O boom do século XIX

Foi durante o século XIX, porém, que o vinho atingiu o seu pico de produção no Etna. Dados do censo de 1844 mostram que videiras ocupavam mais de 50% da área plantada na região, a mais alta proporção de toda a Sicília. Na sub-região de Milo, até hoje conhecida pela alta qualidade dos seus vinhos brancos, esta parcela atingia 70%. Em 1848, a área plantada atingia cerca de 25.600 hectares.

A chegada da filoxera aos vinhedos europeus (a França reportou os primeiros casos em 1866) fortaleceu ainda mais o crescimento dos vinhedos do Etna. Com a abrupta queda de produção em muitas regiões europeias, os vinhos da região passaram a ser exportados para toda a Europa, chegando inclusive ao Novo Mundo. Estima-se que, entre 1880 e 1890, a área plantada com videiras na província de Catania tenha atingido 91.800 hectares, dos quais 50% nas encostas do Etna.

Em 1881 foi fundada em Catania uma escola de enologia, uma das pioneiras na Itália. A imensa maioria da produção era exportada a granel, usando a infraestrutura de uma ferrovia construída para levar a produção ao porto de Riposto. Na década de 1890 surgiram as primeiras vinícolas engarrafando seus vinhos próprios e alguns deles foram premiados no Exposição de Paris, em 1900.

O forte e longo declínio

Porém, este boom teve fim a partir dos primeiros anos do século XX. De um lado, a produção de vinho no restante da Europa mostrou forte recuperação nas décadas anteriores, por conta do uso de videiras implantadas resistentes à filoxera. Além disso, a praga chegou também ao Etna, dizimando uma parte importante de seus vinhedos. Outros fatores que contribuíram para o declínio foram os altos impostos, as erupções do vulcão, as duas Guerras Mundiais e crescente perda de mão de obra na região.

Os habitantes de Passopisciaro recorrem à religião para conter a lava do vulcão

Além disso, uma área importante de vinhedos foi destruída em função da expansão da área urbana da cidade de Catania e por conta da substituição das videiras por outras culturas mais rentáveis, com destaque para os cítricos. Nem mesmo a criação, em agosto de 1968, das primeiras denominações de origem da região (Etna Rosso, Etna Bianco, Etna Rosato e Etna Bianco Superiore) conseguiu conter o declínio da área de vinhedos. Em 1980, estima-se que a área de vinhedos era de apenas 5.000 hectares.

O renascimento

A partir do final da década de 1980, porém, a vinicultura no Etna despertou após um longo período de decadência. O perfil, porém, mudou completamente. A região deixou de ser uma fornecedora de vinhos baratos e a granel, para focar na elaboração de vinhos de qualidade, que reflete o terroir diferenciado do Etna. Atualmente, a á área de vinhedos é de apenas 1.800 hectares, mas com foco em vinhos de alta gama.

Dois fatores ajudam a explicar este renascimento. De um lado, sobreviveu a forte tradição de viticultura de qualidade. Existem poucas regiões no mundo com presença tão difundida de videiras velhas, algumas dela pré-filoxéricas. Além das condições naturais, pesou muito a qualidade dos viticultores locais, que mantiveram tradições seculares, inclusive o sistema de condução em arberello.

O que faltava era a adoção de técnicas de vinificação mais avançadas, com foco mais na qualidade do que na quantidade. E isso ocorreu nos últimos anos séculos do ano passado, tanto com a chegada de produtores de outras áreas como pela presença de alguns talentos locais.

Os pioneiros

Em 1988 Giuseppe Benanti fundou a vinícola que leva seu nome e, com a fundamental contribuição do pesquisador e enólogo local Salvo Foti, começou a elaborar seus primeiros vinhos em 1990. Era uma época quando praticamente não havia vinícolas independentes na região (com poucas exceções, como Murgo) e pequenas cooperativas. Em 1999, a histórica vinícola Ciro Biondi (que elaborava vinhos premiados antes do Primeira Guerra Mundial) renasceu.

O início dos anos 2000 foi marcado pela chegada de novas ideias e conceitos. O ítalo-americano Marco de Grazia chegou em 2000, comprou uma parcela da Contrada Guardiola em 2001 e criou a Tenuta delle Terre Nere. Em paralelo, Andrea Franchetti, já vinicultor de destaque na Toscana, fundou a Passopisciaro em 2000 e lançou seu primeiro vinho no ano seguinte. O ano de 2001 marcou também a chegada do belga Frank Cornelissen.

O novo boom

A partir do enorme patrimônio herdado da tradição passada (não faltam no Etna pequenos terraços de vinhedos) e dos esforços deste pequeno grupo de produtores, o vinho no Etna renasceu. Se em 2008 eram menos de 40 vinícolas na região, este número atualmente supera 220, com crescente preocupação com a recuperação de vinhedos antigos e elaboração de vinhos de alta qualidade.

Ainda existe muito espaço para expansão, mas o rumo da viticultura no Etna parece ter outra prioridade. Não há dúvidas que esta seja uma região diferenciada para a produção de vinhos de alta gama e as apostas são todas neste sentido. Resta saber se a região irá resistir às tentações de trocar a qualidade pela quantidade, mas valiosas lições do passado não faltam para evitar que isso aconteça.   

Fontes: Etna: I Vini del Vulcano, Salvo Foti; Entrevistas com diversos produtores

Imagens: Arquivo pessoal, Passopisciaro

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