Quem acompanha de perto o mundo do vinho não tem qualquer dúvida que o aquecimento global existe e parece estar se intensificando. Temperaturas médias mais altas e menor volume de chuvas têm levado à antecipação da colheita em muitas das principais regiões produtoras do mundo, sobretudo no Hemisfério Norte. De fato, analisando informações de datas de colheitas nos dois últimos séculos, as safras mais precoces se concentram na última década. Também por conta do aquecimento global, aumentou a incidência de eventos climáticos extremos, como geadas de primavera ou chuvas de granizo.
Porém, ao analisar o histórico da vinicultura na Europa dentro de uma perspectiva mais ampla, esta tendência não parece ser inédita. Embora não existam dados na frequência disponível atualmente, evidências históricas mostram que a Europa já viveu um período até mesmo mais quente que o atual. Foi exatamente este período que permitiu uma forte expansão da vinicultura no Velho Continente, sobretudo nas áreas mais distantes do Mediterrâneo, historicamente o berço do vinho europeu. E este período tem nome: Ótimo Climático Medieval (OCM).
O que foi o OCM?
O Ótimo Climático Medieval foi um período que durou cerca de 400 anos, aproximadamente entre 900 e 1300 depois de Cristo. Basicamente restrito à área do Atlântico Norte (com impacto sobretudo sobre Europa Ocidental, costa leste da América do Norte e Groenlândia), as evidências mostram que as temperaturas médias eram em torno de um a um grau e meio acima do atual. O resultado? Temporadas de cultivo muito mais longas, favorecendo sobretudo regiões mais ao norte.
Ainda não existe um consenso sobre suas causas. Algumas teorias indicam que o OCM seria o resultado de menor atividade vulcânica no mundo (com menor presença de gases que impactam o acesso aos raios solares), ou mesmo maior atividade solar. Porém, seu impacto em escala regional (não há registros de fenômeno semelhante em outras áreas do Hemisfério Norte ou do Hemisfério Sul no mesmo período) pode indicar uma outra causa.
Estudos sugerem que OCM seria resultado, sobretudo, de mudanças nas correntes oceânicas do Atlântico Norte. Assim, o fortalecimento da Circulação Meridional de Capotamento do Atlântico (AMOC, em inglês – também conhecido como Corrente do Golfo) e uma fase positiva da Oscilação do Atlântico Norte (NAO) teriam trazido condições mais quentes para boa parte da Europa e de regiões no Atlântico Norte.
Vinhos além das fronteiras atuais
Não faltam evidências que mostram que estas condições peculiares afetaram a vinicultura. Climas mais quentes permitiam a produção de vinhos em regiões onde atualmente ela ainda é incipiente ou mesmo inexistente. A Inglaterra é um excelente exemplo, como pode ser visto ao utilizar informações do Domesday Book. Este registro censitário e fiscal, encomendado pelo rei Guilherme I em 1085, mostra que havia pelo menos 45 vinhedos, sobretudo concentrados no sudeste do país.
Outros registros históricos indicam áreas adicionais com vinhedos nas décadas seguintes, inclusive com referência à qualidade dos vinhos lá produzidos. Guilherme de Malmesbury escreveu por volta de 1125 que os vinhos do Vale de Gloucester eram de doçura comparável aos da França. Porém, a produção de vinho diminiu rapidamente na Inglaterra a partir do século XIV, possivelmente devido ao final do OCM.
Normandia e Bélgica
Se hoje a Normandia é conhecida por suas cidras, há 800 anos o contexto era diferente. Evidências mostram que as videiras chegaram à região pelas mãos dos romanos, mas o ápice como área de produção teria ocorrido nos séculos XI e XII, já sob o domínio dos duques da Normandia. Vinhedos ocupavam a maioria das encostas de orientação sul, exceto na região de Cotentin. As três principais zonas vinícolas eram o vale do Sena (entre Vernon e Andelys), as colinas de Argences (leste e sudeste de Caen) e a região de Avranches. As macieiras teriam substituído as videiras somente no século XIV.
O mesmo ocorreu com a Bélgica. Evidências indicam que já havia cultivo de videiras na Alta Idade Média, sobretudo a partir do século X. No século XIV, diversas localidades tinham seus próprios vinhedos, seja dentro ou fora das muralhas. Cidades como Tournai, Louvain, Bruxelas, Bruges, Ghent, Thuin, Hal, Dinant, Namur, Tongeren, Huy e Liège deixaram vestígios de seus vinhedos em nomes de lugares. Exemplos são locais com nomes como Wijnberg, Mont des Vignes, Wijngaard, Aux Vignes, Vivegnis ou Vinalmont.
Rápido declínio
Porém, todas estas regiões mostraram um rápido declínio na vinicultura a partir do início do que passou a ser chamado de Pequena Idade do Gelo. Por volta de 1300 o clima começou a esfriar na Europa, por um período que durou até meados do século XIX. Entre as causas prováveis, além da alteração nas correntes oceânicas, aparecem a diminuição da atividade solar e o aumento da atividade vulcânica.
Há diversas evidências de climas muito mais frios em algumas das regiões mencionadas anteriormente. Por exemplo, existem vários relatos de congelamento do Rio Tâmisa, em Londres, entre 1400 e 1800, refletindo a mudança climática no sul da Inglaterra. Já na Bélgica há também relatos de feiras medievais em rios congelados, em paralelo com uma gradual substituição das videiras por campos de cereais e lúpulo, favorecendo a crescente indústria cervejeira.
Estes longos ciclos de calor e frio mostram que a realidade da vinicultura na Europa é muito mais instável do que inicialmente suposto. Transformações constantes no clima, seja por fenômenos naturais como pela recente ação humana, podem resultar em importantes mudanças nas principais regiões produtoras de vinho, sobretudo na Europa.
Fontes: Histoire de la Vigne et du Vin en France, Roger Dion; Norman Wine in Medieval Times, Marie Lebert; Stone House History Group; Domesday Book; Chant d’Eole
Imagem: Gerada via IA com Magic Media