Valtellina e suas denominações de origem: presente e futuro

A Valtellina, área que fica no norte da Itália próxima à fronteira com a Suíça, é uma das mais fascinantes regiões vinícolas italianas. Situada aos pés do Alpes, além de uma beleza natural quase incomparável, também produz vinhos de alta gama. Sua uva símbolo é a Chiavennasca, nome local para a Nebbiolo, que dá origem a tintos elegantes e longevos. Em geral, eles trazem uma expressão mais fresca e floral da uva que faz tanto sucesso em Barolo e Barbaresco.

Apesar do foco quase absoluto em apenas uma variedade, esta área, que conta com cerca de 850 hectares de vinhedos, possui três denominações de origem diferentes, além de uma indicação geográfica. Assim, para conhecer melhor esta deslumbrante região e sua viticultura heroica, é fundamental antes entender as diferenças existentes entre estas quatro designações.

Localização

Valtellina Superiore DOCG

Criada em 1968 e elevada a DOCG em 1998, é a maior e principal denominação de origem da região. Sua produção correspondia a cerca de 54% do total da Valtellina em 2022, considerando tanto os vinhos engarrafados sem menção de subzona como também aqueles das suas cinco subzonas regulamentadas (Maroggia, Sassela, Grumello, Inferno e Valgella).

De forma geral, esta denominação de origem cobre a área histórica de plantio e produção. Traçando um paralelo com a Toscana, seria uma espécie de Chianti Classico, antes da expansão da área de vinhedos. Os vinhos devem conter pelo menos 90% de Chiavennasca, com permissão para a utilização de outras castas tintas não aromáticas aptas para cultivo na região da Lombardia, até um máximo de 10% do total.

Os vinhedos devem ocupar uma faixa de encostas entre 300 e 550-650 metros (dependendo da subzona) de altitude e orientação sul, vista como a mais adequada para elaboração de vinhos de alta gama. O rendimento máximo é de 56 hectolitros por hectare. Há um limite mínimo de 12% para o teor alcóolico e os vinhos devem passar por envelhecimento mínimo de 24 meses, dos quais 12 em carvalho. Existe também uma tipologia extra (Valtellina Superiore Riserva), na qual o período de envelhecimento não pode ser inferior a 36 meses.

Rosso di Valtellina DOC

Também chamada de Valtellina Rosso DOC, teve sua criação em 1968. Esta denominação de origem pode ter sua relação com Valtellina Superiore DOCG descrita nos mesmos moldes da hierarquia entre Rosso di Montalcino DOC e Brunello di Montalcino DOCG. Sua cobertura de vinhedos inclui áreas fora da área “tradicional”, além de parcelas situadas em terraços mais altos, até 700 metros de altitude. A regulamentação em relação ao uso da Nebbiolo é a mesma. Já os rendimentos podem ser mais elevados (até 70 hl/ha) e o teor alcóolico mais baixo (mínimo de 10%). O período mínimo de envelhecimento é de seis meses.

É importante destacar que, por ser engarrafado dentro desta denominação de origem, o vinho não necessariamente tem um padrão de qualidade inferior àqueles rotulados como Valtellina Superiore. Além das diferenças entre produtores, há casos em que estes vinhos mostram maior adaptação às condições de cada safra, geralmente por conta da maior altitude. Além disso, dependendo do gosto do consumidor, são vinhos que se mostram “mais prontos”, por conta do menor tempo mínimo de envelhecimento.

Sforzato di Valtellina DOCG

Esta denominação, mais do que uma área de produção, se refere a um processo. Da mesma forma que acontece com os Amarones, os Sforzatos (também chamados de Sfursat) tem sua elaboração a partir de uvas apassiatadas. As uvas geralmente provêm das partes mais altas das colinas (limitadas a 700 metros pelas regras atuais da DOCG), com colheita prematura para garantir acidez elevada. A seguir, as uvas são apassitadas por cerca de três meses em esteiras posicionadas em galpões ventilados.

Vale a mesma limitação em relação às uvas permitidas, porém com um rendimento máximo de 40 hl/ha. O período mínimo de envelhecimento é de 20 meses, dos quais pelo menos 12 meses em botti, com um teor alcóolico mínimo de 14%. Cerca de 10% da produção da Valtellina adota este método, que dá origem a vinhos densos com enorme potencial de guarda. Vale destacar também a grande diferença entre safras. Colheitas mais frias geralmente garantem uma acidez mais alta, que harmoniza o dulçor e maior concentração e resulta em vinhos mais equilibrados.

Alpi Retiche IGP

Criada em 2011, esta IGT teve seu nome mudado de Terrazze Retiche di Sondrio para Alpi Retiche em 2020. É uma indicação geográfica que cobre uma área bem mais ampla e considera a utilização de diversas variedades. Entre elas estão algumas variedades internacionais, como Chardonnay e Pinot Blanc, além das locais Pignola, Rossola e Nebbiolo.

Vários estilos de vinhos são permitidos. Há diversas tipologias regulamentadas, tais como Alpi Retiche Bianco, Alpi Retiche Rosso, Alpi Retiche Rosso novello, Alpi Retiche Rosato, Alpi Retiche Rosato frizante, Alpi Retiche Passito, Alpi Retiche Vendemmia Tardiva e Alpi Retiche Spumante Metodo Classico. Os requisitos de rendimento máximo e o teor alcóolico mínimo são bem mais flexíveis que aqueles das denominações de origem anteriores, dependendo da tipologia.

Propostas de mudança

Porém, existe quase um consenso na região de que o atual conjunto de regras deve mudar. Na opinião tanto de produtores como apreciadores, elas impactam a produção e não trazem uma comunicação eficiente aos consumidores. Um dos pontos de disputa é a altitude máxima dos vinhedos. Refletindo a produção muito maior no passado, já existem terraços construídos até ao menos 900 metros, que poderiam ser utilizados para vinhos de excelente qualidade, até por conta do impacto do aquecimento global na região.

Uma das propostas passa pela delimitação da denominação Valtellina Superiore até 650 metros de altitude, porém aumentando os limites de Rosso di Valtellina e Sforzato di Valtellina até 900 metros. Com isso, a IGT Alpi Retiche ficaria restrita a uma seção separada a oeste da região, além das partes baixas do vale e dos vinhos elaborados com uvas que não sejam a Nebbiolo. As discussões incluem também a mudança no nome das denominações de origem, algo que pode acontecer em até quatro anos. O passo seguinte seria uma valorização maior das cinco subzonas, com a criação de MGAs, nos moldes do que já existe no Barolo e Barbaresco.

Fontes: Vini di Valtellina; World Atlas of Wine, Hugh Johnson; Valtellina DOCG and Sforzato, Mario Cagnetta e Wine Scholar Guild; Disciplinare di produzione della denominazione Valtellina Superiore DOCG; Disciplinare di produzione della denominazione Rosso di Valtellina DOC; Disciplinare di produzione della denominazione Sforzato di Valtellina o Sfursat di Valtellina DOCG; Disciplinare di produzione della Indicazione Geografica Tipica dei vini Alpi Retiche; entrevista com produtores.

Imagem: Arquivo pessoal

Mapas: Vini di Valtellina, Wine Scholar Guild

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