Veneza é daquelas cidades inesquecíveis. Um dos lugares mais românticos do mundo, um verdadeiro museu ao ar livre, com um estoque quase inesgotável de obras de arte, arquitetura memorável e uma atmosfera única. E, para quem gosta de vinhos, Veneza tem apostado também na reintrodução de seus vinhedos.
Pode parecer que esta cidade italiana, construída sobre uma quase infinidade de pequenas ilhas, tem pouco espaço. Porém, seja em minúsculas parcelas de terra dentro da área central ou pequenas ilhas mais distantes, estamos vendo o renascimento de alguns vinhedos da Sereníssima, que era como a República de Veneza era conhecida.
Tunel do tempo
Em 2010 houve o lançamento de um ambicioso projeto, coordenado pelo Consórcio de Vinhos de Veneza, juntamente com as Universidades de Pádua e de Milão, além do CRA-Vit de Conegliano. O objetivo? Mapear as antigas videiras de Veneza. Além de usar técnicas modernas, como o estudo do DNA das videiras, a decisão foi recriar dois vinhedos, um na ilha de Torcello e outro dentro do Convento dei Carmelitani Scalzi.
Contando com a colaboração da população, sobretudo das ordens religiosas ainda ativas na cidade, o estudo mostrou uma incrível quantidade de variedades de uvas distintas. Nada menos do que 25 variedades diferentes tinham presença na área de Veneza. Entre elas, uvas como Albana, Dorona, Garganega, Glera (a uva do Prosecco), Malvasia Istriana, Moscato Giallo, Friulano, Trebbiano, Trebbiano Romagnolo, Verduzzo Trevigiano, Vermentino, Marzemino, Merlot e Raboso Veronese.
Entre as peculiaridades ficou a identificação até de uma variedade originária da Armênia. Ela foi identificada na pequena ilha de San Lazzaro degli Armeni, mais exatamente dentro da propriedade de um monastério.

Renascimento de vinhedo urbano
Dentre os dois vinhedos recuperados, a visita mais fácil e é aquela no Convento dei Carmelitani Scalzi. Ele fica na área de Cannareggio, mais especificamente adjacente à majestosa igreja de Santa Maria de Nazaré. Para quem conhece um pouco desta cidade mágica, é somente uma curta distância de Santa Lucia, a estação de trem de Veneza que recebe a esmagadora maioria de seus turistas.
Cada planta, seja videira ou erva, foi alinhada de acordo com um projeto numérico e simbólico que se refere diretamente ao Novo e Antigo Testamentos, à dicotomia entre a vida mortal e espiritual. Esta estrutura, refeita em 2015, busca replicar o que existia no passado. Vale lembrar que estudos arqueológicos mostraram que videiras fizeram parte do dia a dia deste convento por muitos séculos. A partir deste vinhedo, há a elaboração de cerca de 1.000 garrafas por ano.
Pequena ilha com muita história
O segundo projeto tem como sede a ilha de Torcello. Hoje existe lá um vinhedo cujas raízes tocam os restos de um antigo complexo eclesiástico, o de São João Evangelista. Assim, acima dos achados arqueológicos do antigo mosteiro medieval, que permaneceu subterrâneo, o Consórcio de Vinhos de Veneza plantou as videiras coletadas em muitos jardins espalhados pela laguna e pela cidade de Veneza.

Pouca gente sabe, mas foi em Torcello que começou a história milenar de Veneza. No século V, uma grande parte da população da cidade de Altino, que ficava na parte continental da Itália, fugiu para esta pequena ilha. A motivação desta jornada foi escapar da invasão de Átila, o Huno. E, além de suas famílias, crenças e riquezas materiais, levaram também o hábito de beber vinhos.
Outros projetos
O renascimento do vinho veneziano, porém, não parou nestes dois projetos. Na pequena ilha de Mazzorbo, ao lado da ilha de Burano e um pouco mais próxima do que Torcello, o projeto Venissa optou pela recuperação de uma variedade autóctone de Veneza. Com base em um vinhedo de cerca de 0,8 hectare plantado com a uva Dorona di Venezia, há uma produção de cerca de 3.500 garrafas ao ano. O mesmo projeto elabora também um tinto (corte de Merlot e Cabernet Sauvignon). No caso, porém, a área de cerca de 2,85 hectares de vinhedos fica na ilha de Santa Cristina.
Outra iniciativa que envolve a elaboração de vinhos é o Orto di Venezia, baseado na ilha de Sant’Erasmo. Esta região tem sido por séculos fornecedora de produtos agrícolas (com destaque para suas famosas alcachofras) para a cidade de Veneza. Gerida pelo escritor francês Michel Thoulouze, usa uvas de cultivo orgânico e baixa intervenção na vinificação. O resultado é um vinho branco que tem a variedade Malvasia Istriana como atriz principal.
Na mesma ilha, a cooperativa local também elabora vinhos. Por fim, existe também a produção de vinhos a partir de videiras plantadas na ilha de San Michele (a ilha cemitério de Veneza, relativamente próxima ao centro) além de pequenos projetos em monastérios e outras ilhas da laguna.
Fontes: Consorzio Vini Venezia; Gambero Rosso; Venissa; Orto di Venezia
Imagens: Alois Wonaschütz via Pixabay (capa); Consorzio Vini Venezia (internas)
A minha linda KAREM CAINELLI e eu fizemos o combo europeu romântico (Veneza e Paris). São destinos imperdíveis para casais apaixonados como nós.
DAVID SIMON BERGMANN