O Vale do Loire é uma das mais importantes regiões vinícolas da França e sede de alguns de seus mais impressionantes castelos. E isso não poderia ser diferente em Chinon. Ela é uma das mais de 50 denominações de origem dentro desta região, porém uma de suas mais conhecidas, sobretudo pela qualidade de seus vinhos tintos. É nela que a que a Cabernet Franc atinge algumas das melhores expressões a nível mundial.

Chinon é uma região de longa história, e o imponente castelo na cidade de Chinon tem uma íntima relação com a realeza. Henry II Plantagenet (conde de Anjou e rei da Inglaterra), Philippe Auguste e Charles VII (ambos reis da França) viveram nesta fortaleza e, com sua presença, também incentivaram a viticultura na região. Chinon é também conhecida por ser o local onde o escritor e pensador renascentista François Rabelais nasceu. Em suas obras, o autor de A Vida de Gargantua e Pantagruel sempre fez questão de destacar a qualidade dos vinhos da região.
Localização e solos
Chinon está localizada na parte central do Vale do Loire, mas especificamente a cerca de 30 quilômetros a sudeste de Saumur e 40 quilômetros a sudoeste da cidade de Tours. Dentre as quatro sub-regiões do Vale do Loire, faz parte da Touraine. É no município de Chinon que o rio mais longo em território francês, o Loire, encontra o rio Vienne. Este, por sua vez, forma uma espécie de espinha dorsal da região, com vinhedos em ambas suas margens.

A proximidade do rio Vienne também molda os solos da região. Boa parte de Chinon é dominada por um platô (formado no período Turoniano) composto por solos de calcário, mais especificamente um calcário amarelado chamado tuffeau. Porém, nas margens do rio, a erosão e os depósitos aluviais foram responsáveis por um perfil distinto de solo, mais arenoso e com presença intensa de seixos de rio. Este tipo de solo é chamado localmente de varennes. Há também parcelas de solos mistos do período Senoniano, com calcário e maior presença de areia, chamados de perruches, concentrados nas áreas mais altas da região

A denominação Chinon
A criação da denominação AOC Chinon ocorreu em 31 de julho de 1937, com uma alteração em agosto de 2016. Ela incorpora 26 comunas nas duas margens do Vienne, até o ponto onde ele encontra o Loire. No total, são 2.375 hectares de vinhedos (dados de 2019), dos quais cerca de 95% dedicados à Cabernet Franc (também chamada de Breton na região). Nos demais, o destaque fica com a Chenin Blanc (ou Pineau de la Loire, como também é conhecida).
Nesta denominação municipal (uma das maiores da França onde os limites da AOC coincidem com os do município), estas duas uvas prevalecem de forma quase absoluta (as regras da denominação permitem uma adição de até 10% de Cabernet Sauvignon nos tintos, mas isso raramente ocorre). Assim, Cabernet Franc e Chenin Blanc são as variedades que dão origem aos vinhos tintos (aproximadamente 86% da produção total), rosés (9%) e brancos (5%).
A produção de vinhos em 2019 foi de cerca de 74 mil hectolitros (0,17% da produção total da França), abaixo da média de 88,5 mil hectolitros entre 2015 e 2019. Cerca de 10% destes vinhos tiveram como destino os mercados externos, quase a metade dos quais para os Estados Unidos. O restante foi para o mercado francês (em especial na própria região de Chinon, que responde cerca de um quarto do total). Chinon tem a maior produção de vinhos tintos entre todas as denominações de origem do Vale do Loire.
Terroir e estilos de vinho
Além da variedade de solos, outra importante característica de Chinon é o seu clima. A confluência dos rios Loire e Vienne marca o início da região onde há maior influência atlântica. Contando com brisas oceânicas, seus verões são quentes, mas os invernos são amenos. A temperatura média fica entre 35° e -4 ° C, com mais de 2.100 horas de sol, em média, a cada ano. Por outro lado, as chuvas estão bem abaixo da média nacional.
Quando se fala dos vinhos tintos de Chinon, dois estilos distintos chamam atenção. A distinção tem a ver com a proximidade dos vinhedos em relação ao rio Vienne, e, consequentemente, a composição do solo. Os vinhedos mais próximos ao rio e de solos arenosos e com seixos dão origem a monovarietais de Cabernet Franc mais leves e frutados, que, em geral, não passam por madeira. Eles são vinhos mais adequados para consumo mais rápido, com seu pico geralmente entre dois a cinco anos.

Já os solos de tuffeau originam vinhos mais estruturados e com perfil de guarda (10 a 20 anos), que geralmente passam por estágio em carvalho. São vinhos mais austeros, lembrando aqueles de Bourgueil e St Nicholas de Bourgueil. Os vinhedos mais disputados são aqueles de orientação sul em Cravant-les-Coteaux e os no platô acima de Beaumont.
Principais produtores
Atualmente são mais de 200 produtores elaborando vinhos a partir dos vinhedos de Chinon, um número crescente e que combina produtores com grande tradição e também novas vinícolas. É uma região onde a preocupação com o cultivo mais sustentável segue crescendo rapidamente, com mais de 20% dos vinhedos (dados de 2015) cultivados de acordo com os princípios da agricultura orgânica.
Dentre os principais produtores, destaque para Bernard Baudry, Olga Raffault, Philippe Alliet, Charles Joguet, Domaine de la Noblaie, Domaine Grosbois, Château de Coulaine e Couly-Dutheil. Vale a menção também a produtores sediados em outras denominações que também elaboram vinhos em Chinon. Alguns exemplos são Catherine e Pierre Breton, ou produtores de menor porte, como Wilfried Rousse e Domaine de Pallus.
Fontes: The World Atlas of Wine, Hugh Johnson; Loire Wines; Vins Val de Loire; AOC Chinon; A Enciclopedia do Vinho, Hugh Johnson; Jancis Robinson; The Oxford Companion to Wine, Jancis Ronbison; Wine Searcher; Le Figaro;
Mapas: Vins Val de Loire