O Beaujolais é uma região repleta de peculiaridades no que diz respeito à elaboração de vinhos. Muitos a conhecem por conta do Beaujolais Nouveau, um vinho fresco, simples e muito frutado, lançado pouco depois da colheita, geralmente no final de novembro. Mas também é uma referência para vinhos de grande qualidade, sobretudo aqueles das dez denominações de origem chamadas de Cru de Beaujolais.
Dentre estas regiões, Morgon talvez seja a mais conhecida. É a segunda maior dentre os Cru de Beaujolais em área plantada, mas seu principal reconhecimento vem da qualidade de seus vinhos, certamente dentre os melhores elaborados no Beaujolais. Eles têm sua elaboração a partir da variedade Gamay e, em geral, mostram uma excelente estrutura e potencial de evolução.
Localização, uvas e produção
Villié-Morgon, o principal vilarejo da denominação Morgon, fica na parte norte do Beaujolais, cerca de 20 quilômetros ao sul de Mâcon, na Borgonha, e aproximadamente 45 quilômetros ao norte de Lyon. A denominação Morgon conta com cerca de 1.100 hectares de vinhedos, o que a coloca como o segundo maior Cru de Beaujolais, somente atrás de Brouilly.

É uma região que foca exclusivamente na elaboração de vinhos tintos, com a Gamay aparecendo como destaque. Até 2009 o conselho da denominação permitia até 15% de Pinot Noir na composição de seus vinhos, mas isso mudou. Atualmente a única exceção é o uso de uvas acessórias, como Aligoté, Chardonnay e Melon de Bourgone no corte, com um máximo de 15%. Vale lembrar que todas estas variedades resultam do cruzamento entre Pinot Noir e Gouais Blanc, portanto são “irmãs” da Gamay.
Morgon produz cerca de 50,2 mil hectolitros de vinho ao ano, o que corresponde a aproximadamente 6,7 milhões de garrafas. Na comparação com os demais Crus de Beaujolais, é o segundo maior produtor, com cerca de 21% do total.
A denominação Morgon
A criação da denominação de origem Morgon ocorreu em 1936, dentro primeiro de lote de denominações aprovadas na França, como Morgon AOC (Appellation d’Origine Contrôlée). Além disso, também possui o selo europeu AOP (Appellation d’Origine Protégée). Segundo os regulamentos da denominação, a concentração de vinhas não pode ultrapassar 6.000 por hectare.
Há um limite máximo de produção de 10 toneladas de uva por hectare, em linha com outras regiões, como Borgonha, Bordeaux e Champagne, que, porém, fica abaixo deste patamar para os melhores produtores. O conselho regulador da denominação também fixou um rendimento máximo entre 56 e 63 hectolitros por hectare, com proibição de irrigação.
Vinhedos e terroir
Embora não exista um sistema oficial de classificação de vinhedos, na linha dos climats da Borgonha, em Morgon existem diversos lieux-dits, dois quais ao menos dez chamam a atenção. Cinco deles merecem maior destaque (Aux Charmes, Côte du Py, Grands Cras, Corcelette e Douby), porém, outros têm recebido atenção mais recentemente, como Aux Chênes, Javernière, Château Gaillard, Bellevue e Fontriante.
O clima varia bastante e a região sofre a influência oceânica, a partir do Vale do Loire. São chuvas bem distribuídas ao longo da estação e atenuadas pela geografia local. A influência do Mediterrâneo é mais forte no verão, com incidência de tempestades, enquanto os ventos do norte são mais frios e secos. A altitude média dos vinhedos é de 310 metros.
Três tipos principais de solos
Por conta de sua maior extensão, Morgon conta com uma significativa variação de perfis de solos, embora sua topografia conte com colinas mais suaves. Os solos de granito respondem por cerca de 52% da área de vinhedos, cobrindo, sobretudo, as partes norte, central e oeste da denominação de origem. Dentre os lieux-dits com este perfil de solo, destaque para Corcelette, Fontriante, Douby, Château Gaillard, Aux Charmes e Bellevue. Já os solos aluviais representam 11% dos vinhedos, como em Grands Cras e Aux Chênes (este último combinando com granito)

Porém, um importante diferencial de Morgon é a presença de solos de xisto decomposto, chamados de pierre bleue (pedras azuis). Eles respondem por aproximadamente 37% dos solos da região. Um exemplo é a Côte de Py, talvez o mais cultuado conjunto de vinhedos da região. Nele, este solo de origem vulcânica mostra altas concentrações de ferro e manganês, algo que ocorre também em Javernière.
Estilo de vinificação e vinhos
Embora uma parte significativa dos produtores adote o método de maceração semi-carbônica na elaboração de seus vinhos, isso não é consenso. Além disso, uma proporção elevada acaba fazendo uso de barris de carvalho para o amadurecimento. Por conta disso e do terroir da região, os vinhos de Morgon figuram entre os mais longevos do Beaujolais. Seu perfil de consumo ideal geralmente fica entre cinco a dez anos a partir de sua safra.
O perfil dos vinhos da região, para alguns críticos, lembra aqueles do Rhône norte. Por outro lado, um estilo mais próximo da Borgonha seria aquele dos vinhos da denominação Moulin-à-Vent. Notas de cereja madura (kirsch) são uma característica dos vinhos da região, com aqueles dos liex-dits Côte du Py, Les Cras e Aux Charmes, em geral, mostrando maior personalidade e potencial de guarda.
Por conta da sua capacidade de expressar muito bem o terroir, essa denominação tem algo específico. Um novo termo ganhou espaço no vocabulário vitivinícola francês: “morgonner“, que poderia ser traduzido como “morganizar”. Este termo se refere ao sabor particular do vinho e como ele é uma expressão de seu terroir.
Principais produtores
Atualmente, são cerca de 250 produtores elaborando seus vinhos a partir desta denominação. Até pela sua área relativamente ampla e qualidade de seu terroir, concentra produtores de grande qualidade. Por exemplo, todos os produtores da famosa Gangue dos Quatro do Beaujolais (Lapierre, Breton, Foillard e Thévenet) elaboram alguns de seus principais cuvées nesta denominação.
Alguns outros produtores, dentre tantos outros, que merecem atenção, como Jean-Marc Burgaud, Damien Coquelet, Jean Paul Brun, Daniel Bouland, Domaine Ruet, Georges Descombes, Julien Sunier, Louis-Claude Desvignes e Antoine Sunier.
Fontes: Beaujolais.com; The World Atlas of Wine, Hugh Johnson; Musée de Boissons; Vin & Champagne; The Wine Society; The New York Times; Le Figaro
Imagem: Etienne Ramouse Images via Beaujolais.com
Mapas: Beaujolais.com, Vins du Beaujolais