Valle del Itata: o tesouro secreto dos vinhos ancestrais chilenos

Last Updated on 26 de abril de 2021 by Wine Fun

O Valle del Itata pode ser considerado como uma das mais simbólicas regiões vinícolas do Chile. De um lado, é uma das poucas áreas do país onde a produção de vinho segue de forma consistente desde o início da conquista espanhola, com vinhedos já sendo plantados desde 1550. De outro, é uma das regiões que melhor mantiveram sua tradição, com boa parte da produção nas mãos de pequenos produtores, trabalhando de forma ancestral a partir de vinhas velhas.

Se o Chile é um exemplo de rápido crescimento da indústria vinícola, com a monocultura e grandes propriedades dominando aquelas que são atualmente suas maiores áreas de produção, o Valle del Itata resistiu a esta tendência. Ao invés de vinhos industriais produzidos em grande escala para o mercado de exportação, Itata é uma espécie de volta ao passado. Simboliza o que mais se procura hoje: vinhos artesanais e de qualidade, que bem representem o seu terroir.

Localização e denominação

A sub-região de Valle del Itata faz parte da Región Vitícola del Sur, que, dentro da segmentação vitivinícola adotada no Chile, é uma das seis regiões do país. Geograficamente, Itata é a sub-região onde começa a região sul, já que o Valle del Maule, imediatamente ao norte, faz parte da Región Vitícola del Valle Central, a maior do Chile.

Administrativamente, a grande maioria da sub-região vitícola Valle del Itata fica localizada na região de Ñuble. Esta é a menor e mais recente (conquistou sua autonomia da região de Bío-Bío em 2018) das 16 regiões administrativas do Chile. A maior cidade da região é Chillán, que fica a cerca de 410 quilômetros ao sul de Santiago.

De acordo com a definição do Ministério da Agricultura chileno, a denominação de Valle del Itata inclui as comunas de Chillán, Coelemu, Ránquil, Quillón, Portezuelo, Ninhue, Treguaco, Quirihue, São Nicolau, Bulnes e San Carlos (todas na região de Ñuble), além da comuna de Florida, que fica na região administrativa de Bío-Bío.

Pioneirismo e crescimento

Itata, que significa “pasto abundante” no idioma local mapudungún, tem um importante papel da história da viticultura no Chile. A conquista desta região pelos europeus ocorreu no começo do século XVI, sobretudo após a batalha de Reinogüelén em 1536. Foi na confluência dos rios Ñuble e Itata que os espanhóis derrotaram os araucanos. A partir de 1550 a área passou a ser ocupada e cultivada, incluindo com vinhedos. A chegada dos jesuítas no final de século XVI acelerou o processo e, já a partir do século XVII, os vinhos de Itata eram reconhecidos.

Alguns dados do século XIX mostram a importância da região. Apesar da implantação de grandes fazendas, pequenos produtores predominavam: em 1822, eles correspondiam a 76% da produção total de vinhos, contra 24% das grandes fazendas. De acordo com o censo de 1837, existiam 8 mil hectares de vinhedos no Chile, metade dos quais na província de Concepción, da qual Itata fazia parte. E esta concentração aumentou ainda mais: 80% dos vinhedos do Chile em 1861-1865 localizavam-se ao sul da Valle del Maule. E Itata era o principal destaque.

Auge e declínio

O crescimento da viticultura na região continuou, com exportações já a partir do começo do século XX e criação de infraestrutura para produção de vinhos, incluindo tanoarias. Em 1923 o departamento de Itata produziu 82.757 hectolitros de vinho, com pico de exportações em 1951. A partir daí, porém, as atenções da vinicultura no Chile se focaram em outras regiões.

Em 2019, a produção total da região de Ñuble foi de 29.573 hectolitros de vinho, que correspondia a somente 2,4% da produção total do Chile. Considerando a produção de vinhos com denominação de origem, a proporção era ainda menor, com apenas 0,9% do total nacional. Porém, para quem gosta de bons vinhos, o indicador a analisar não é quantidade, mas qualidade, exatamente onde está o diferencial de Itata.

Terroir

Do ponto de vista climático, o Valle del Itata pode ser definido como Mediterrâneo úmido, por conta de sua latitude e proximidade do mar. É uma região de grande amplitude térmica (dias quentes e noites frias), o que favorece a elaboração de vinhos de alta qualidade. Suas temperaturas médias, na faixa de 17Cº, são também inferiores às principais áreas de cultivo de videiras no Chile.  Além disso, Itata apresenta um regime de chuvas bastante adequado, concentradas sobretudo no inverno. Isso permite a viticultura sem irrigação, ou secano, como conhecida na região.

Já os solos, de origem vulcânica, são bastante ricos, o que justifica o nome recebido e a sua escolha como local para plantação de uvas e cereais a partir do século XVI. No entanto, a região conta também com extensas áreas em colinas, onde solos mais pobres se mostram mais adequados para elaboração de vinhos de qualidade.

Variedades plantadas e perfil de produção

Considerando as comunas definidas pelo Ministério da Agricultura chileno, a área de vinhedos da denominação Valle del Itata era de 10.165 hectares em 2019, dos quais 56,2% plantados com variedades tintas e os demais com brancas. A variedade com maior área plantada era a Moscatel de Alexandria, com 37,6% do total, seguida pela País (34,8%) e Cinsault (8,2%). Por outro lado, a presença em Itata das variedades internacionais mais plantadas no Chile era menor: Cabernet Sauvignon (5,2% da área plantada), Merlot (1,7%) e Chardonnay (1,6%).

Mas não é somente na composição de seus vinhedos que o Valle del Itata mostra uma diferença significativa com outras regiões do Chile. Também o tamanho das propriedades é muito menor. Em média, as propriedades no Valle de Itata têm cerca de 1,9 hectare de vinhedos, contra uma média de cerca de 10 hectares em escala nacional. Em poucas palavras, Itata é uma região que foge completamente do que se encontra em boa parte do Chile, daí merecer uma atenção especial para quem está buscando novas experiências no mundo do vinho.

Fontes: Viñas del Itata; Una historia de cinco siglos, Armando Cartes Montoroy, Fernando Arriagada Cortés; Ministerio de Agricultura de Chile: Normativas servicio agrícola y ganadero, zonificación vitícola y normas de utilización; Wines of Chile; Ministerio de Agricultura de Chile: producción de Vinos 2019; Ministerio de Agricultura de Chile: cadastro vitícola nacional

Imagem: Santa Carolina

Mapas: Rimontgó Wineries

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