Videiras pré-filoxéricas e ancestralidade: os vinhos da Casa do Joa

Last Updated on 20 de julho de 2024 by Wine Fun

Jorge Ortega Afonso criou a Casa de Joa (acrônimo de seu nome), com objetivos muito claros. O foco deste enólogo português é a elaboração de vinhos usando métodos ancestrais a partir de videiras centenárias, muitas das quais em pé franco e pré-filoxéricas. Com isso, valoriza a vinicultura tradicional da região de Trás-os-Montes, no nordeste de Portugal: uma verdadeira máquina no tempo.

Foi um prazer participar da apresentação dos vinhos deste produtor português até então não disponíveis no mercado brasileiro. Chegam ao Brasil pela curitibana Quattro Import, representada em São Paulo pela incansável promotora de vinhos de baixa intervenção Irma Ferreira.

Alto do Joa Branco 2020, 13%, R$ 649

Um vinho branco de maceração (ou curtimenta, como preferem os portugueses) elaborado a partir de uma seleção de cerca de 15 varietais. Entre eles, uvas autóctones como Esgana Cão, Formosa, Siria, Douradinha, Gouveio, Folgasão, Chasselas Salsa) com vinhas velhas de mais de 120 anos, pré-filoxéricas e muitas em pé franco. Na vinificação, contato com as cascas de quatro semanas e fermentação, com uso exclusivo de leveduras indígenas em barris de carvalho francês de 500 litros. O vinho fez estágio de 19 meses nos mesmos recipientes.

Um vinho laranja de muita tipicidade, bem representando este estilo que recuperou tradições ancestrais e ganhou adeptos ao redor do mundo nas últimas décadas. Olfativo marcado por aromas de casca de laranja, com notas de ervas verdes e secas (hortelã e tomilho). No palato, média acidez, corpo médio a alto e muita textura, conseguiu aliar uma explosão aromática na boca com frescor e estrutura, com notas de frutas secas, turfa, iodo e final salino.

Alto do Joa Rosé 2020, 14%, R$ 619

Elaborado com a partir de vinhas velhas de mais de 120 anos, de varietais tintos e brancos como Bastardo, Mourisco Tinto, Cornifesto, Tinta Bairrada, Alvarelão, Malvasia Preta, Jaén, Esgana Cão, Formosa, Siria, Douradinha, Gouveio, Folgasão e Chasselas Salsa. Maceração seguida por sangria, fermentação espontânea em barricas de 500 litros de carvalho francês e estágio de nove meses em barricas de acácia.

Um rosé de respeito, trazendo estrutura, complexidade, tensão e uma refrescante salinidade. Coloração rosada mais escura com reflexos acobreados, com olfativo complexo e instigante. Destaque para aromas mais discretos de frutas vermelhas, com notas florais, de maresia e leve oxidativo. No palato, um rosé bem seco e direto, com alta acidez, textura lembrando mais um tinto que um branco, boa amplitude, notas salinas e ótima persistência. Dentre os três vinhos aqui descritos, o mais equilibrado.

Alto do Joa Tinto 2017, 12,5%, R$ 639

Este tinto utiliza o mesmo mosto do rosé, porém com maceração mais longa e com tempo maior de estágio em carvalho. O resultado foi um vinho de muita personalidade. Combina algumas características presentes em regiões vizinhas ao Trás-os-Montes (potência, concentração  e estilo de fruta mais negra e compotada) com salinidade e notas de ervas verdes/raiz de alguns tintos de regiões próximas ao Atlântico do noroeste da Península Ibérica.

No olfativo, mostrou um perfil de frutas mais maduras, sobretudo negras (ameixa em destaque), com toque de ervas verdes e secas, cedro e especiarias. Na boca, um vinho bem intenso, seco e aromático, com notas de cacau e uma combinação de frutas negras mais maduras com sal. Denso e mastigável, com taninos bem presentes e estrutura robusta, mas longe de ser pesado ou cansativo por conta da boa acidez e notas salinas.

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