Vinhedos sem irrigação: buscando qualidade ao abrir mão da quantidade

Last Updated on 14 de março de 2021 by Wine Fun

Parece haver pouca dúvida de que a forma na qual os vinhedos são cultivados acaba sendo refletida na qualidade dos vinhos. Viticultores ao redor do mundo tem cada dia mais buscado cuidar de suas vinhas de formas mais naturais, com menor uso de fertilizantes e pesticidas químicos, sobretudo nos moldes definidos pelos princípios da agricultura orgânica e da biodinâmica.

Em paralelo, existe também a questão da irrigação.  Mesmo antes dos recentes avanços para banir produtos químicos nos vinhedos, a forma e frequência de irrigação já era central na viticultura. Por exemplo, não são poucas as regiões produtoras, incluindo algumas das mais importantes do mundo, que optaram por proibir a irrigação dos vinhedos.

Quantidade versus qualidade

A principal questão por trás da discussão sobre irrigação diz respeito ao dilema quantidade versus qualidade. Como qualquer planta, a videira tem como seu principal objetivo sobreviver e se multiplicar. Em um ambiente de condições favoráveis, inclusive muita água, a planta cresce de forma mais acelerada, se torna mais vistosa, com muitas folhas. Com tanta energia dispersa em novos brotos e folhagem adicional, as uvas acabam ficando em segundo plano.

Por outro lado, em condições mais difíceis, entre elas a falta de água, a planta abandona um padrão de crescimento mais rápido para concentrar suas energias em se reproduzir. E isso implica em direcionar suas forças para as uvas, pois são elas que contém as sementes que permitirão sua reprodução. Assim, mantidas as outras condições inalteradas, videiras com algum tipo de déficit hídrico (desde que não seja muito severo) tendem a gerar uvas mais concentradas.

Dry farming e secano

Por conta disso, hoje não faltam produtores que se orgulham em deixar claro que seus vinhedos são cultivados sob um regime sem irrigação, conhecido em inglês como dry farming; ou secano, em espanhol. O objetivo é que as videiras passem por alguma privação de água, o que as força a serem menos vistosas e produzirem menos uvas, porém de maior concentração. É a troca de maior quantidade por melhor qualidade.

Deste modo, podemos identificar duas motivações para cultivar vinhedos não irrigados. Por um lado, como descrito acima, é uma técnica que permite a expressão absoluta do terroir no vinho. Ao não irrigar, a intervenção é mínima. A cada ano a planta produz de acordo com a quantidade de água que a natureza fornece. Por outro lado, com o aquecimento global e constante diminuição da oferta de água da chuva em boa parte do mundo, talvez seja necessário aprender a sobreviver sem ter que irrigar.

Adaptação das videiras

É importante destacar que as próprias videiras se adaptam ao regime hídrico ao qual são sujeitas. Por exemplo, em locais onde as chuvas são constantes ou existe irrigação, as raízes não têm a necessidade de ir mais fundo para buscar água e nutrientes. Por outro lado, onde existe um regime irregular de chuvas e não é feita a irrigação, a planta de adapta para obter os recursos necessários para sobreviver.

Assim, o raciocínio por trás da preferência por vinhedos não irrigados seria próximo àquele usado para explicar a preferência por vinhas velhas. Por conta das restrições hídricas impostas (seja pela natureza ou pelo homem) as videiras acabam desenvolvendo uma rede mais ampla e profunda de raízes e concentram mais de suas energias nas uvas, do que em folhas e maior crescimento.

Restrições naturais ou impostas

Em diversas regiões do mundo, as videiras aprenderam a contornar o déficit hídrico, desenvolvendo raízes profundas e crescimento limitado, com uvas muito concentradas. Um exemplo é a ilha de Santorini, na Grécia. Com clima seco e chuvas muito concentradas em poucos meses, ausência de rios e solos vulcânicos, as videiras se tornaram plenamente adaptadas à restrição de água. Além disso, a falta de fontes naturais de água na ilha encarece muito o preço da água, de forma que irrigação é algo quase impensável nesta região.

Existem diversas regiões onde estas condições de deficiência hídrica possibilitaram o desenvolvimento de vinhedos que não necessitam de irrigação, como em algumas partes do Chile (há regiões denominadas como Secano) e da Espanha.

Porém, a questão da irrigação não responde somente a fatores naturais. Para proteger a qualidade do vinho, a irrigação é ilegal em algumas das melhores regiões vinícolas do mundo, particularmente na Europa. Isso inclui algumas denominações famosas, como Borgonha, Bordeaux, Barolo, Barbaresco e Brunello. Nestes casos, como o volume de chuvas é mais que suficiente para as videiras, a proibição visa evitar que a produtividade dos vinhedos seja alta demais, resultando em uvas e, consequentemente, vinhos menos concentrados.

Cuidados e condições

No entanto, o cultivo de vinhedos não irrigados tem limitações. Mesmo nas regiões mencionadas acima, pode haver irrigação em condições adversas, ou seja, em anos extremamente secos.  Um ponto fundamental é a densidade de vinhedos, pois, existindo uma limitação de água, o ideal é que o número de videiras por hectare seja menor. O objetivo é que menos plantas concorram pela quantidade limitada de água disponível.

Outro ponto importante diz respeito ao porta-enxerto utilizado. Por conta da filoxera, a grande maioria das videiras do mundo trabalha com porta-enxertos de uvas americanas e, no caso de vinhas cultivadas sem irrigação, é essencial que estes porta-enxertos sejam resistentes à seca.

Também as condições do solo são de grande importância. Para que a planta sobreviva, há a necessidade que exista água no solo, nem que seja em uma camada mais profunda. Assim, os solos precisam ser permeáveis, para que a água possa ser armazenada pelo solo.

Conclusões

A questão da irrigação é central na qualidade das uvas. Porém, não se pode afirmar que os vinhos de vinhedos irrigados sejam piores, sem que antes seja analisada uma ampla gama de condições. Existem muitas regiões vinícolas de alto padrão de qualidade onde a irrigação é legal. A irrigação, deste modo, deve ser analisada dentro de um grande conjunto de variáveis

Com ou sem irrigação, o fundamental é que o viticultor consiga que a videira trabalhe nas condições ideais para a elaboração de vinhos de qualidade. Não há dúvida que água em excesso possa levar a vinhos de menor qualidade, mas o inverso não é necessariamente verdade, pois videiras sem acesso ao mínimo suficiente de água também tendem a gerar vinhos mais difíceis. Existe um ponto ótimo que deve ser atingido, seja pela própria natureza como pela intervenção do homem.

Fontes: The Benefits of Dry-Farming Wine For the Palate and the Planet, Modern Farming; Wine Spectator; Three Myths About Irrigation and Dry Farming; Polkura

Imagem: Foxen Vineyard and Winery

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