Last Updated on 31 de agosto de 2020 by Wine Fun
Todas as vezes que pensamos em vinho, fazemos a associação direta com a tradição que veio da Europa. Afinal de contas, foram os europeus que disseminaram a cultura do vinho ao redor do mundo. Seja nos Estados Unidos, na África do Sul, na Austrália ou na América do Sul, produzir vinho é sempre associado a uma herança europeia.
Atualmente, são milhares de produtores ao redor do mundo produzindo vinhos fora da Europa a partir das uvas que foram trazidas pelos europeus. Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Tempranillo, Syrah, Malbec ou Sangiovese são apenas algumas das variedades que romperam a barreira geográfica e são plantadas em outros continentes. Mas você sabia que também existem uvas não europeias? E isso pode afetar a qualidade do vinho que você consome.
Múltiplas espécies
A grande maioria das variedades que conhecemos (incluindo todas as citadas acima) pertence à espécie Vitis vinifera, originária da Europa e do oeste da Ásia. Imagine um grande vinho do mundo e estará pensando em um vinho elaborado com qualquer uma das variedades que fazem parte desta espécie. Isso não significa, porém, que a Vitis vinifera seja a única espécie de Vitis.
No total, existem cerca de 80 espécies diferentes de Vitis, sendo que a Vitis vinifera é apenas uma delas. As demais são originárias de outras partes do mundo, sobretudo da Ásia e das Américas. Alguns exemplos são Vitis labrusca, Vitis rupestris, Vitis riparia e Vitis rotundifolia, todas estas originárias da América do Norte. Embora, em geral, não sejam indicadas para a produção de vinhos, isso ocorre em algumas partes do mundo, inclusive no Brasil.
Vinhos considerados de qualidade inferior
Os vinhos das espécies que não sejam Vitis vinifera são considerados de qualidade inferior, porque têm um aroma chamado de foxado, que vem da palavra fox (raposa, em inglês). Como creio que você nunca tenha tido a oportunidade de sentir de perto o aroma de uma raposa, fica mais fácil defini-lo como um aroma entre o terroso e o doce. Em poucas palavras, aquele aroma que encontramos muitas vezes em uvas de mesa ou suco de uvas.
Se no suco de uva (a maioria dos sucos de uva consumidos no Brasil é elaborada com uvas que não são da espécie Vitis vinifera) estes aromas não incomodam, eles tendem a crescer e realmente fazer a diferença na vinificação. A ciência inclusive descobriu a substância que causa isso, é o antranilato de metila, que não está presente nas variedades da Vitis vinifera, mas está nas demais.
Vitis vinifera é minoria no Brasil
Conhecer esta diferença é bastante importante em um país como o Brasil. Ao contrário da imensa maioria dos países do mundo, a Vitis vinifera é minoria por aqui. Olhando para os dados de produção de vinhos no Rio Grande do Sul em 2018, apenas 15% dos vinhos foram elaborados a partir de variedades que fazem parte da espécie Vitis vinifera.
Os demais foram feitos de outras espécies, como Vitis labrusca, mas, principalmente, de uvas que surgiram do cruzamento entre variedades de Vitis vinifera com Vitis labrusca, chamada de uvas híbridas. Entre elas aparecem algumas muito populares no Brasil, como a Bordô, a Isabel e a Niagara.
Como saber diferenciar
Embora não exista nada errado em consumir vinhos elaborados a partir de uvas híbridas ou de Vitis labrusca (que, em geral, são muito mais baratos que aqueles de variedades que pertencem à Vitis vinifera), é sempre importante saber o que está sendo consumido.
No Brasil, até por conta da enorme presença de variedades híbridas, a própria classificação brasileira de vinhos foi criada para levar isso em consideração. Se você analisar o rótulo ou contra-rótulo do vinho e estiver escrito “Vinho de Mesa”, já sabe que ele foi elaborado com híbridas ou Vitis labrusca. Se, por outro lado, constarem as expressões “Vinho Fino” ou “Vinho de Mesa Fino”, pode ter certeza que estamos falando de um vinho feito a partir das variedades da Vitis vinifera.
Que tal checar a diferença?
Esta preocupação praticamente não existe com vinhos importados, já que a esmagadora maioria do comércio internacional de vinhos é realizado com aqueles elaborados a partir das variedades de Vitis vinifera.
Agora que você já sabe a diferença entre estes vinhos, que tal experimentá-los lado a lado, para saber qual você prefere? Se a grande maioria dos degustadores de vinho tem uma preferência clara, uma coisa é certa: gosto não se discute.
Imagem: Nacho Domínguez Argenta do Unsplash