Vinho e garrafas de vidro: conheça a história deste casamento que já dura 350 anos

Um casamento perfeito. Embora o seu quase completo domínio possa talvez ser ameaçado no futuro por formatos como bag-in-box, há séculos a garrafa de vidro vem sendo o recipiente ideal para transporte e armazenamento do vinho. Seja no formato de Bordeaux ou da Borgonha, seja de coloração verde, marrom ou transparente, é difícil imaginar beber um bom vinho que não tenha passado por uma garrafa de vidro.

Porém, a história do vinho em garrafa é muito menos extensa do que a do vinho em si. Se o vinho tem cerca de 8 mil anos de história, foi somente nos últimos 350 anos que este “casamento” se consolidou.  Várias tentativas foram feitas ao longo dos séculos, mas foi somente a partir de avanços na ciência no século XVII que a garrafa de vidro passou o ser o recipiente dominante.

Longa história

Porém, o vidro e as garrafas têm trajetórias próprias muito mais longas do que seus três séculos e meio de “casamento”. O uso do vidro vem desde a Idade da Pedra, com vidro obsidiano sendo utilizado para ferramentas e armas. A criação do primeiro vidro por ação humana, porém, ocorreu somente em torno de 3.000 A.C., no norte da Síria. E esta invenção rapidamente se espalhou pelas principais civilizações da Antiguidade.

E, como sempre, os romanos tiveram um papel importante na evolução das técnicas de fabricação de vidro. Entre tantos avanços tecnológicos, eles ficaram também conhecidos pela manipulação do vidro, ao desenvolverem e aperfeiçoarem a técnica de soprar vidro para fazer garrafas. A própria palavra vidro vem do latim vitrum e não faltam, em museus modernos, maravilhosos exemplos de copos e garrafas elaborados por esta civilização.

Vidros romanos da coleção do British Museum

Faltava durabilidade

Porém, mesmo com tanta precisão e beleza, faltava uma característica para as garrafas de vidro da antiguidade: a durabilidade. Portanto, acabavam funcionando mais como um item decorativo ou para eventos especiais, e não para o transporte e armazenamento de vinhos. Mesmo após os avanços registrados no trabalho com o vidro em Veneza a partir do século XIV, as garrafas de vidro atendiam a um público muito específico, geralmente os mais ricos.

Por conta disso, não faltavam soluções para o armazenamento de vinhos, entre eles frascos cerâmicos. Destaque para aquele fabricado na Alemanha e que recebeu o nome de Bellarmino. Foi uma “homenagem” a um odiado cardeal italiano, que estaria representado na figura grotesca no gargalo destes frascos.

Bellarmino!

Avanços da ciência

O grande avanço para a fabricação de garrafas adequadas para o transporte e armazenamento de vinhos, porém, chegou apenas no início do século XVII, na Inglaterra. Por conta de uma proibição real do uso de madeira na fabricação de vidros, as vidrarias tiveram que buscar um novo combustível: o carvão.

A partir de 1620, a Coroa britânica vendeu o monopólio da fabricação de vidro com uso de carvão para Robert Mansell. Ele estabeleceu suas atividades em Newcastle, no norte na Inglaterra, próximo de suas famosas minas de carvão. E foi a partir daí que se chegou a uma descoberta que mudaria o papel da garrafa de vidro.

Garrafas mais resistentes

Embora as garrafas de Mansell fossem ainda frágeis, as temperaturas mais altas geradas pela queima do carvão resultavam em vidros mais robustos e duráveis, embora sem a transparência característica dos vinhos venezianos. Mas o primeiro a colocar isso em prática foi um nobre chamado Kenelm Dingy, que na década de 1630 começou a desenvolver garrafas mais resistentes em Gloucestershire, também na Inglaterra.

No meio da confusão política que caracterizava a Inglaterra desta época, Dingy, que chegou também a ter uma carreira como escritor e pirata (atacando navios holandeses e espanhóis) conseguiu a façanha. Embora os fumos do carvão tornassem a garrafa mais escura, estava inventada a primeira versão da moderna garrafa de vidro. O Parlamento inglês reconheceu a autoria e concedeu a patente à Dingy em 1661. Rapidamente, o chamado “vidro inglês” dominou a Europa. Os holandeses começaram a sua fabricação em 1670, com a novidade sendo somente elaborada na França a partir de 1709. Se a garrafa perfeita estava criada, só faltava descobrir a tampa ideal.

Padronização e o papel da rolha

Gradualmente começou um padronização das garrafas, inicialmente feitas em formatos distintos. Os fatores principais levados em conta eram a durabilidade, a praticidade e a escolha do fechamento mais adequado. De forma crescente, uma solução que já havia sido utilizada pelos romanos (mas posteriormente abandonada) passou a ser adotada: a rolha.

 A busca de novas soluções levou ao rápido desenvolvimento tanto das rolhas como a invenção, mais que necessária, do saca-rolhas. Já as garrafas também evoluíram, como pode ser visto abaixo. Em poucas palavras, estavam criadas as condições para o casamento entre o vinho e as garrafas de vidro, uma união que dura até hoje e que faz parte integral do mundo do vinho.

Evolução das garrafas de vinho do Porto

Fontes: A História do Vinho, Hugh Johnson; Great Vintage Wines from the Homeric Age to the Present Day, H. Warner Allen; The Academic Vino

Imagens: VSKM collections; A History of Wine: Great Vintage Wines from the Homeric Age to the Present Day, H. Warner Allen, Frank Eiffert on Unsplash

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