Vinho em forma de poesia líquida: degustando um vinho de mais de 400 anos

Alguns vinhos evoluem melhor que outros. Em uma escala de potencial de evolução, os vinhos fortificados (como Porto ou Madeira, por exemplo) são aqueles que têm potencial para suportar décadas e até séculos em garrafas, seguidos pelos vinhos tintos e, por fim, pelos brancos. Mas entre os vinhos brancos, existem variedades que evoluem muito bem, entre elas a Riesling.

Mas qual seria o limite de evolução dos vinhos desta variedade, geralmente uma das “queridinhas” entre os apreciadores de vinho? Talvez a pessoa que possa melhor responder esta questão seja o britânico Hugh Johnson, um dos maiores especialistas de vinho no mundo, que teve uma oportunidade única em 1961: provar um Riesling de mais de 400 anos.

Uma safra histórica

Houve um ano que fez tanto calor que há relatos de que partes do rio Reno secaram por completo, tornando possível atravessar o rio a pé. Este ano foi 1540, apenas quarenta anos após o descobrimento do Brasil, quando uvas extremamente maduras permitiram a elaboração de vinhos muito doces, o que certamente aumentou a sua capacidade de envelhecimento.

O vinho em questão era um Steinwein, elaborado a partir das uvas do vinhedo Würzburger Stein, na Francônia. Por muitos séculos permaneceu nas adegas reais e, no final do século XIX, estava na adega do rei Ludwig da Baviera. Posteriormente, foi leiloado e chegou às mãos de um sortudo grupo de degustadores, entre eles Johnson.

Que tal?

A expectativa com este vinho era grande, mas não muito otimista. Pouco tempo antes, duas garrafas provenientes da mesma adega, um Rüdesheimer 1857 e Schloss Johannisberger da safra 1820, haviam sido descritos por Johnson como “completamente deteriorados, irremediavelmente mortos, exalando um cheiro de podre”.

Para a surpresa de todos, porém, o Steinwein de 1540 estava vivo.  Para o britânico, “nunca testemunhei uma demonstração tão clara de que vivo é de fato um organismo vivo: o fluido marrom, semelhante a um Madeira, ainda conservara os princípios ativos da vida que o sol concebera naquele distante verão”. A sensação parece ter sido única: “assim, tomamos dois goles de uma substância que atravessara quatro séculos, antes de morrer com a exposição ao ar.”

Obviamente, estamos falando de um vinho especial. Por ter uma alta concentração de açúcar, conseguiu sobreviver a séculos de permanência em garrafa. Embora não seja o vinho mais velho do mundo que ainda sobrevive, título que pertence até hoje à garrafa de Speyer, certamente a descrição de Johnson deu uma pista sobre suas sensações. Ficou a certeza de que um vinho pode ser uma poesia em forma líquida.   

Fonte: A História do Vinho, Hugh Johnson

Imagem: Thomas Anderson via Pixabay

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