Last Updated on 25 de fevereiro de 2021 by Wine Fun
Muito se discute sobre a qualidade dos vinhos de baixa intervenção. Ou seja, aqueles vinhos que recebem certificação orgânica ou biodinâmica, quando comparados com os tradicionais ou mesmo sustentáveis. Não são poucos os consumidores ou mesmo críticos de vinhos (principalmente no Brasil) que torcem o nariz para os vinhos de menor intervenção.
Pensando nisso, dois pesquisadores resolveram investigar a fundo como os críticos de vinho reagem aos vinhos que degustam. A pergunta é: existem diferenças estatisticamente significativas entre as avaliações entre vinhos biodinâmicos, orgânicos, sustentáveis ou convencionais? E a resposta foi muito clara: existe uma enorme diferença, embora não no sentido que poderia ser esperada por muitos.
Estudo estatístico
O estudo foi elaborado por dois economistas (Magali Delmas, da Universidade da Califórnia, em Los Angeles; e Olivier Gergaud, da Kedge Business School, em Bordeaux, na França) e publicado em janeiro de 2021. Eles agregaram 128.182 avaliações de 30 diferentes especialistas em vinhos franceses. Estas notas de degustação incluem os três principais guias franceses (Gault & Millau, Gilbert Gaillard e Bettane, Desseauve).
Estas avaliações foram publicadas entre 1995 e 2015, incluindo vinhos em uma faixa de preço de US$ 5 a US$ 450. No estudo, foram usadas técnicas estatísticas mais avançadas com Propensity Score Martching (PSM) e regressões convencionais e usando diferenças em diferenças (DD). Ou seja, ferramentas estatísticas de ponta.
Resultados
Os resultados indicam uma diferença significativa entre a avaliação da qualidade do vinho feito com práticas que refletem certificações biodinâmicas e orgânicas (que eles chamaram de práticas eco-rotuladas) em relação à práticas convencionais. Também foi registrada uma diferença significativa entre práticas eco-rotuladas e práticas sustentáveis não certificadas.
De acordo com o estudo, as práticas biodinâmicas superam as práticas orgânicas, que, por sua vez, superam os métodos convencionais e, em uma medida ainda maior, as sustentáveis. Mantidas as outras variáveis fixas (como cor, denominação, região e variedade), a adoção de práticas biodinâmicas melhora a avaliação da qualidade do vinho em 8,5 pontos (dentro de uma escala de 100) em relação aos vinhos convencionais.
A diferença entre orgânicos certificados e convencionais foi de 5,3 pontos, enquanto que, para o vinhos sustentáveis sem certificação, não há diferença significativa em relação aos vinhos convencionais. Em resumo, o estudo indica que a certificação biodinâmica ou orgânica tem um efeito positivo nas pontuações dos críticos em vinhos na França. Tanto vinhos certificados orgânicos como biodinâmicos receberam melhor avaliação que os vinhos convencionais.
Motivos e conclusões
A análise destes resultados, porém, requer cuidado, já que os vinhos foram degustados abertos, ou seja, os degustadores sabiam quais vinhos estavam provando. Assim, uma questão importante é concluir se as avaliações dos especialistas são realmente objetivas. A melhor avaliação refletiria as diferenças objetivas de qualidade ou as preferências dos críticos para as características de vinhos certificados orgânicos ou biodinâmicos?
Para resolver esta questão, seria necessário ter um volume suficiente de avaliações feitas às cegas, ou seja, os degustadores não teriam acesso às informações sobre os vinhos ou produtores. Deste modo, as diferenças nas avaliações refletiriam exclusivamente suas percepções sobre a qualidade dos vinhos, independentemente de suas certificações.
Apesar disso, o estudo traz dados e conclusões importantes. E isso deve ser levado em conta por quem gosta de vinhos. Além disso, é difícil imaginar que alguns dos melhores produtores de vinho do mundo, como Domaine Leroy ou Domaine de la Romanée Conti (ambos biodinâmicos) colocariam em risco suas reputações se não tivessem certeza do ganho de qualidade proporcionado por estas técnicas.
Fonte: Sustainable Practices and Product Quality: Is There Value in Eco-Label Certification? The Case of Wine, Delmas M, Gergaud O.
Imagem: Free-Photos via Pixabay