Volnay e algo mais: nove vinhos de Pierrick Bouley

Um produtor que ganhou espaço entre os novos nomes em ascensão na Borgonha é Pierrick Bouley. Baseado em Volnay, desde 2014 é responsável pelos vinhos da domaine anteriormente chamada de R&P Bouley. Atualmente contando com cerca de 13 hectares de vinhedos, trouxe importantes inovações tanto no cultivo das videiras como no trabalho de adega, resultando em vinhos de rara precisão e equilíbrio

Já havia me impressionado com seu trabalho em minha primeira visita em 2022 e, após visitar e provar seus vinhos recentemente, não há dúvidas de que ele está no caminho certo. Um de seus diferenciais é a técnica de tressage, termo que vem do francês tresser, que significa “trançar”. Ao invés de podar os sarmentos das videiras durante o verão, ele começou em 2017 o experimento de entrelaçá-los uns sobre os outros, no alto do fio de sustentação. Segundo Pierrick, embora muito mais trabalhosa, os resultados da tressage foram excelentes. Esta técnica ajuda no combate a doenças fúngicas, garante maior proteção aos cachos contra o sol nos meses mais quentes e resulta em videiras com melhor circulação da seiva, tudo isso com impacto positivo sobre a qualidade dos vinhos. Além disso, a partir de 2023 seus vinhedos receberam certificação orgânica.

A seguir, minhas impressões sobre alguns de seus vinhos, todos da safra 2023 e degustados em barrica. Algo em comum que me chamou a atenção foi o frescor e equilíbrio, mesmo considerando que Pierrick costuma colher mais tarde que os vizinhos, resultando em teores alcoólicos elevados (frequentemente acima de 14%), mas praticamente imperceptíveis no palato.

Bourgogne Côte d’Or

A maior cuvée em termos de produção, com uvas provenientes de quatro hectares de vinhedos. Dois dos quais estão situados em Volnay e dois em Pommard. Grande proporção de vinhas velhas, sobretudo em Pommard, onde a idade média é de 70 anos. Fermentação em inox, com uso exclusivo de leveduras indígenas e élevage de 12 meses em barricas, das quais cerca de 10% novas. Fresco e delicioso, um vinho de entrada que já evidencia a qualidade do produtor. Olfativo floral e com frutas vermelhas, trazendo toque de menta. No palato, alta acidez, corpo médio e taninos finos, um Bourgogne regional elegante e sedutor.

Monthelie Aux Fourneaux

Vinhedo Village na parte mais baixa de Monthélie, mas com menor exposição solar por conta de uma colina próxima que cria sombra no período da tarde. O resultado é um vinho linear, com nariz trazendo sobretudo frutas vermelhas, com discreto toque de ervas verdes. Palato enxuto e vertical, com alta acidez, corpo médio, taninos de boa textura e muito frescor.

Volnay Village

Uvas provenientes de três hectares divididos em 10 parcelas (oito delas na parte mais baixa e duas acima dos vinhedos Premier Cru de Volnay). Muita tipicidade com predominância de aromas florais, frutas vermelhas mais maduras (cereja) e toques de especiarias. Palato fluido e de alta acidez, com corpo médio, taninos finos e boa densidade, um Pinot Noir fresco e equilibrado.

Pommard Village

Pouco mais de um hectare de vinhedos, cerca de metade localizada na parte baixa de Pommard e o restante na parte mais alta. Com a mesma vinificação do Volnay (com um pouco mais de extração), mostrou parte das características típicas de Pommard, com algo de chão de bosque e mais corpo, com frutas mais maduras. Porém, estilisticamente traz o traço do produtor, com alta acidez, frescor e equilíbrio.

Monthelie Premier Cru Les Clous

Duas parcelas somando 0,60 hectare neste vinhedo de orientação sul-sudeste. O solo, com alta proporção de calcário, para Pierrick lembra aquele de Clos de Chênes. Elegante e delicado, uma versão com mais complexidade que o outro vinho de Monthelie, porém mantendo a verticalidade e teor alcoólico sob controle (13,2% aqui, contra 13% no caso do Village). Olfativo com frutas vermelhas e toque mais verde, com menos fruta e certa austeridade no palato.

Beaune Premier Cru Montrevenots

Parcela de apenas 0,29 hectare situada neste vinhedo que fica logo acima de Clos des Mouches, um dos mais simbólicos terroirs de Beaune. É um vinho recente para Pierrick, parte de uma expansão de 4 hectares na área de vinhedos realizada há pouco tempo. Não tem a elegância de Volnay nem as notas terrosas de Pommard, com um olfativo com fruta madura (cereja) e mais corpo e matiére. Um vinho mais amplo e denso, com cerca de 13,5% de álcool e taninos mais presentes.

Volnay Premier Cru Robardelle

Parcela de 0,40 hectare neste vinhedo que faz limite com Meursault, mais especificamente Les Santenots Dessus.  Por conta disso, não tem aquela tipicidade habitualmente associada a Volnay, sem notas florais intensas, trazendo um toque mais terroso. Neste caso, por conta do uso de uma barrica mais nova, trouxe também notas de cedro mais intensas, combinadas com frutas vermelhas, alta acidez, frescor e taninos mais leves.

Volnay Premier Cru Champans

Situado no coração de Volnay, com plena exposição solar e solos com bastante calcário, este vinhedo bem representa o terroir local.  Este Pinot Noir esbanjou tipicidade, combinando muito bem frescor, elegância e estrutura. Com olfativo perfumado (notas florais e cereja), na boca mostrou alta acidez, corpo médio, taninos finos mais intensos, já com camadas. Fresco e sedutor, mesmo com 14,5% de álcool (imperceptíveis no palato), um tinto prazeroso e complexo.

Volnay Premier Cru Clos de Chêne

Os vinhos deste icônico vinhedo nunca pecam pela falta de intensidade ou complexidade. Nesta safra isso ficou bem claro, com um Pinot Noir que chama a atenção, com olfativo e boca intensos, que Pierrick resumiu como “um soco na cara”. Frutas vermelhas e notas florais, com alta acidez, corpo médio a alto e taninos presentes, com muita matiére e alguma austeridade. Um vinho de alta gama, que impressionou e certamente vai se beneficiar de alguns anos de garrafa.

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