A encantadora Sicília e seus vinhos

Last Updated on 1 de dezembro de 2023 by Wine Fun

Precisamos voltar ao século VIII a.C. se quisermos falar das origens do vinho nesta grande ilha meridional italiana. Foi nessa época que os primeiros colonos gregos se instalaram em sua costa, trazendo consigo suas vinhas. Junto a outras espécies nativas de Vitis vinifera, essas vi­nhas floresceram de forma exuberante na ilha, graças às suas condições microclimáticas extremamente favoráveis, e com seus frutos come­çaram a produzir o vinho na região.

Da Antiguidade clássica até nossos dias, a ilha foi um verdadeiro caldeirão de culturas, tendo sido invadida por fenícios, gregos, carta­gineses, vândalos, árabes, normandos e espanhóis, que deixaram sua marca nos monumentos e na cultura siciliana. Durante todo esse tempo, o vinho sempre esteve presente de forma marcante, atingindo seu ápice no século XVIII, quando os ingleses criaram o vinho Marsala.

Um salto ao presente

No último século o vinho siciliano foi eclipsado pela indiscutível supremacia qualitativa dos vinhos italianos das regiões centrais e do norte. Os tipos toscanos, piemonteses e mesmo vênetos se tornaram a grande referência dos vinhos italianos de qualidade, restando à Sicília (e também a outras regiões ao sul da “bota”) a produção em larga escala de vinhos de parcos atributos de qualidade.

No entanto, quem visitar a Sicília hoje, ou mesmo degustar seus melhores vinhos onde quer que seja, perceberá que muita coisa mudou nos últimos anos. 25 anos. Aliás abordei esse tema em meu livro “O admirável novo mundo do vinho e as regiões emergentes”, ed. Senac. A Sicília entrava na condição de importante região emergente da Europa. Degustar vinhos com a qualidade de um Tasca d’ Almerita Rosso Del Conte, de um Planeta Chardonnay ou de um Morgante Don Antonio seria impensável até alguns anos atrás, e o mercado mundial percebeu isso. Estes e outros vinhos disputam hoje, de igual para igual, os cobiçados bicchieri do Gambero Rosso com Barolos, Chiantis Classicos e Super Toscanos.

Qualidade e quantidade

A revolução qualitativa finalmente chegou com a modernização das vinícolas, o novo espírito empresarial e a vinda de investidores de outras regiões italianas, que despertaram para o alto potencial de qualidade dos vinhos da região.

O sensível aumento da qualidade de seus vinhos não impediu que a ilha continuasse a produzir de forma prodigiosa. A Itália é hoje o maior produtor de vinhos do planeta, com cerca de 49,1 milhões de hectolitros de vinho (dados oficiais de 2020) e a Sicília divide com a Puglia a posição de primeira região produtora do país. São cerca de 10 milhões de hectolitros de produção anual, um verdadeiro oceano de vinho, maior do que a produção australiana e cerca de duas vezes a produção total do Chile!

Sub-regiões e seus microclimas

A cordilheira dos Apeninos percorre a Itália de norte a sul, aflorando também na Sicília, dominando a parte norte da ilha. Já o relevo da parte sul é mais suave, com colinas áridas cobertas de vegetação baixa, onde se faz necessária a utilização da irrigação para qualquer plantio. Na parte leste, em torno do vulcão Etna (ainda em atividade), o solo é, obviamente, vulcânico, e é sobre ele que crescem os parreirais da região.

As colinas do norte são mais frescas, com boa média pluviométrica, mas com insolação suficiente para o amadurecimento das uvas. O sul e o leste sofrem a influência dos ventos quentes vindos do norte da África. A região central da ilha combina altitudes consideráveis com clima fresco, condições ideais para o plantio, e seu solos mesclam a composição vulcânica com a argila e o calcário.

Entretanto, é na parte oeste que se concentra a maior parte dos vinhedos, como acontece também na Itália continental. Nessa parte, o clima é bem quente, seco, e o solo marcadamente árido, ideal para a produção de vinhos bem concentrados, como o Marsala.

De um modo geral, as melhores vinhas se situam nas encostas mais frescas dos lados norte e leste. No entanto, a área de vinhedos mais extensa da ilha (e também de toda a Itália) é a da planície e das baixas colinas no extremo oeste, ao redor de Trapani. O vinho dali é muito concentrado de cor, é potente e bem alcoólico. A produção é altíssima, sendo até exportados para a França grandes lotes destinados à com­posição do Vin de Table, o mais simples do país, em substituição ao vinho rústico que antes chegava da Argélia.

Estilos dos vinhos e suas uvas

Vinhos doces

Foram os doces vinhos de sobremesa que fizeram o nome da Sicília, sendo o Marsala o mais famoso deles. O Marsala – que é também o nome da cidade e da região produtora – já teve um longo período de glória, que durou perto de duzentos anos. Este vinho fortificado foi uma criação do comerciante inglês de vinhos John Woodhouse, que chegou à ilha em 1770 e procurou desenvolver um vinho ao estilo do Porto e do Jerez. As uvas utilizadas em sua elaboração são a Grillo, em primeiro lugar, sendo também permitidas a Catarrato, a Inzolia e a Damaschino.

Encontramos ainda uma série de vinhos doces elaborados com a uva Moscato e a Malvasia. Das pequenas ilhas Eólias, ou das ilhas Lipari, situadas ao norte da grande ilha, temos o vinho Malvasia de Lipari, de buquê muito refinado. Bem mais ao sul, quase encostada no continente africano, temos a pequena ilha de Pantelleria. Seu solo é vulcânico e seu renomado vinho – o Moscato de Pantelleria – é feito com a va­riedade Moscatel de Alexandria, conhecida na região como Zibibbo, que são secas antes de serem prensadas.

Já na grande ilha, mais dois vinhos de boa qualidade, mas com pequena produção: o Moscato di Noto e o Moscato di Siracusa completam o quadro dos vinhos doces de sobremesa.

Vinhos brancos e tintos

Os vinhos brancos dominam a produção siciliana e são mais plantados do lado oeste da ilha, sendo geralmente feitos em cooperativas e vendidos a granel. Os vinhos tintos são mais comuns no lado oriental. Mas aos poucos os vinhos – brancos e tintos – começam a ser comer­cializados em garrafas e elaborados com mais cuidado, lançando-se mão da nova tecnologia vinícola que chega à região.

Vinhos DOC e DOCG

Os vinhos DOC (Denominazione di Origine Controllata) abarcam hoje 22 regiões além de terem já um DOCG, um fato notável para uma região que primava pela produção de Vini da Tavola.

Dentre eles os DOCs  Alcamo, Cerasuolo di Vittoria, Contea de Sclafani, Contessa Entellina, Delia Nivolelli, Eloro, Etna, Faro, Malvasia delle Lipari, Marsala, Menfi, Moscato di Noto, Moscato di Pantelleria (também Passito di Pantelleria), Moscato di Siracusa, Sambuca di Siracusa, Sambuca di Sicilia, Santa Margherita di Belice e Sciacca.

Uvas

Principais uvas brancas

Dentre as uvas brancas, mais presentes na parte ocidental da ilha, as mais conceituadas são a Catarratto, com a qual se elaboram vinhos encorpados e especiados, e a Inzolia (ou Ansonica), que dá vinhos leves e aromáticos. A Grillo é bem menos interessante, um tanto quanto neutra, mais indicada para a feitura do vinho Marsala.

Principais uvas tintas

Quanto às uvas tintas, que dominam a parte oriental da ilha,  a Nero d’Avola, também chamada Calabrese, muito comum em Ragusa e Siracusa, é a mais notável, dando vinhos potentes e de muito caráter, embora a Nerello Mascalese tenha se tornado nos últimos anos sua mais importante rival, sendo  muito plantada nas encostas do vulcão Etna, assim como a Nerello Mascalese. As nativas Frappato e Nerello Capuccio também merecem destaque. As internacionais Syrah e Merlot são outras duas tintas que se adaptaram muito bem na ilha.

Sicília, ilha de muitos encantos

Mas a Sicília não vive apenas do prestígio de seus vinhos e de sua gastronomia. Seu patrimônio cultural é imenso pois fazia parte da chamada Magna Grecia. Empédocles, Arquimedes e outros grandes nomes da filosofia grega nasceram e viveram ali. As ruínas da civilização grega têm um impecável estado de conservação e fascinam aqueles que dão valor à história e à cultura. O lugar ideal para romper nosso confinamento.

Organizei um grupo para visitar essa ilha deslumbrante em setembro de 2021 (é claro, se a Covid deixar). Taormina, Siracusa , Palermo, o monte Etna nos aguardam. Mais informações no meu site www.degustadoresemfronteiras.com.br .

Aguinaldo é escritor,  palestrante e crítico de vinhos. Formado tutor pela École du Vin de Bordeaux, já participou como jurado dos principais concursos internacionais. É diretor do site www.degustadoresemfronteiras.com.br, através do qual organiza viagens de Enoturismo por todo o mundo.

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Imagem e foto: Aguinaldo Zackia Albert, arquivo pessoal

Imagem interna: 6657176 via Pixabay

Imagem: Vered Caspi on Unsplash

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