Agricultura e viticultura convencionais: hora de mudanças

Os modos de cultivo agrícola sempre refletiram as necessidades e valores de cada época. E isso não é diferente na viticultura, ainda mais em períodos marcados por grandes mudanças. Um exemplo é o século passado. Na segunda metade do século XX, o mundo viveu um período de intensa transformação: crescimento populacional acelerado, reconstrução pós-guerra e avanços tecnológicos.

Diante da urgência em garantir o abastecimento alimentar, os governos e produtores optaram por um modelo de produção de produtos agrícolas voltado à eficiência e à produtividade, priorizando quantidade em detrimento de diversidade e equilíbrio ecológico. Esse contexto histórico, marcado por uma visão industrial da agricultura, deu origem ao modelo que hoje chamamos de agricultura convencional.

Uma nova viticultura

No caso da viticultura, o movimento seguiu a mesma lógica. A partir dos anos 1950, os avanços da química agrícola e o aumento da demanda por vinho impulsionaram o uso massivo de produtos químicos sintéticos. A mecanização reduziu custos e aumentou a escala, enquanto a aplicação de defensivos e fertilizantes passou a garantir maior segurança produtiva.

Se no passado a viticultura estava muito mais inserida dentro de uma forma de cultivo tradicional, isso mudou. Com a consolidação de propriedades de maior escala e aumento da presença de cooperativas, em boa parte dos vinhedos o foco mudou da qualidade para o volume. A prioridade passou para o cultivo de vinhedos mais amplos e uniformes, muitas vezes com variedades pouco adaptadas ao terroir local.

Viticultura convencional

De forma geral, a agricultura convencional pode ser definida como um sistema de produção caracterizado pelo uso intensivo de produtos químicos, mecanização e fertilizantes sintéticos, com o objetivo de maximizar o rendimento das culturas e reduzir os riscos de perda. Ela baseia-se na aplicação sistemática de defensivos agrícolas e de insumos minerais solúveis para garantir estabilidade e previsibilidade nas safras.

Entre as práticas mais comuns da agricultura convencional estão o uso de pesticidas, herbicidas e fungicidas para o controle de pragas e doenças, a irrigação intensiva, o uso de maquinário pesado e a utilização de fertilizantes artificiais para suprir nutrientes rapidamente. O resultado é um sistema altamente produtivo, porém dependente de insumos externos e com impactos significativos sobre o meio ambiente.

Um exemplo é o uso do glifosato. Se controlar as ervas que crescem em torno das videiras era uma das tarefas mais trabalhosas; este herbicida surgiu como uma solução atrativa. Criado para a remoção de resíduos e limpeza de tubos industriais, passou a ser utilizado na década de 1970 como herbicida, rapidamente ganhando espaço. Porém, com o tempo se notou que, além de seu impacto sobre a vida microbiana dos solos e contaminação da água, estudos relacionam seu uso a potenciais efeitos carcinogênicos.

Consequências ambientais e impacto sobre a saúde humana

Assim como no caso do glifosato, o passar dos anos evidenciou os efeitos colaterais da agricultura convencional. O uso contínuo de pesticidas e herbicidas eliminou não apenas organismos nocivos, mas também microrganismos benéficos, essenciais à vitalidade do solo. Sem essa vida microbiana, muitas videiras perderam a capacidade de absorver nutrientes de forma natural e passaram a depender cada vez mais de fertilizantes artificiais. Criou-se, assim, um ciclo de dependência química difícil de romper.

Além disso, a compactação do solo, a erosão, a perda de biodiversidade e a contaminação das águas subterrâneas tornaram-se problemas recorrentes. Na França, por exemplo, os vinhedos ocupam cerca de 3% das terras agrícolas, mas respondem por até 20% do uso total de pesticidas. Situação semelhante ocorre na Califórnia, onde a viticultura figura entre as atividades mais intensivas em agroquímicos do setor agrícola.

Os riscos associados à agricultura convencional não se limitam ao meio ambiente. Os trabalhadores rurais, expostos rotineiramente aos produtos químicos, enfrentam maiores índices de doenças relacionadas à inalação ou ao contato com pesticidas. Comunidades vizinhas a vinhedos também sofrem com o impacto negativo de produtos tóxicos, e resíduos dessas substâncias podem chegar até o vinho final.

Esgotamento e necessidade de mudança

Com o passar das décadas, tornou-se evidente que o modelo convencional, embora eficiente no curto prazo, não oferece sustentabilidade de longo prazo. A degradação dos solos, a resistência crescente de pragas e os custos elevados dos insumos indicam o esgotamento de um sistema que se apoia em soluções externas para problemas que ele próprio gera. A dependência química fragiliza os ecossistemas agrícolas e reduz a resiliência natural das vinhas.

Atualmente, a discussão sobre o futuro da viticultura ultrapassa o campo técnico. Ela envolve uma reflexão ética e ambiental sobre o papel do produtor diante dos desafios climáticos e da preservação dos recursos naturais. Modelos alternativos, como a agricultura sustentável, orgânica e biodinâmica, vêm ganhando espaço como respostas possíveis. A transição exige tempo, conhecimento e investimento, mas representa o caminho inevitável para uma viticultura que concilie produtividade, qualidade e respeito ao meio ambiente.

Fontes: How sustainable is your wine?, Decanter, mar/2019; Conventional viticulture, site More than Organic

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