Aligoté: conheça a “irmã esquecida” da Chardonnay

Last Updated on 25 de outubro de 2024 by Wine Fun

Uma boa parte nunca ouviu falar, outra parcela importante conhece, mas a despreza e a considera como uma variedade de segunda categoria. Talvez esta possa ser uma descrição para a Aligoté, a “segunda uva branca” da Borgonha. Porém, como em tantas ocasiões no mundo do vinho, vale a pena estudar um pouco mais e colocar os preconceitos de lado.

O que pouca gente sabe que é que a reputação da Aligoté se baseia em uma comparação injusta. Esta variedade dividiu os vinhedos de uvas brancas da Borgonha por muito tempo, até a filoxera e mudança na legislação local. Foi neste momento que ela passou para segundo plano e praticamente expulsa dos melhores terroirs da região, substituída pela Chardonnay. A partir daí, seu cultivo, com raras exceções, passou a ser de alta produtividade em terroirs de pior qualidade. Uma perfeita receita para o fracasso. Mas isso já está mudando.

Origem e nome

A Aligoté é o resultado do cruzamento natural entre a Pinot Noir e a Gouais Blanc, possivelmente ocorrido na Borgonha durante a Idade Média. Deste modo, ela é vista como uma “irmã” da Chardonnay, justamente a variedade que tomou boa parte de seu espaço. E esta família não acaba por aí, dado que também a Gamay e a Melon de Bourgogne dividem a mesma linha genética.

Não há uma confirmação sobre a origem do nome Aligoté, mas uma das hipóteses mais discutidas é que seja uma derivação do nome da uva branca que contribuiu para sua origem. Assim, provavelmente derive da palavra Gôt, um antigo sinônimo da Gouais Blanc na região de Arrières-Côtes, próximo a Beaune. A suposição é que ela teria substituído também nos vinhedos a sua “mãe”, hoje praticamente extinta.

Lento declínio

Antes da filoxera, era vista como uma variedade difícil, mas não inferior em termos de qualidade à Chardonnay, com quem dividia vinhedos, mais notavelmente em Corton. Mas não há consenso quanto à data de sua origem. O conselho da denominação Bouzeron, na Côte Chalonnaise, (onde ela é a uva dominante) afirma que a Aligoté é uma uva nativa, datada do século XI. Já historiadores e biólogos ainda não identificaram qualquer menção anterior a 1780.

Ela começou a perder importância após a filloxera, mas um passo decisivo para seu declínio foi a legislação francesa de 1937, que, entre tantas mudanças, criou a AOC Bourgogne Aligoté. Apesar de poder ser cultivada em uma área ampla, a Aligoté não era mais permitida na esmagadora maioria dos vinhedos Grand Cru. Assim, passou a ser plantada, predominantemente, em vinhedos de baixa qualidade, com alto rendimento e videiras jovens. Daí começou a sua reputação de uva para produção de vinhos simples e baratos, inclusive como companheira do licor de cassis, na elaboração do drinque Kir.

Resistência e renascimento

Porém, a Aligoté resistiu para a produção de vinhos de alta gama em ao menos duas denominações. Uma foi no monopole da Domaine Ponsot, chamado Clos des Monts Luisants, em Morey-St-Denis.  O vinho produzido, rotulado como Morey-St-Denis Premier Cru, é elaborado a partir de videiras centenárias de Aligoté.

A outra grande exceção é Bouzeron. Aubert e Pamela de Villaine (co-proprietários da Domaine de la Romanée Conti) chegaram lá em 1973 e queriam cultivar a Aligoté como ela merece. Em 1997, devido em grande parte aos seus esforços, o vilarejo passou a nomear seus Aligotés com o nome Bouzeron Bourgogne Blanc, omitindo a variedade de uvas. Entre as regras desta denominação está uma limitação severa dos rendimentos. A partir destes esforços, vem crescendo o número de produtores na Borgonha cultivando esta uva com os cuidados necessários.

Características e vinhos

Aligoté é uma variedade de cachos e grãos pequenos, com cascas finas. Apesar de não ser uma variedade de fácil cultivo, costuma ser bastante produtiva quando não há limitação de rendimentos. É uma uva bastante resistente ao frio, o que permitiu que ela registrasse uma rápida expansão na Europa Oriental, onde atualmente apresenta uma área plantada muito superior àquela na França.

A qualidade e as características de seus vinhos variam muito de acordo com o rendimento. Dá origem a vinhos simples, de alta acidez (o que a faz uma boa alternativa para elaboração de espumantes) e sem grande complexidade quando cultivada sem limitações de rendimento. Com um controle mais efetivo, porém, pode gerar vinhos de maior complexidade e qualidade, com notas de frutas brancas (maçã e pera), cítricas e pêssego. Em geral, os vinhos mostram alta acidez, com mineralidade marcante e notas salinas.

Área plantada e nomes alternativos

Segundo dados da OIV, a área plantada de Aligoté ao redor do mundo, em 2015, era de 35.073 hectares. A grande surpresa é que ela é muito mais plantada no Leste Europeu no que na França. Com 1.964 hectares de vinhedos, seu país de origem representa apenas 5,6% na área plantada no mundo. A nação líder nesta variedade é a Moldova, como 15.790 hectares, ou 45% do total, onde é muito usada na elaboração de espumantes. Na sequência aparecem Ucrânia (9.627 hectares, ou 27,5% do total), Romênia (5.840 ha, 16,7%), França e Russia (1.029 ha, 2,9%).

É uma variedade com relativamente poucos nomes distintos, que, segundo o catálogo da Universidade da California – Davis, são: Aligotay, Alligotay, Blanc de Troyes, Carcairone blanc, Carcarone, Carchierone, Chaudenet, Chaudenet Gras, Giboudot blanc, Griset Blanc, Mukhranuli, Pistone, Plant de Trois, Plant de Trois Raisins, Plant Gris, Troyen Blanc e Vert Blanc.

Fontes: Foundation Plants Services Grapes, UC Davis; Distribution of the World´s Grapevine Varieties, OIV; Alice Feiring; Plantgrape; Vins de Bourgogne; This Analog Life

Imagem: Foundation Plants Services Grapes, UC Davis

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