Verões muito quentes e poucas chuvas. Ao redor do mundo, viticultores convivem com este cenário com uma frequência assustadora nos últimos anos. E isso pode trazer um impacto significativo sobre o perfil dos vinhos que consumimos. Regiões que enfrentavam dificuldades para colher uvas maduras e saudáveis saíram ganhando, porém muitas outras já começam a sentir o impacto negativo do aquecimento global.
Um estudo recente mostrou que a redução no volume de chuvas enfrentada na Europa desde 2015 não tem precedentes, ao menos nos últimos 2.100 anos. A análise dos troncos de 21 carvalhos vivos e 126 relíquias mostrou que, ao menos na Europa Central, a seca dos últimos anos é inédita, ao menos desde que o Império Romano começava a se expandir de forma mais consistente, em 75 antes de Cristo.
E os temores não ficam somente na Europa. No Rio Grande do Sul, muitos viticultores brasileiros mostram crescente preocupação com o regime de chuvas. Nas seis últimas safras na região, quatro foram marcadas por muito calor e seca intensa, algo que acontecia apenas esporadicamente na região. O temor é o que irá acontecer com as videiras, por conta desta alteração climática.
Irrigação como alternativa
A videira é uma planta resiliente, que não necessita de muita água. Quase todas as regiões vinícolas do mundo estão localizadas em zonas temperadas e muitas têm um clima mediterrâneo, caracterizado por verões quentes e secos. Nessas regiões, as videiras tem exposição regular a períodos de seca, porém, apesar disso, grande parte das videiras não contava com irrigação. Em 2016, por exemplo, apenas 10% dos vinhedos da Europa recebiam irrigação.
Porém, isso está mudando rapidamente. A área de vinhedos irrigados na Espanha era de cerca de 2% na década de 1950, número que subiu para quase 27% em 2015. E a tendência continua: estimativas mais recentes indicam que esse percentual cresceu ainda mais nos últimos anos, para cerca de 40% em 2019. Vale lembrar que a Espanha tem a maior área de vinhedos do mundo.
Déficit hídrico e videiras
Além da questão referente à sustentabilidade do uso da irrigação (água doce é um recurso escasso e cada dia mais disputado – e caro – no mundo), há também a questão da qualidade dos vinhos produzidos a partir de vinhedos irrigados. Em poucas palavras, podemos dizer que existe um ponto ótimo no que diz respeito à quantidade de água que a videira deve ter acesso.
De forma geral, videiras com acesso a muita água tendem a gerar uvas com uma menor concentração de diversos componentes, resultando em vinhos diluídos e de pior qualidade. Déficits hídricos moderados aumentam a qualidade das uvas, pois há uma maior concentração de componentes fenólicos, até por conta da diminuição do tamanho dos grãos de uva e da menor concentração de água. As videiras, assim, trazem menores rendimentos, algo que pode contribuir para vinhos de melhor qualidade.
Por outro lado, situações de estresse hídrico extremo são ruins. Além do risco de as videiras morrerem, também podem resultar em vinhos desequilibrados. Estudos mostram que videiras sujeitas a déficits hídricos extremos geram vinhos com maior concentração de componentes voláteis, além de presença mais intensa de aromas e sabores de frutas maduras ou cozidas. Em resumo, existe um regime hídrico ideal para a produção de vinhos.
Adaptação ao novo cenário
A questão fundamental, desta forma, é de como os produtores de vinho irão se adaptar a climas mais quentes e secos. Em primeiro lugar, existe uma questão burocrática a resolver. Baseadas nos regimes históricos de chuvas, muitas denominações de origem proíbem a irrigação, exatamente para buscar uma melhor qualidade dos vinhos da região. Todavia, isso poderá mudar, até porque o novo regime de chuvas é distinto do passado.
Já os produtores terão que se adaptar. Se for necessária a introdução da irrigação, como isso será feito sem afetar a qualidade de seus vinhos? A água necessária é um recurso factível, tanto em termos de disponibilidade como preço? Existirá um controle mais efetivo para evitar abusos? Estas são apenas algumas das perguntas que terão que ser respondidas.
Infelizmente, por conta do aquecimento global, o vinho que estamos acostumados a beber irá mudar. Novas regiões irão surgir, outras terão que se adaptar rapidamente para fazer frente a condições nunca vistas anteriormente. Ao bom apreciador de vinhos resta redobrar os cuidados, deixar preconceitos de lado e entender definitivamente que vivemos em um mundo em rápida transformação.
Fontes: Recent European drought extremes beyond Common Era background variability, Büntgen et al ; Business Times; Temperature and evaporative demand drive variation in stomatal and hydraulic traits across grape cultivars, Megan K Bartlett, Gabriela Sinclair; The physiology of drought stress in grapevine: Towards an integrative definition of drought tolerance, Gambetta et al
Imagem: linaberlin via Pixabay