Last Updated on 22 de setembro de 2021 by Wine Fun
Para quem ainda tem dúvidas sobre a gravidade do aquecimento global, estudar o que está ocorrendo com a viticultura ao redor do mundo atualmente é um bom começo. Nas últimas décadas, a temperatura média tem subido de forma consistente, resultando, no mundo do vinho, em colheitas cada ano mais prematuras. E uma região que exemplifica esta tendência é a Borgonha.
A safra de 2020, por exemplo, foi quente e seca. Foi uma das mais precoces da história, dando sequência a uma tendência quase ininterrupta de safras quentes e secas que marcou a região pelo menos nos últimos 10 anos. Se, no passado, a Borgonha tinha problemas de colher uvas que atingissem uma maturação correta, a questão agora é outra: o clima é quente e seco demais para uvas delicadas como Pinot Noir e Chardonnay.
Busca de soluções
Visando minimizar este problema, diversos produtores da região têm buscado soluções alternativas. Na maioria das vezes, as propostas são no sentido de manter as características da região. Porém, já começam a surgir discussões mais radicais, inclusive com a possível introdução de novas variedades não autóctones caso o aquecimento global continue no ritmo atual.
Uma das soluções menos intervencionistas é a escolha de clones diferentes de Pinot Noir, como os utilizados em Champagne, por exemplo. Em entrevista à Wine Enthusiast, Laurent Audeguin, engenheiro agrônomo e enólogo do Instituto Francês de Videiras e Vinhos (IFV), indicou a possibilidade de seleção massal, sobretudo dentro do cenário onde ele considera que “a mudança climática é um fato”.
Para ele, “para moderar seu efeito sobre o estilo dos vinhos da Borgonha, podemos buscar clones que acumulam menos açúcar e amadurecem mais tarde. Existem 47 clones oficiais de Pinot Noir, mas na realidade, apenas alguns são amplamente utilizados. Poderíamos plantar clones da Champanhe ou usar alguns que foram até agora negligenciados.”
Solução de menor impacto
Uma segunda opção, que já vem sendo testada, é a mudança nos porta-enxertos utilizados, tanto para Pinot Noir como Chardonnay. Para quem não se recorda, por conta da filoxera a grande maioria das videiras na Europa é plantada sobre porta-enxertos de uvas americanas, que são resistentes ao pulgão, ao contrário das espécies de Vitis vinifera.
“Depois de cinco anos monitorando o crescimento em porta-enxertos 333EM, juntamente com várias análises de laboratório, decidimos usar [raízes de Vitis riparia, uma espécie americana] em algumas de nossas parcelas a partir de 2021″, disse Walter Dausse, coordenador dos vinhedos da Bouchard Père et Fils. Isso permitiria adiar a colheita, servindo como uma medida efetiva contra o impacto do aquecimento global.
Alternativas mais radicais
Porém, existem também alternativas mais radicais em discussão. Variedades de uvas de colheita mais tardia e que acumulam menos açúcar (álcool após a fermentação) estão sendo consideradas. Esta iniciativa acompanha o programa nacional, lançado em 2018 pelo Institut National de l’Origine et de la Qualité (INAO) francês. Ela permite que as regiões vinícolas explorem variedades que possam lidar com as mudanças climáticas. Foi o caso, por exemplo, de Bordeaux, que aprovou seis novas variedades na região.
No caso da Borgonha, isso poderia significar a permissão para uso, em maior escala, de uvas borgonhesas atualmente negligenciadas, como Aubin, Roublot, Sacy, Melon, César e Tressot. Mas já existem aqueles que acreditam que variedades não autóctones sejam uma alternativa viável. Este é um tema extremamente sensível em uma região que ganhou notoriedade, em parte, pelas suas variedades autóctones. Certamente será uma discussão longa e tortuosa.
Fonte: Wine Enthusiast