O aquecimento global é uma realidade. Para quem ainda tem dúvidas, algumas conversas com produtores de vinhos podem deixar o entendimento deste conceito e seus impactos muito mais claros. Porém, ao contrário do que muita gente imagina, ele não afeta somente a viticultura no sentido de safras mais quentes e secas. Nos últimos anos, aumentou de forma desproporcional a incidência de eventos climáticos extremos.
Dentre estes, as geadas de primavera ficam entre os mais temidos. Mas o que são elas? O deslocamento rápido de massas de ar extremamente frio, provenientes das regiões polares, leva a uma enorme queda de temperaturas em uma questão de horas. Porém, algo mudou nas últimas décadas. Por conta do aquecimento global, os invernos acabam sendo menos rigorosos e as videiras brotam mais cedo, ficando extremamente vulneráveis às geadas de primavera.
Bordeaux também em risco
Embora as geadas de primavera estejam normalmente mais associadas à Borgonha e ao Vale do Loire, as geadas de primavera hoje representam uma das maiores ameaças climáticas também para os vinhedos de Bordeaux. Nos últimos dez anos, dois episódios atingiram severamente os vinhedos da região (2017 e 2021), após um longo intervalo desde os eventos de 2021.
Embora nem sempre atinjam a região com a mesma força, as geadas de primavera seguem padrões relativamente previsíveis. Os vinhedos em vales e zonas baixas estão entre os mais vulneráveis, assim como aqueles localizados longe da influência moderadora do estuário da Gironde. Em contrapartida, as encostas, platôs e áreas próximas ao rio tendem a sofrer menos. Não por acaso, as comunas centrais do Médoc, como Pauillac, Saint-Julien e Saint-Estèphe, costumam escapar com menos danos, enquanto Margaux, Graves, Sauternes e, sobretudo, a margem direita (Pomerol e Saint Emilion) enfrentam riscos maiores.
A geada de 2021
A safra de 2021 registrou um dos episódios de geada mais severos das últimas décadas. O inverno foi relativamente ameno, o que antecipou a brotação em diversas áreas. Quando a massa de ar frio atingiu a região na primeira quinzena de abril, os brotos estavam expostos e vulneráveis. Entre 6 e 8 de abril, as temperaturas caíram para até -6 °C em algumas partes de Graves e Sauternes.
O mapa abaixo, publicado pela Chambre d’Agriculture de la Gironde, mostra que toda a parte leste do departamento foi duramente atingida, com vastas áreas em Saint-Émilion, Pomerol, Entre-Deux-Mers e Sauternes sofrendo perdas superiores a 80%. Nas zonas mais afetadas, muitas propriedades perderam a totalidade da safra. Ainda que algumas partes do Médoc tenham sido parcialmente poupadas, a perda nas regiões centrais e sul da margem direita foi substancial.

A geada de 2017
Já os eventos de 2017, embora com causas semelhantes, seguiram uma dinâmica ligeiramente diferente. O episódio principal ocorreu nas madrugadas de 26 e 27 de abril, após dois dias consecutivos de temperaturas negativas. Em Mérignac, a estação meteorológica registrou apenas 0,2 °C, mas nos vinhedos mais afastados e expostos, os termômetros marcaram entre -2 °C e -4 °C. A margem direita novamente sofreu de forma generalizada, com perdas significativas em zonas baixas de Saint-Émilion, Pomerol e Fronsac.
Na margem esquerda, os danos foram mais variáveis. Comunas próximas ao estuário da Gironde, como Saint-Estèphe e Pauillac, escaparam em grande parte, mas outras mais afastadas, como Listrac, Moulis, partes de Margaux e Graves, foram duramente atingidas. A região de Barsac, em especial, enfrentou perdas de mais de 80% em várias propriedades.
A peculiaridade de 2017 reside no contraste de resultados mesmo dentro de uma mesma denominação, ou até mesmo de um mesmo Château. Altitude, exposição ao vento e histórico de investimento em tecnologias anti-geada foram fatores determinantes para a sobrevivência das vinhas. O mapa divulgado pela Chambre d’Agriculture mostra que toda a região leste sofreu perdas significativas, com diversas comunas relatando prejuízos superiores a 50%.

A geada de 1991
Embora mais distante no tempo, o evento de 1991 foi uma referência histórica para episódios de geada em Bordeaux. Naquele ano, a massa de ar polar chegou após um período de brotação avançada, semelhante ao que ocorreria em 2021. As temperaturas caíram drasticamente por volta de 20 de abril, alcançando até -10 °C em certas zonas baixas. A destruição foi ampla, particularmente em Pomerol, Saint-Émilion e zonas mais centrais da região. A gravidade do evento comprometeu não apenas o volume da safra, mas também sua qualidade, dado que chuvas posteriores dificultaram o amadurecimento do que restou nos vinhedos.
Uma rápida comparação
Comparando os três eventos, o padrão de destruição se repetiu. O que se viu foi maior vulnerabilidade na margem direita, perdas extremas em vales e zonas baixas, e relativa proteção em áreas com maior altitude ou influência fluvial. Em termos de severidade, 1991 e 2021 dividem o posto de eventos mais devastadores. A geada de 2017, embora ligeiramente menos intensa em termos de temperatura absoluta, alcançou extensão semelhante e gerou perdas superiores a 80% em algumas áreas.
Além do impacto agronômico, esses eventos expõem as desigualdades estruturais dentro de Bordeaux. Propriedades com recursos conseguem, com o uso de tecnologias caras, mitigar o impacto de geadas menos rigorosas. Já pequenos produtores, especialmente nas denominações de origem periféricas, frequentemente enfrentam prejuízos muito maiores. Porém, as geadas extremas não poupam vítimas: em 2017, Châteaux mais equipados financeiramente conseguiram salvar partes de seus vinhedos com medidas emergenciais. Em 1991 e 2021, porém, nem isso foi suficiente em algumas zonas, dada a intensidade e a duração das ondas de frio.
Em resumo, 1991, 2017 e 2021 marcam três momentos-chave para a compreensão do risco que as geadas representam também para Bordeaux. Cada um deles trouxe aprendizados, mas evidenciou também a maior vulnerabilidade da região a eventos climáticos extremos. Aquecimento global é uma realidade que afeta muitas partes de nossas vidas, inclusive o que servimos nas nossas taças.
Fontes: Chambre d’Agriculture de la Gironde; WineDoctor; entrevistas com produtores
Imagem: Vins de Bordeaux