A maior parte dos vinhos da safra 2023 da Borgonha será lançada en primeur ao longo deste mês de janeiro. Nesta coluna, destacamos algumas tendências esperadas na comercialização e o que esperar dos vinhos deste ano.
Boa safra e preços estáveis
Em 2023, foi observado o segundo ano consecutivo de condições naturais favoráveis à maturação das uvas, um fato raro na trajetória recente da região. Charles Curtis MW, correspondente da Borgonha para a Decanter Magazine, destacou que tanto os brancos quanto os tintos mostraram ótimos resultados, embora sem alcançar os elevados patamares de 2022.
A chegada dessa safra coincide com um mercado consumidor desanimado. Isso ocorre devido às condições macroeconômicas desafiadoras nos principais mercados, especialmente o chinês, que vem perdendo relevância na demanda por vinhos da região desde o início da década. Por conta disso, importantes nomes do setor esperam preços estáveis em relação ao ano anterior. Jayson Haynes, diretor da Flint Wines, projeta uma leve queda nos preços. Martyn Rolph, chefe de compras da Berry Bros & Rudd, corrobora essa perspectiva e cita como exemplo a política de preços reduzidos adotada pelo Domaine Michèle & Patrice Rion.
No Brasil, contudo, o impacto da variação cambial deve “anular” essa estabilidade de preços, com as importadoras continuando a oferecer vinhos de qualidade inferior para manter volumes. Um exemplo é a Mistral, cuja renovação de safras de grandes produtores tem ocorrido cada vez mais lentamente. O dilema permanece: a redução de volume decorre da alta dos preços ou vice-versa? A velha questão do ovo e da galinha.
Safra pequena de 2024 impulsionará a busca pela de 2023
Embora 2022 e 2023 tenham sido anos favoráveis em termos de qualidade e volume, a safra de 2024 foi bastante limitada, especialmente na quantidade produzida. Isso faz com que a safra de 2023 desponte como uma excelente oportunidade para investidores e colecionadores, ideal para adquirir vinhos de qualidade acima da média a preços relativamente acessíveis. No entanto, como veremos, isso pode não ser tão simples quanto parece.
Os vinhos da safra de 2023
Na edição de janeiro de 2025 da Decanter Magazine, Charles Curtis publicou um relatório detalhado sobre a safra 2023 e destacamos alguns pontos. Frédéric Lafarge, da Domaine Michel Lafarge, traçou uma comparação interessante entre 2022 e 2023. Para ele, enquanto 2022 foi uma safra grandiosa, 2023 se destacou pelo charme. Em 2022, os vinhos apresentaram fruta de alta qualidade, intensidade e estrutura. Já em 2023, os vinhos tendem a ser mais contidos e elegantes, especialmente quando elaborados com baixos rendimentos e técnicas cuidadosas de vinificação. Nesse sentido, a máxima da Borgonha – “o produtor importa mais que qualquer outra coisa” – ganha ainda mais relevância.
Os vinhos de 2023 são marcados por frutas bem maduras, graças às temperaturas médias mais altas que as históricas e superiores a 2022 e 2020. Eles devem ser relativamente acessíveis ainda jovens e terão menos potencial para envelhecimento. Espera-se uma acidez moderada, e o controle do rendimento será fundamental para preservar frescor e mineralidade.
Por fim, é importante lembrar que as condições climáticas foram heterogêneas na região, com tempestades em áreas como Nuits-St-Georges, Meursault, Mercurey e o Mâconnais, o que afetou a produção e, consequentemente, a oferta.
Uma visão por região
- Côte de Nuits: Há um grande potencial para tintos de alta qualidade, com um aumento no volume dos segmentos 1er Cru e Village em 37,3% e nos Grands Crus em 33,1%, segundo o BIVB (órgão oficial da região). Contudo, vinhos de Pinot Noir feitos sem respeitar baixos rendimentos tendem a sofrer em qualidade.
- Côte de Beaune: Apesar de condições climáticas similares às da Côte de Nuits, as chuvas foram menos intensas. No caso dos brancos, a Chardonnay, menos suscetível a doenças fúngicas que a Pinot Noir, sustenta a qualidade mesmo em rendimentos mais altos, desde que a colheita ocorra no momento adequado.
- Côte Chalonnaise: Tradicionalmente mais seca, essa sub-região enfrentou grandes tempestades em julho de 2023, resultando em perdas na produção e alta incidência de doenças fúngicas, especialmente no sul. Por isso, a qualidade geral ficou abaixo da média.
- Mâconnais: Condições semelhantes às da Côte Chalonnaise foram observadas, incluindo temperaturas extremas acima de 40°C, que comprometeram a acidez dos vinhos. Apesar disso, o volume produzido foi 18% superior à média dos últimos cinco anos, e a habilidade dos produtores de se adaptarem às adversidades será determinante na escolha dos vinhos.
2023, uma safra do “novo normal”
Safras afetadas por temperaturas acima das médias históricas, bem como a incidência de intempéries tendem a ser o “novo normal” daqui para frente. Coisas das mudanças climáticas. Nesse contexto, 2023 na Borgonha sinaliza o que pode ser uma safra de boa para ótima no novo cenário.
E especificamente para essa safra o recado é claro: fugir da Côte Chalonnaise e Mâconnais e explorar a Côte d’Or, especificamente os tintos da Côte-de-Nuits e os brancos da Côte de Beaune. Ou seja, não será fácil encontrar boas opções a preços interessantes.
Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora se aprofundar no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML. É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS.. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society Wine Educators.
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Fotos: Renato Nahas, arquivo pessoal