Com mais de 2.200 hectares de vinhedos, Barolo é uma denominação de origem de porte considerável, com uma produção anual que chega perto de 15 milhões de garrafas ao ano. Com o intuito de permitir uma melhor diferenciação de sua gama de terroirs, em 2010 foram criadas as Menzioni Geografiche Aggiuntive (MGA). Atualmente são 181 MGAs, das quais 11 communali, se referindo a vilarejos. As demais 170 se referem a zonas específicas de vinhedos, em um conceito relativamente próximo ao de climat existente na Borgonha.
Quando se fala de área de vinhedos, claramente aquelas MGAs situadas em Monforte d’Alba se destacam. Este comunne, ao contrário dos demais, optou por regulamentar poucas MGAs em seu território. Apesar de quase 480 hectares de videiras (21% da área da denominação de origem Barolo), são apenas 11 MGAs (6% do total). Deste modo, as MGAs de Monforte são aquelas de maior área em toda a região, com uma delas merecendo atenção especial, tanto por seu tamanho como por sua reputação: Bussia.

Uma área complexa e sedutora
Com área de 297 hectares e situada na parte centro-norte de Monforte d’Alba, Bussia é a segunda maior MGA de toda a área de Barolo, somente atrás de Bricco San Pietro. Por conta desta enorme extensão, conta com uma grande quantidade de produtores atuando na área (são quase 60 vinícolas engarrafando vinhos com uvas provenientes de Bussia). O primeiro vinho com Bussia no rótulo foi lançado em 1961 por Prunotto, mas esta prática se tornou mais comum somente após a criação da MGA, em 2010.
Em termos de variedades plantadas, Bussia é uma área heterogênea para os padrões da região. A Nebbiolo é a principal protagonista, com 76% da vinhedos, seguida por Barbera (11%), Chardonnay (5%), Dolcetto (3,6%) e Merlot (1%). Outras 11 uvas marcam presença, com áreas abaixo de 1% das videiras. Por conta de sua grande extensão, não há uma exposição dominante, de forma que os vinhos podem apresentar diferenças significativas.
Apesar de seu tamanho, Bussia, com vinhedos entre 220 e 450 metros de altitude, é bastante homogênea do ponto de vista geológico. Com exceção das áreas mais baixas, onde predominam as margas típicas de Sant’Agata Fosili e das áreas mais altas, onde os arenitos de Diano estão presentes, o resto da MGA é principalmente composto por margas arenosas de Sant’Agata Fossili.
Dividindo o vinhedo
Novamente por conta de sua extensão, historicamente Bussia era dividida em duas áreas: Bussia Sottana e Bussia Soprana. A primeira, mais a norte, inclui a aldeia de Zanassi (também conhecida como Bussia Sottana) em seu centro, e o ainda menor agrupamento urbano de Munie. Já Bussia Soprana, além da aldeia de mesmo nome, se estendia até Dardi e Pianpolvere. Esta divisão não incluía as áreas de Pugnane e Rocche (ao norte) e Arnulfo, Corsini e Visette (ao sul).
Alessandro Masnaghetti, um dos maiores conhecedores e “cartógrafo oficial” da região do Barolo propõe uma divisão mais específica. Para tal, leva em conta o expressivo crescimento da área de vinhedos nas últimas décadas. Ele divide Bussia em nove subzonas distintas, usando como critérios elementos mais homogêneos de terroir.
Pugnane
Está situada no extremo norte de Bussia e faz fronteira com Castiglione Falletto. É uma colina dividida em duas partes. O lado mais conhecido e com melhor exposição está em Monforte d’Alba. Para Masnaghetti, esta colina mereceria uma “MGA supracomunal” (como Brunate ou Cerequio), precisamente em virtude da sua história e tradição nos anos 1970, nas mãos de Ceretto, Bruno Giacosa e Giuseppe Mascarello. Isso permitiria incorporar ambos os lados da colina, para distingui-la mais claramente de Bussia Sottana, com a qual tem muito pouco em comum.
Também os vinhos mostram características distintas, geralmente privilegiando a elegância, em detrimento da potência. Com parcelas nesta subzona estão produtores como Cascina Pugnane, Marco Marengo, Franco Conterno, Poderi Fogliatti e Livio Fontana.
Bussia Sottana e Munie
É uma subzona com várias exposições, pois os vinhedos se distribuem ao redor das elevações da aldeia de Zanassi. Embora o nome (sottana significa “inferior”, ou “de baixo” em italiano) possa sugerir algum tipo de inferioridade à Bussia Soprana, este não é caso nos últimos anos. Masnaghetti destaca as parcelas no sopé da cascina Rovella e da encosta conhecida como Munie ou Fontanile, incluindo os vinhedos da Cascina Conterno.
Diversos produtores atuam nesta subzona. Destaque para três vinícolas distintas, mas com mesmo sobrenome (Aldo Conterno, Franco Conterno e Conterno Fantino), além de Giuseppe Rinaldi e Damilano. Entre os produtores com maior área estão também Armando Parusso, Giacomo Fenocchio e Batasiolo.

Bussia Soprana e Rocche
Dentre todas as MGAs do Barolo, Bussia é aquela com maior presença de Vigne, como são chamados os vinhedos específicos, geralmente com longa tradição de cultivo. E Bussia Soprana tem alta concentração deles, como Colonnello, Cicala, Romirasco e Gabutti. Embora tenham diferenças entre si, Masnaghetti considera que podem fazer parte de uma só subzona. Para ele, Colonnello, Cicala e Romirasco são casos especiais de Bussia Soprana, enquanto Gabutti representa uma extensão geográfica,
Porém há diferenças sutis: Colonnello é mais quente e intenso, Cicala tem um toque extra de frescor. Romirasco é mais clássico, enquanto Gabutti esbanja equilibrío. Entre os produtores com parcelas substanciais nesta área, destaque para Aldo Conterno (Cicala, Colonello), Bussia Soprana (Gabutti e Colonello), Francesco Clerico (Colonello), Prunotto (Colonello) e Parusso.
Há também uma pequena parte da MGA Rocche di Castiglione que invade Monforte d’Alba, com terroir de alta qualidade. Os vinhos são extraoficialmente conhecidos como Rocche (sem o sufixo Castiglione), com destaque para os Barolos de Parusso, geralmente mais encorpados que aqueles da MGA Rocche di Castiglione.
Dardi e Mondoca
Embora a área de Dardi sempre tenha sido considerada parte integrante de Bussia Soprana, ela tem características próprias. Tradicionalmente, os vinhedos de Dardi estão espalhados em torno da aldeia de mesmo nome, juntamente com o Mont d’Oca, ou Mondoca, que separa estas vinhas das zonas de Romirasco e Gabutti. Os Barolos de Dardi são clássicos, minerais e, às vezes, robustos. Já os de Mondoca são mais encorpados, mas com menos matizes. Nesta subzona atuam produtores como Poderi Colla, Poderi Luigi Einaudi, Francesco Clerico, Prunotto e Cascina Adelaide.
Pianpolvere
Pianpolvere é uma das mais homogêneas e renomadas áreas de Monforte d’Alba. Nos últimos anos, duas Vigna foram oficialmente demarcadas dentro dela: Pianpolvere e Pianpolvere Soprano, ambas associadas à parte mais alta da encosta histórica. O estilo do Barolo produzido aqui é clássico, mais mineral e menos frutado do que outros vinhos de Bussia. Entre os produtores nesta subzona, destaque para Giuseppe Mascarello, Rocche di Manzoni, Chionetti, Fratelli Adriano, Famiglia Anselma e Pianpolvere Soprano.
Visette
Estendendo-se ao longo de uma cordilheira, a área de Visette fica entre Pianpolvere e o Rio dei Corsini, que é o marco da divisa com a MGA San Giovanni. A encosta voltada para sudoeste conta inteiramente com Nebbiolo e goza de bons solos e excelente exposição., com vinhos com caráter mineral, certa austeridade e notas terrosas. Em estilo, podem lembrar aqueles de Pianpolvere. Entre os produtores com parcelas nesta área estão Fratelli Moscone, Attilio Ghisolfi, Poderi Luigi Einaudi e Terre del Barolo.
Arnulfo
Esta área, logo ao sul de Visette, tem longa história, características de solo e aspectos mais do que suficientes para justificar uma segregação. Já era conhecida no século XIX e fez parte do grupo de subzonas ‘há muito estabelecidas” na Carta del Barolo publicada por Renato Ratti. Costa di Bussia é o maior proprietário nesta subzona.
Fantini
Para alguns autores, a área de Fantini, assim como Arnulfo, seria uma subzona de Visette. Porém, por conta da posição protegida dos vinhedos e solos mais arenosos, há diferenças. Isso dá origem a vinhos elegantes e frescos, porém mantendo a estrutura. Além da Costa di Bussia, alguns dos produtores que também elaboram vinhos na região são Amalia Cascina in Langa, Silvano Bolmida, Attilio Ghisolfi, Paolo Scavino e Vinory, todos eles lançando a cuvée Vigna Fantini.
Corsini e Sant’Eligio
Situada no extremo sul, esta área tem uma história mais recente e exposição mais fria (noroeste) em comparação com o coração de Bussia. Inclui vinhedos da zona de Corsini (na parte baixa) e os de Cascina Sciare e Sant’Eligio, onde os solos mostram retenção de água. Entre os produtores presentes nesta subzona estão Fratelli Giacosa, Ruggeri Corsini, Moscone e Arnaldo Rivera.
Fontes: Consorzio di Tutela Barolo Barbaresco Alba Langhe e Dogliani; Barolo MGA Volume 1 , l’Enciclopedia delle Grandi Vigne di Langa, Alessandro Masnaghetti.
Mapas: Consorzio di Tutela Barolo Barbaresco Alba Langhe e Dogliani; Az. Agr. Alberto Ballarin
Imagem: Arquivo pessoal