Muita gente não sabe, mas Roma ou o Vaticano não foram sempre a sede do papado. Entre 1309 e 1376, sete papas sucessivos ficaram sediados em Avignon, no sul da França. E, em uma região com tantos vinhedos, este período deixou suas marcas também no mundo do vinho. Até hoje, uma das mais prestigiosas denominações de origem francesas carrega isso em seu nome.
Châteauneuf-du-Pape, cujo nome significa “o novo castelo do papa” se refere exatamente a este período, embora a vinificação fosse mais antiga na região. Porém, não era somente nas cercanias deste castelo que a viticultura era incentivada. Ela ocorria também no próprio palácio onde viviam os papas, em Avignon, hoje conhecido como Palais des Papes (o palácio dos papas). E esta tradição foi recuperada.

Vinhedo dentro do palácio
E o Palais des Papes não é um palácio qualquer. O Palais é, na verdade, a união de dois edifícios: o antigo palácio de Bento XII, que fica na rocha de Doms, e o palácio construído durante o período quando Clemente VI foi o papa, entre 1342 e 1352. Juntos, eles formam o maior edifício gótico da Idade Média.
Neste enorme palácio, tanto Bento XII quanto Clemente VI decidiram plantar vinhedos na área interna, sobretudo na parte das muralhas superiores, com uma vista privilegiada do rio Rhône. Nada melhor do que garantir uma produção de vinhos, mesmo que o palácio fosse sitiado por tropas inimigas.
Com o retorno dos papas para o Vaticano, a importância do palácio diminuiu, e mesmo ainda sob controle da Igreja Católica, ele foi gradualmente abandonado. Um novo capítulo veio quando da Revolução Francesa de 1789, mas o pouco que se sabe é os vinhedos internos foram perdidos. Mas isso iria mudar.
Recuperação dos vinhedos
Atualmente de propriedade da cidade de Avignon, os vinhedos começaram a ser recuperados, com o replantio das primeiras videiras em 1979. Os responsáveis foram um grupo de cidadãos locais, chamados Compagnons des Côtes du Rhône. Entre as videiras implantadas, podem ser encontradas as dez variedades mais populares do Rhône: as tintas Grenache noir, Syrah, Carignan, Cinsault, Mourvèdre, Marselan e Counoise, além das brancas Grenache blanc, Marsanne e Roussanne.
Com o posterior reconhecimento das autoridades francesas, nascia o Clos de la Vigne du Palais des Papes de Avignon, a única denominação de origem intramuros na França. Ela fica inteiramente dentro do palácio, que é reconhecido pela Unesco como Patrimônio Histórico da Humanidade.
Aberto para visitas
E o melhor: o palácio e seus vinhedos estão abertos para a visitação pública. Esta é possivelmente uma das poucas chances de conhecer uma inteira denominação de origem em poucas horas.
Um exemplo de vinhedo urbano, são cerca de 1.500 metros quadrados de vinhedos, com 540 videiras. Elas dão origem a cerca de 150 garrafas de vinho, que são leiloadas anualmente, com os recursos destinados a uma caridade local.
Fontes: Compagnons des Côtes du Rhône; Urban Vineyards; Palais des Papes;
Imagens: Compagnons des Côtes du Rhône; Marcel S. via Pixabay