Depois de inúmeras discussões e especulações, o governo francês finalmente divulgou medidas efetivas a nível nacional para tentar reduzir o desequilíbrio existente entre consumo e produção de vinho. Por conta da tendência de queda do consumo interno de vinho, os produtores encontram dificuldades crescentes para vender sua produção. E isso gera ampliação dos estoques e pressão de baixa sobre os preços.
Algumas medidas provisórias, como destilação de vinho para produção de álcool, geraram efeito limitado. Afinal de contas, elas não atacam a raiz do problema. Na França, a produção supera o consumo e, mesmo com um dinâmico mercado de exportação, há excedentes de forma consistente. Por conta disso, a única solução estrutural é reduzir a produção, passando pela extração de vinhedos.
Obstáculos para medidas efetivas
A França conta com cerca de 750 mil hectares de vinhedos e a pergunta mais relevante é: qual a área ideal para equilibrar oferta e demanda de vinho? Especialistas indicaram que a extração de até 100 mil hectares pode ser necessária, porém isso enfrenta diversos obstáculos. O principal dele é financeiro, já que custa muito dinheiro fazer esta operação em grande escala, por conta da indenização aos produtores.
Porém, a recente instabilidade política na França também contribuiu para o atraso na busca de soluções concretas. Houve uma significativa mudança no gabinete, por conta do resultado das últimas eleições e o Ministério da Agricultura também passou por transformação. Este embrólio afetou os cronogramas originais de reformas do setor, trazendo ainda mais incertezas aos viticultores.
Anúncio de novo pacote
No último dia 18 as autoridades francesas enviaram à Comissão Europeia um pacote para o setor. Ele prevê o uso de € 120 milhões, com o objetivo extrair 30.000 hectares de videiras, usando como principal justificativa os efeitos da agressão russa contra a Ucrânia. O valor da indenização aos viticultores é, portanto, de 4 000 euros/ha, devendo os beneficiários se comprometer a cumprir três etapas. Além de extirpar as videiras, devem abandonar as autorizações existentes de plantação e não solicitar novas autorizações nas próximas seis safras, entre 2024-2025 a 2028-2029.
Após meses de discussões com Bruxelas e o setor, “a França notificou à Comissão um mecanismo para a redução definitiva do potencial vitícola que constitui a primeira parte das respostas às dificuldades estruturais encontradas pelo setor vitivinícola”. Este foi o comunicado de imprensa do Ministério da Agricultura (FranceAgriMer), agora liderado por Annie Genevard. O comunicado sublinha que “este mecanismo fornece uma resposta estrutural à crise de mercado encontrada, em particular, devido à guerra na Ucrânia, e contribuirá para equilibrar e calibrar melhor os volumes colocados em produção em relação à evolução do consumo no longo prazo”.
Sujeito à aprovação de Bruxelas, o pacote permite à FranceAgriMer preparar a implementação de um sistema de pedido de ajuda permanente ao arranque de 4.000 €/ha para meados de outubro. Apesar de todos os atrasos, havia grande ansiedade por parte dos viticultores, esgotados por tantos reveses e atrasos, para ter a definição desta data.
Será suficiente?
Existe um certo ceticismo em relação ao escopo das medidas. De um lado, há quem acredite que o programa deveria ser mais abrangente. Neste sentido, existe uma provisão para que a verba total possa atingir € 150 milhões, ou seja uma ampliação da área para 37.500 hectares. De outro, há dúvidas sobre o próprio mecanismo, com a opção de extração temporária ganhando força. A apresentação desta última proposta, porém, foi adiada para que haja debates em Bruxelas, que deverá decidir sobre o tema até o final do ano.
Fontes: Vitisphere
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