Degustando ícones do Priorato

Provar, às cegas, vinhos clássicos do Priorat é sempre um privilégio, ainda mais quando já atingiram seu ponto ideal de consumo. Com este objetivo, foram apresentados sete vinhos desta fascinante região espanhola, abrangendo safras de 2000, 2001, 2005, 2006 e 2012.

Cartoixa Scala Dei 2012, Cellers de Scala Dei 15%

Flagship da Cellers de Scala Dei, vinícola instalada no entorno da antiga Cartoixa d’Escaladei, mosteiro cartuxo fundado no século XII que deu origem à viticultura organizada no Priorato. As uvas de Garnacha (majoritária) e de Carignan tiveram origem em diversas parcelas, sobretudo ao redor de Escaladei, cultivadas hoje de forma sustentável, com predominância de vinhas velhas conduzidas em vaso.  Na vinificação, as parcelas têm fermentação individual em pequenas cubas de cimento, com maceração de três semanas. Embora não haja detalhes sobre esta safra específica, em geral, o vinho passa 18 meses em barricas de carvalho. Preços na Espanha entre € 35 e € 40.

Muita tipicidade, com coloração granada de alta concentração, nariz intenso, marcado por aromas de frutas negras e toque balsâmico e de especiarias. Palato de boa acidez, taninos intensos e firmes, um vinho bastante seco, encorpado e quase mastigável, com múltiplas camadas e um longo final de boca. Intenso e concentrado, mostrou mais potência do que elegância ou tensão.

Classic 2005, Cims de Porrera 14,5%

Vinho de referência da Cims de Porrera, vinícola do Priorat que ajudou a recuperar o potencial da Carignan na região. É um 100% Carignan, proveniente de vinhas velhas conduzidas em vaso, sobre solos de xisto (llicorella). Na vinificação, as uvas fermentaram em pequenas cubas, com maceração prolongada e extração controlada. Após conversão maloláctica, estágio de 18 meses em barricas de carvalho francês. Safras mais recentes custam entre € 60 e € 80 na Espanha.

Mesmo vinte anos após sua safra, apresentou coloração rubi, de concentração média a alta, com olfativo rico. Destaque para frutas negras, grafite, alcaçuz, chocolate amargo e nota defumada. Confesso que esperava mais tensão e precisão por ser um monovarietal de Carignan; me pareceu ter um peso de boca um tanto excessivo. Mostrou boa acidez, taninos bem presentes e elevada densidade, com múltiplas camadas e notas terrosas.

Clos Mogador 2005, Clos Mogador 14,5%

Clos Mogador é o vinho de referência e a cuvée principal da vinícola homônima, um dos produtores mais emblemáticos do Priorat e figura central no processo de reposicionamento da região como uma das grandes zonas vitivinícolas da Espanha a partir dos anos 1990. Na safra de 2005, o Clos Mogador é um corte de 40% Garnacha, 28% Cabernet Sauvignon, 17% Syrah e 15% Carignan, com uvas provenientes de vinhas velhas, conduzidas em vaso, em solos de llicorella. A vinificação ocorre em tanques com controle de temperatura, com fermentações realizadas por variedade antes do corte final, e estágio de 20 meses em barricas francesas de 300 litros (70% novas). Atualmente, safras recentes de Clos Mogador têm preço na Espanha entre € 90 e € 120.

Estilisticamente, mostrou algumas diferenças em relação aos anteriores, como taninos mais elegantes e maior concentração e camadas. Visual de coloração granada, de média a alta concentração, com olfativo que traz frutas vermelhas bem maduras e negras, pimenta negra, alcaçuz e notas terrosas. Palato bem encorpado, com muito matiére e extração, boa acidez e taninos finos. Esperava uma relação mais equilibrada entre elegância e potência, também prejudicada por uma clara sensação de álcool em excesso.

Miserere 2005, Costers del Siurana 14,5%

Miserere é um dos dois rótulos tintos de maior prestígio da Costers del Siurana, porém, aquele de perfil menos frutado. Com origem em vinhas antigas conduzidas em vaso, é um corte de 27% Cabernet Sauvignon, 27% Garnacha, 26% Tempranillo, 10% Carignan e 10% Merlot. Na vinificação, cofermentação em tanques de inox, com uso de leveduras selecionadas e maceração curta. O vinho fez estágio em barricas de carvalho francês novas, com longo tempo de permanência em garrafas antes do lançamento. Chega ao Brasil pela Tanyno, com preço de R$ 1.590 em janeiro de 2026.

De forma geral, em termos de estilo, lembrou o vinho anterior, porém com mais elegância e com a sensação de que tem uma estrada mais longa à frente. De coloração granada de alta concentração, apresentou, no olfativo, notas de frutas negras e toques terrosos, especiados e de alcaçuz. Na boca, um Priorat de boa acidez, encorpado e com taninos intensos, mas de qualidade. Denso e com várias mostrou belo equilíbrio entre estrutura e drinkability.

Clos Figueres 2006, Clos Figueres 14,5%

Este é o vinho-referência da vinícola Clos Figueras, situada em Gratallops. Para sua elaboração, uso de uvas de cultivo sustentável, com alta proporção de vinhas velhas em um corte onde Garnacha (majoritária) e Carignan são complementados com Syrah e Cabernet Sauvignon. Fermentação separada por variedade em tanques com controle de temperatura, para um estágio de 14 a 18 meses em barricas de carvalho francês. Chega ao Brasil pela Mistral, com preço de R$ 1.250 nas safras mais recentes.

De todos os vinhos do painel, aquele que mais lembrou Garnacha. Coloração rubi de média concentração, com nariz trazendo notas de frutas vermelhas e especiarias, com toque mentolado. Beneficiou-se de uma safra mais fresca, como a de 2006, para mostrar mais frescor e vivacidade, com boa acidez, taninos granulosos e boa tensão. Menos denso e profundo, porém mais vertical.

Clos Mogador 2000, Clos Mogador 14,5%

O ponto alto deste painel às cegas, daqueles vinhos que unem profundidade e elegância, com múltiplas camadas, mas sem o peso de boca dos demais. Coloração granada de média concentração, com nariz rico e exuberante. Destaque para aromas de frutas vermelhas e negras, com notas florais de especiarias, couro, figos e chocolate. Palato de alta acidez, taninos finos, corpo médio e fruta presente, um vinho equilibrado e profundo.

Tirant 2001, Rottlan Torra 14%

Com produção de cerca de 9.000 garrafas, é o vinho mais conhecido entre os elaborados por Jordi Rotllan Torra. Corte de 30% Garnacha, 25% Carignan (ambos de vinhas quase centenárias), 25% Cabernet Sauvignon, 10% Syrah e 10% Merlot. Fermentação em foudres e estágio de 12 meses em barricas novas de carvalho francês. Dos vinhos degustados, foi aquele em que senti mais notas de madeira (talvez explique os 96-98 pontos de Robert Parker). De coloração granada média, trouxe, no olfativo, notas de frutas vermelhas, couro, especiarias, floral e cedro. Refletiu bem a clássica safra 2001 com alta acidez, corpo médio e taninos redondos e macios, com boa tensão.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *