Em tempos de Olimpíadas, nada como um desafio, desta vez degustando Supertoscanos. Na ausência (programada para um evento futuro) do Dream Team da região (Sassicaia, Masseto, Ornellaia e etc), ainda uma bela prova. Foram oito vinhos que confirmaram a pluralidade da Toscana como região produtora, com a Sangiovese e as variedades de Bordeaux como protagonistas.
Testamatta 2016, Bibi Graetz 13,5%, R$ 1.790
As uvas deste 100% Sangiovese provêm de parcelas localizadas em cinco vinhedos em áreas diferentes da Toscana, todos plantados com vinhas velhas (até 80 anos de idade). Fermentação por parcela, com leveduras indígenas em barricas abertas de 225 litros, sem controle de temperatura e com maceração de sete a dez dias. O blend ocorreu somente após estágio de dois anos em barricas usadas.
Muita tipicidade e a tradicional “rusticidade controlada” que caracteriza a Sangiovese na Toscana. No visual, mostrou coloração granada de baixa concentração, com um olfativo marcado por frutas vermelhas, terra seca, lavanda e menta. Na boca, alta acidez, corpo médio e tanino picante e granuloso. Um vinho fresco e agradável, com boa tensão, notas terrosas e fruta bem evoluída. Contrariando boa parte dos participantes da degustação, para mim este Toscana IGT foi uma agradável surpresa, um dos destaques da noite.
Il Carbonaione 2003, Podere Poggio Scalette 13,5%, R$ 1.182
Outro monovarietal de Sangiovese, rotulado como parte da Alta Valle Della Greve IGT. Vinhedos de cultivo sustentável na área de Ruffoli, com fermentação de 12 dias em tanques de inox, seguida por doze meses em tonneaux de 350 litros e seis meses em garrafa antes do lançamento.
Também aqui uma expressão mais tradicional da Toscana, com uma distinta nota sanguínea e drinkability de sobra. Visual granada de média a alta concentração, com um olfativo combinado notas de ameixa e couro, com toque terroso. No palato, um Sangiovese mais robusto e rústico que o anterior, com alta acidez, taninos intensos, corpo médio a alto, repetindo na boca as notas frutadas, terrosas e sanguíneas. Pelo equilíbrio, outro dos destaques da degustação.
Promis 2019, Ca’Marcanda Gaia 14,5%, R$ 657
Um dos vinhos da linha intermediária da vinícola criada por Angelo Gaja em Bolgheri. Nesta safra, foi um corte de 55% Merlot, 35% Syrah e 10% Sangiovese. As três variedades passaram por fermentações e macerações separadas, por cerca de 15 dias. Após 12 meses em carvalho, foi feito o blend.
Um vinho ainda bastante jovem e não plenamente integrado, com taninos e álcool bastante aparentes. Visual de coloração rubi e alta concentração, com olfativo intenso e complexo. Destaque para os aromas florais (rosa), frutas vermelhas e negras, pimentão, grafite e borracha. Na boca, acidez correta, fruta bem madura, taninos intensos e ainda verdes, com boa profundidade e muita vivacidade.
Schidione 2001, Castello di Montepò Jacopo Biondi Santi 2001, R$ 3.441
Um vinho de alta gama, mas que passou do seu pico, com predomínio quase absoluto de notas terciárias. Este corte de 40% Sangiovese, 40% Cabernet Sauvignon e 20% Merlot teve vinificação separada para cada variedade, com macerações mais longas. Fez estágio de 24 meses em barricas de carvalho novo, seguido por mais seis meses em inox.
Coloração granada de média concentração, com nariz bastante complexo, destacando aromas de couro, frutas vermelhas, madeira, balsâmico, sottobosco, ervas verdes, pimenta negra e chocolate. No palato, alta acidez, corpo médio e taninos granulosos. Um vinho com boa estrutura e notas picantes, que merecia ter sido consumido no seu auge.
Le Stanze 2005, Poliziano 13,5%, R$ 1.082
Produtor tradicional de Montepulciano, trouxe uma versão bastante interessante do terroir desta região com este corte de 65% Cabernet Sauvignon e 35% Merlot. Fermentação em inox, com macerações longas (20-25 dias) e estágio de 16 meses em barricas francesas novas. O principal destaque da noite, de maneira quase unânime.
Um Toscana IGT de coloração granada e alta concentração, com olfativo complexo e intenso. Destaque para as notas de cedro e frutas vermelhas (cereja) e negra (ameixa), complementadas por toque de chocolate, poeira, terra molhada e sálvia. Na boca, trouxe alta acidez, corpo médio a alto, com taninos finos. Se mostrou intenso, profundo e equilibrado, em um estilo mais moderno, porém com muita precisão e tensão.
Giusto di Notri 2010, Tua Rita 14,5%, R$ 1.578
Este corte de 60% Cabernet Sauvignon, 30% Merlot e 10% Cabernet Franc evidenciou o talento da equipe de Tua Rita. Vinhedos próximos ao Mediterrâneo, na região costeira ao sul de Bolgheri e, na cantina, maceração de 25 a 30 dias em tanques de inox, com 18 meses em barricas de carvalho francês.
Um corte bordalês que esbanjou vivacidade, parecia muito mais jovem que os 14 anos desde sua safra. Visual de coloração rubi de alta concentração, com olfativo explosivo, marcado por aromas florais (violeta), frutas negras, mentolado, cedro, pimentão vermelho e pimenta negra. No palato, alta acidez, taninos finos e corpo médio a alto, com boa densidade e longa persistência.
Brancaia Il Blu 2018, Brancaia 14,5%, R$ 1.699
Mais um Toscana IGT, este blend de 80% Merlot, 10% Sangiovese e 10% Cabernet Sauvignon pecou pelos seus “excessos”, sobretudo no que diz respeito à percepção de álcool, menor tensão e fruta bastante madura. Cada variedade passou por estágio de 18 meses em barricas (das quais dois terços novas).
Coloração rubi com discreto halo de evolução e alta concentração, com olfativo intenso trazendo chocolate amargo, frutas negras, menta e cedro. No palato, mostrou acidez alta, muito corpo e taninos mais redondos. Um vinho de estilo mais “datado”, sem apresentar o frescor e drinkability esperados.
Tignanello 1998, Marchesi Antinori 13,5%, R$ 1.800
Lançado pela primeira vez em 1971, é um dos pioneiros entre os Superstoscanos. Na safra 1988 foi um corte de 80% Sangiovese, 15% Cabernet Sauvignon e 5% Cabernet Franc, com uvas provenientes da área de Chianti Classico. Vinificação de cada variedade de forma independente, com o blend passando 12 meses em barricas de carvalho.
Mesmo apesar da safra 1998 ter sido considerada excelente, outro vinho que já deixou o seu melhor para trás. Coloração granada de alta concentração, com nariz já bastante terciário, marcado por notas balsâmicas e terrosas, com chocolate e fruta negra mais discreta. Na boca, mostrou alta acidez, taninos aveludados e integrados, um vinho encorpado, profundo e de muita persistência, que sofreu pela menor vivacidade.