Bordeaux é uma região vinícola de enorme importância. Além de ser a maior produtora de vinhos com denominação de origem da França, ganhou projeção pela qualidade de seus vinhos. Nomes como Château Lafite, Château Margaux, Château Haut-Brion ou Château Latour, por exemplo, ficam entre os vinhos mais disputados do mundo. E todos eles têm um ponto em comum: desde 1855 têm classificação Premier Cru Classé.
Esta classificação de 1855 se mantém até hoje, com apenas uma mudança, incluindo 60 propriedades divididas em cinco categorias. Mas Bordeaux, obviamente, tem muito mais produtores do que isso. Portanto, não surpreende que a região, além da classificação de 1855, tenha quatro outras classificações para seus vinhos. E, dentre elas, a mais abrangente é a de Crus Bourgeois.

Longa história
Historicamente, o termo Cru Bourgeois remonta ao século XV, como uma referência aos vinhos produzidos pela burguesia, ou cidadãos de classe média, que possuíam vinhedos na região de Bordeaux. Em paralelo, mesmo antes da classificação de 1855, já havia esforços no sentido de classificar os vinhos na área de Médoc. Porém, por conta do pequeno número de propriedades escolhidas em 1855, os esforços se intensificaram para os demais após esta data.
Foi somente em 1932 que o termo Cru Bourgeois ganhou uma dimensão mais formal. Um comitê de négociants, respaldado pela Câmara de Comércio de Bordeaux e pela Câmara de Agricultura da Gironda, criou uma lista, inicialmente com pouco mais 440 propriedades. Os Châteaux foram divididos em três escalas hierárquicas: Cru Bourgeois Exceptionnel (mais alto), Cru Bourgeois Supérieur (intermediário) e Cru Bourgeois (padrão).
Todavia, por conta da crise dos anos 1930, com pelo menos 150 produtores fechando as portas, o termo caiu em desuso. O próximo passo ocorreu somente em 1962, quando o Syndicat de Crus Bourgeois desenhou uma nova classificação, revisada para 117 Châteaux em 1977. Em 1979 recebeu reconhecimento oficial da Comunidade Europeia, com regras específicas desenhadas a partir de 2000.
Novos capítulos
A primeira classificação oficial dentro do novo contexto veio a público em 2003. Após a candidatura de 490 propriedades, 247 receberam aprovação, divididas nas três categorias definidas em 1932. Nove Châteaux receberam a classificação mais alta (Cru Bourgeois Exceptionnel), 87 como Cru Bourgeois Supérieur e 151 como Cru Bourgeois. Inconformados com a classificação, porém, diversos produtores entraram na Justiça francesa, que declarou a classificação inválida em 2007 e suspendeu seu uso.
Novos esforços deram resultado em 2010 com a volta do termo Cru Bourgeois, porém sem a hierarquia em três níveis, com o compromisso de avaliações anuais de qualidade. A falta de hierarquia, todavia, levou a uma nova classificação a partir de 2020, com reavaliações a cada cinco anos e a volta dos três níveis hierárquicos. Para o período 2020-2024 houve a classificação de 249 Châteaux: 14 como Cru Bourgeois Exceptionnel, 56 como Cru Bourgeois Supérieur e 179 como Cru Bourgeois.
Para reduzir o risco de novos questionamentos jurídicos, a classificação de 2020 incluiu diversas exigências. Enfatizou os padrões ambientais, exigindo pelo menos certificação HVE de nível 2 (agricultura sustentável). Os vinhos necessariamente passam por degustações às cegas por vários júris, e para chegar às categorias superiores, as vinícolas devem adotar medidas adicionais de qualidade no manejo dos vinhedos, vinificação, marketing e distribuição.
Área, denominações de origem e uvas
Se no passado houve muita confusão de quais áreas e propriedades poderiam participar da classificação, atualmente a definição é mais objetiva. Somente propriedades localizadas na área de Médoc qualificam, desde que façam parte das oito denominações de origem desta região. Mostradas no mapa abaixo, incluem as mais genéricas Médoc AOC e Haut Médoc AOC, assim como as seis denominações comunais dentro da área de Haut-Médoc. São elas: Saint-Estèphe, Pauillac, Saint-Julien, Margaux, Moulis-en-Médoc e Listrac-Médoc.

Estes vinhos contam com as variedades aprovadas pelas respectivas denominações de origem, sobretudo aquelas que compõem os cortes bordaleses. São elas: Cabernet Sauvignon, Merlot, Cabernet Franc, Petit Verdot, Carmenère e Malbec. Além disso, também seguindo as regras mais recentes das AOCs, os produtores podem adicionar até 5% de Arinarnoa, Castets, Marselan ou Touriga Nacional.
A revisão de 2025
Durante a Wine Paris de 2025, houve a divulgação da revisão quinquenal, aplicável às safras 2023, 2024, 2025, 2026 e 2027. Foram escolhidos 170 propriedades, das quais 14 Crus Bourgeois Exceptionnels (o mesmo número da última vez, mas com mudanças nos nomes), 36 Crus Bourgeois Supérieurs e 120 Crus Bourgeois. Isso representou uma redução significativa em quantidade, com quase 80 propriedades a menos (pouco menos de 38%) do que no ranking anterior, de 2020.
São várias razões para esta queda, incluindo mais rigor nas regras ambientais (HVE nível 3 ao invés de HVE nível 2). Vale lembrar também que esta área, até por conta das enormes dificuldades nos últimos anos, tem passado por diversas fusões e incorporações de propriedades. Pesam também os custos de certificação, sobretudo dentro de um contexto de crise. O resultado foi a queda no número de candidaturas.

Com isso, cai a diferença em número de propriedades em relação às outras classificações da região de Bordeaux. Vale lembrar que atualmente são 60 Crus Classés de 1855 (boa parte deles no Médoc, com exceção de Château Haut-Brion e dos produtores de vinhos doces brancos escolhidos em 1855). Já St Emilion atualmente tem 85 Grand e Premier Crus Classés, enquanto Graves contabiliza 16 Crus Classé.
A relevância da classificação Cru Bourgeois
Em uma região onde as classificações sempre fizeram enorme diferença, o uso do termo Cru Bourgeois tem um papel relevante. Além disso, é uma área de enorme produção, com elevado número de vinícolas, de forma que este tipo de iniciativa pode ajudar o consumidor na hora de escolher seu vinho. Por exemplo, para quem ficou “órfão” de vinhos de Bordeaux por conta dos altos preços dos Cru Classés, os Cru Bourgeois aparecem como uma alternativa interessante. A crítica e jornalista especializada na região Jane Anson, coloca isso no contexto geral. Segundo ela, credibilidade do modelo de Cru Bourgeois “vive e morre com o desempenho dos Exceptionnels”, que são comparados freequentemente com alguns dos Crus Classés.
É uma região que necessita comercializar de forma mais eficaz seus vinhos, até porque os estoques seguem elevados. E isso afeta até mais as vinícolas fora da classificação de 1855. Os négociants da região estão de posse de enormes estoques de Crus Classés e acabaram se afastando ou reduzindo os esforços para a comecialização dos Crus Bourgeois. E a classificação pode funcionar com uma importante ferramenta para que as vinícolas obtenham maior sucesso com vendas diretas.
Fontes: Vins de Bordeaux; Crus Bourgeois; Encyclopedia of Wine, Larrouse; Jane Anson Inside Bordeaux
Imagem: JonathanRieder via Pixabay
Logo e mapa: Cru Bourgeois e Vins de Bordeaux