Last Updated on 12 de novembro de 2020 by Wine Fun
A Vivente faz parte da nova geração de produtores de vinhos naturais no Brasil e rapidamente atingiu uma posição de destaque. Seus dois sócios, Diego Cartier e Micael Eckert, antes de fundar a empresa, acumularam experiência no mundo da cerveja artesanal. Diego foi beer hunter do Have a Nice Beer / WBeer (o clube de cervejas da Wine), colunista da Playboy e sócio de uma pequena importadora de raridades (Hors Concours). O Mica, como Eckert é conhecido no meio, foi sócio-fundador e cervejeiro da Coruja, que é uma importante referência em cervejas artesanais e lagers de qualidade no Brasil.
A melhor forma de descrever a Vivente é pelas palavras dos seus sócios. “ A Vivente nasceu da amizade entre amigos apaixonados pelo que fazem e com personalidades diferentes, que se uniram para produzir vinhos de verdade, com alma, sem seguir tendências e sempre respeitando o tempo, a natureza e as vivências envolvidos na agricultura e vinificação”. O foco é a produção de vinhos vivos, nada além de uvas fermentadas espontaneamente por leveduras selvagens.
A seguir, os principais pontos da entrevista exclusiva à WineFun.
Wine Fun (WF): Qual a sua filosofia de vinificação, o que mais busca quanto produz um vinho (desde a escolha das uvas até o final do processo de vinificação)
Diego Cartier (DC): Apenas uvas fermentadas espontaneamente e nada mais. O vinho natural é uma contracultura e expressa o que foi cada safra e as características do terroir. É um vinho vivo e que vai muito além dos aspectos sensoriais. Não há padronização e existe um cuidado e respeito com a natureza, o tempo e a saúde, que é justamente o que buscamos.
Queremos transmitir nos nossos vinhos a verdadeira expressão da fruta, do terroir e da safra. Um vinho não é bom simplesmente porque é natural, mas praticando uma agricultura sustentável (livre de venenos) – seja orgânica ou biodinâmica e vinificando naturalmente, é mais de meio caminho andado para conseguir tirar o melhor do vinhedo e consequentemente se tornar um bom vinho. Quanto mais trabalhamos na agricultura, menos precisamos intervir na vinificação.
WF: O que você busca quando seleciona os viticultores das uvas que usa nos seus vinhos? Qual o seu grau de envolvimento na evolução destes vinhedos? Como a dificuldade de obter uvas orgânicas pode ser superada? Ter vinhedos próprios faz parte dos seus planos?
DC: Buscamos uvas de qualidade e acima de tudo quem trabalha de forma sustentável, respeitando a natureza. Dos nossos dois principais fornecedores, um pratica agricultura orgânica e o outro está convertendo. Procuramos acompanhar e ajudar de perto sempre que possível, não somente durante a colheita.
Micael Eckert (ME): Desde 2018 plantamos aqui em Colinas, no Rio Grande do Sul, algumas variedades em espaldeira de vinhas resistentes disponíveis para importação da Rauscedo, da Itália. A orientação é norte-sul, com boa declividade. Estamos a 450 metros de altitude e rodeados de morros num mini-vale, sem vinhedos convencionais próximos da nossa área.
Pretendemos trabalhar da forma mais natural possível, apenas com práticas orgânicas e biodinâmicas. Nosso clima é um tanto complicado para as vinhas viníferas, mas também vamos arriscar lidar com elas! Esse ano expandimos a área plantada e colocamos, em uma parte atrás do morro, portanto separado dessas resistentes, a Riesling Renano, que é uma aposta para avaliarmos o comportamento de uma vinha mais suscetível a doenças. Vamos nos esforçar muito para ela se adaptar e produzir boas uvas. Os porta-enxertos escolhidos são variados e focados em qualidade da uva e longevidade da vinha.
WF: Qual seu maior diferencial, qual seria uma técnica ou procedimento que você adota que realça a sua assinatura no vinho que produz?
ME: Não chega a ser um grande diferencial, mas julgamos importante o uso do frio no recebimento e estoque das uvas, antes de produzirmos os vinhos. Como ainda não temos uvas nossas, compramos de parceiros, muitas vezes é necessário deixarmos por um tempo refrigeradas, para minimizarmos os efeitos do calor do nosso verão.
WF: Quais as maiores dificuldades e/ou preconceitos de trabalhar com agricultura orgânica ou biodinâmica e vinificação de mínima intervenção? Qual o fator individual nestes processos que podem fazer você perder o sono?
ME: Cada lugar é muito particular. Cada vinho é único. Temos que entender o tempo de cada ação e reação. Não adianta forçar ou querer resultados imediatos. As práticas orgânicas e biodinâmicas, tanto na agricultura, quanto a vinificação natural nos vinhos, muitas vezes têm seu próprio tempo, que temos que respeitar e entender. Requer muita proximidade para podermos interagir e agir quando necessário.
WF: Quais são os maiores desafios para a vinificação na região onde atua?
ME: O calor complica bastante. Temos caves aqui, mas muitas vezes o clima é de verão, quente e úmido. Essa é uma das grandes dificuldades.
WF: Mencione uma safra histórica para você e o porquê.
DC: 2018, porque foi nossa primeira.
WF: Qual a variedade ou corte que lhe dá maior satisfação em vinificar? Por quê?
DC: Se fosse obrigado a escolher somente uma, seria Pinot Noir. Ela é bem delicada, sedutora e versátil. Além de gostar muito dela, claro.
ME: Acredito que a Pinot assim como o Diego comentou. Gosto muito dos resultados da Cabernet Franc também.
WF: Se tivesse que vinificar em uma região específica que não seja a que já atua, qual seria? E por quê?
DC: No Brasil, gostamos muito das regiões onde estão nossos fornecedores e parceiros das uvas; Campos de Cima da Serra e Campanha. Se fosse fora do país, é difícil dizer por ainda não conhecer todas as regiões que espero ir, mas se fosse escolher onde estão meus produtores favoritos e que mais admiro, poderia ser no Jura, Loire/Auvergne, Borgonha/Beaujolais, Rhône, Champagne…
WF: Qual seria o colega de profissão/mestre que mais admira? Por quê?
DC: São tantos mestres pelo mundo, produtores que mesmo sem conhecer todos pessoalmente admiro e adoro não somente os vinhos e lambics, mas a filosofia de trabalho. É impossível citar apenas um… Jean Van Roy (Cantillon), Armand Debelder (3 Fonteinen), Jean-Marc Brignot, o falecido Ernesto Cattel (Costadilà), Pascal e Moses (Les Capriades), Nicolas Vauthier, Jean-François Ganevat, Emmanuel Lançon (Domaine des Murmures), Pierre Beauger, Jean-Pierre Robinot, etc, etc, etc. No Brasil, o amigo Daniel Lopes, da Vinhas do Tempo, pelos vinhos e por termos uma sintonia no que fazemos em nossos projetos.
WF: Cite dois livros que marcaram sua vida. Um na área de vinhos e outro de qualquer outra, pode ser também sobre vinhos.
DC: Para a parte de vinhos são três: Vinho do Céu a Terra, de Nicolas Joly; Naked Wine, de Alice Feiring e Jura Wine, de Winck Lorch. Fora do mundo do vinho, fico com O Estrangeiro, de Albert Camus.
ME: Um de cada: Assim falou Zaratustra, de Friederich Nietzsche, e Vinho do Céu a Terra, de Nicolas Joly.
WF: Mencione três das suas músicas favoritas>
DC: Histoire de Melody Nelson ou Couleur Café, de Serge Gainsbourg; Move On Up, de Curtis Mayfield, Concierto de Aranjuez (Adagio), de Miles Davis
ME: Where is my Mind, dos Pixies, Das Model, de Kraftwerk, Bebendo Vinho rsrsrs (Wan Wan, Wander Wildner)
WF: Fale sobre qualquer aspecto adicional da sua atividade que gostaria de discutir!
DC: No mundo dos vinhos fala-se muito em safras e terroir, sendo que a maioria dos vinhos convencionais não expressam nada disso. Existem diversos produtos químicos que são utilizados nos vinhedos e um monte de produtos enológicos usados na vinificação. Os vinhos industriais são super manipulados, para manter o padrão ano a ano.
Fazemos o que queremos e de acordo com as condições de cada safra. Nós deixamos a natureza trabalhar e tentamos tirar o melhor que ela nos oferece a cada ano, intervindo minimamente. Algumas pessoas pensam que vinho por ser feito de fruta é algo natural, mas infelizmente, quando falamos da grande indústria, não é assim.
Imagem: instagram @mcuria