Encruzado: conheça a joia branca da viticultura do Dão

Portugal é um país com um imenso patrimônio de variedades autóctones, tanto em termos de uvas tintas como de brancas. Uma delas é a Encruzado, embora pouco difundida e ainda fora do radar de muita gente, cada dia mais figura como uma das mais expressivas castas brancas de Portugal. Um verdadeiro símbolo da região do Dão, trata-se de uma variedade cultivada quase exclusivamente nesta denominação de origem. Nela, responde por uma grande parcela dos vinhos brancos monovarietais de maior prestígio.

Pouco se sabe sua origem e seus parentescos genéticos com outras uvas locais. Sem menções relevantes em registos históricos no passado mais distante, foi somente nas décadas de 1940 e 1950 que surgiram suas primeiras descrições técnicas, consolidando a sua identificação como variedade autóctone do Dão. Também conhecida pelo sinônimo Salgueirinho, a Encruzado permaneceu praticamente restrita à região, reforçando o vínculo com o seu terroir de origem.

Não há consenso sobre seu nome. Algumas teorias apontam para a ideia de “cachos entrecruzados”, outras para uma suposta adaptação a diferentes terroirs. Nenhuma hipótese foi confirmada, e o fato de a uva permanecer concentrada quase exclusivamente no Dão reforça sua ligação histórica e identitária com a região.

Principais características

Os cachos são médios a pequenos, compactos, com bagos de porte médio, casca de média espessura e coloração verde-amarelada. É uma casta de maturação média, produtiva e regular, com elevada resistência à seca. Embora sensível ao vento, é moderadamente suscetível a míldio, oídio e botrytis. O seu ciclo é relativamente longo, o que exige atenção ao ponto de colheita.

Se adapta muito bem às colinas graníticas do Dão, região de clima continental, com grande amplitude térmica e influência da altitude. Seu perfil sensorial e de aromas, porém, é muito influenciado pelo microterroir, sobretudo pela altitude, exposição solar e tipo de solo.

Seus vinhos

Os vinhos da Encruzado podem apresentar uma rara combinação de elegância, estrutura e capacidade de evolução. Isso a coloca em posição de destaque entre os vinhos brancos portugueses. Na juventude, são brancos de coloração citrina e aromas de frutas cítricas, maçã verde, pêssego branco, notas florais intensas (inclusive notas incomuns para uvas brancas, como violetas e rosas), ervas verdes e um característico toque de resina de pinheiro. No palato, une alta acidez, corpo médio a cheio, exibindo frescor e tensão, mas também equilíbrio entre álcool e acidez.

Porém, é com mais tempo de garrafa que ela ganha uma personalidade especial. A Encruzado surpreende pela sua longevidade, pois seus vinhos ganham untuosidade, notas de frutos secos (avelã e pinhão), resina, mel e até petrolato, numa evolução que muitos especialistas comparam à da Riesling. A versatilidade é um trunfo. Isso permite a elaboração tanto de brancos frescos em inox como de exemplares mais estruturados, com fermentação ou estágio em barrica, muitas vezes sobre lias finas, técnica que acrescenta ainda mais profundidade e complexidade.

Área plantada

Segundo dados da CVR Dão, a Encruzado em 2024 ocupava 275 hectares, o que correspondia a cerca de 5,5% da área de vinhedos totais da região. Isso a colocava como a quinta casta mais plantada do Dão, atrás apenas das variedades tintas Jaen, Touriga Nacional, Alfrocheiro e Aragonez/Tinta Roriz. Essa posição comprova sua importância como a principal variedade branca da denominação. Fora do Dão, há apenas pequenas parcelas em regiões como Beiras, Terras do Sado e Alentejo, mas sem grande expressão em termos de volume produzido.

Fontes: CVR Dão; Wines of Portugal, Wine to Wine Circle; Vivai Rauscedo; Instituto da Vinha e do Vinho

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