Estudando o aquecimento global: Rioja terá que mudar seu blend de uvas no futuro?

O aquecimento global já é uma realidade em vinhedos ao redor do mundo. O aumento nas temperaturas médias, muitas vezes acompanhado de menores índices pluviométricos, traz efeitos indesejados para as uvas e, consequentemente, para os vinhos. Além de uma elevação na graduação alcóolica, outra característica decorrente do aquecimento global é a redução da acidez dos vinhos.

Esta tendência é um motivo de preocupação em diversas regiões e não faltam esforços de conselhos de denominações de origem para entender melhor seu impacto. Entre eles está o da Rioja, uma das mais reverenciadas regiões produtoras de vinho da Espanha, onde foi divulgado um novo estudo. O objetivo foi avaliar quais as consequências sobre cada uma das variedades mais usadas na área.

A Rioja e seus vinhos

A Rioja é uma das áreas vinícolas mais tradicionais da Espanha. Esta região é cultivada principalmente com variedades tintas, com predominância da Tempranillo, que responde por quase 80% da área de vinhedos Outras uvas, como Garnacha, Carignan (chamada localmente de Mazuelo) e Graciano, são aceitas, porém aparecem em proporções muito menores.

O estudo buscou analisar cada uma delas. Sendo variedades cultivadas nas condições climáticas atuais da Rioja, será que elas respondem da mesma forma às mudanças na temperatura e na disponibilidade de água? Existem variedades que podem ter uma melhor resposta ou resiliência às mudanças climáticas projetadas? Conhecer a resposta de cada variedade é essencial para poder estabelecer estratégias de ação contra as mudanças climáticas.

O futuro da Tempranillo

Focando na Tempranillo, as análises da variabilidade da fenologia em diferentes áreas de La Rioja (Rioja Alta e Rioja Oriental) preocupam. Elas mostraram o avanço fenológico tanto da floração, veraison e colheita em mais de 10 dias. A comparação é com a média dos anos quando ocorreram temperaturas mais altas e maior estresse hídrico. Essas alterações dão uma ideia das mudanças esperadas em cenários de climas mais quentes. Há também diferenças entre as áreas localizadas em diferentes altitudes, entre as quais já existem diferenças significativas.

As projeções, feitas em diferentes cenários de aquecimento, permitiram confirmar essa hipótese. Elas estimam avanços do veraison para 2050 entre 8 e 10 dias sob um cenário controlado de emissões e até 14-15 dias para um cenário sem controle de emissões. A colheita pode reagir em proporções semelhantes. Em resumo, a perspectiva é de ciclos cada vez mais curtos.

O avanço da evolução fenólica implica em um amadurecimento maior das uvas em condições de temperaturas mais altas. E isso pode afetar certas características da fruta. A acidez diminui com o aumento da temperatura e a Tempranillo, que já é de baixa acidez, pode ter um efeito negativo significativo. Dependendo da área da Rioja, e do cenário de emissões, a acidez total desta variedade poderia diminuir entre 0,9 e 2,6 g/L e a concentração de ácido málico cairia entre 0,6 e 3,3 g/L, devido ao aumento das temperaturas.

Outras uvas

No que diz respeito ao avanço fenólico, a Garnacha deve apresentar um comportamento semelhante, com adiantamento da floração, veraison e colheita muito próximo ao que deve ocorrer com a Tempranillo. Já a Carignan, porém, deve reagir com menor intensidade.

O mesmo ocorre em termos de perda de acidez. Por conta de seu amadurecimento mais tardio e níveis mais altos de acidez, a Carignan responderá às mudanças de forma menos dramática. Vale lembrar que esta uva atualmente é muito popular em regiões mais quentes, como a Catalunha e o sul da França.

Soluções e perspectivas

Mudar a proporção das variedades nos vinhedos, porém, não é única alternativa. Embora possa aumentar a área de algumas variedades (que apresentam melhor adaptação a esse cenário de aquecimento), outras medidas fazem sentido. A pesquisa realizada na Rioja mostrou o potencial das áreas localizadas em altitudes mais elevadas para melhor adaptação ao aquecimento climático,

Além disso, quando o foco é em vinhedos já existentes, a aplicação de técnicas de viticultura que causam um atraso no amadurecimento das uvas pode mitigar os efeitos das mudanças climáticas. Essas técnicas incluem poda tardia, corte severo dos galhos e procedimentos que levem a uma brotação forçada, entre outros.

Fontes: Conselho Regulador da Rioja; The Conversation

Imagem: Conselho Regulador da Rioja

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *