A Côte de Nuits concentra muitas denominações de origem famosas, entre elas Vosne-Romanée, Chambolle-Musigny e Nuits-St-Georges. Porém, a sua parte mais ao norte, mais próxima a Dijon, também dá origem a vinhos de alta gama e, melhor, a preços mais atrativos. Neste segmento da Côte de Nuits, Fixin é um dos destaques. Produzindo, em sua maiori,a vinhos tintos onde a Pinot Noir reina soberana, segue ganhando maior exposição após várias décadas relativamente eclipsada por vilarejos próximos.
Além de seus vinhos, Fixin também tem outros atrativos. Um dos mais fascinantes templos de toda a Borgonha, a Igreja de Saint-Antoine, fica em Fixey, pequena aldeia parte de Fixin desde o século XIX. Este vilarejo tem também um vínculo próximo com Napoleão Bonaparte, maior expoente da história francesa nos últimos 300 anos. Um de seus generais, Claude Noisot, retornou a seu vilarejo natal após o fim das guerras napoleônicas e homenageou seu comandante, renomeando seu melhor vinhedo. Nascia o Clos Napoléon, hoje um dos seis vinhedos Premier Cru de Fixin.

Longa história
A Fixin e a aldeia de Fixey têm suas primeiras referências já no período galo-romano. Antes do ano 1000, a viticultura já havia atingido um estágio elevado de desenvolvimento, por conta da presença de diversas ordens religiosas. O Chapître de Langres, instituição religiosa sediada em Langres (norte de Dijon) teve importante presença, como atesta a existência até hoje do Clos du Chapître, um dos principais vinhedos da região. Já o também Premier Cru Clos de la Perrière, por sua vez, fazia parte das terras da Abadia de Cîteaux, com registros desde 1177.
A partir do século XVII também a burguesia local passou a investir em vinhedos, entre eles a família Bouhier. Com foco principalmente em vinhos tintos, a região ganhou importância e seus vinhos chegaram a ter uma reputação melhor que Gevrey-Chambertin. Fixin mapeou detalhadamente seus vinhedos em 1860, porém sofreu duramente com a filoxera na segunda metade do século XIX. Voltou a se recuperar no início do século seguinte e a denominação de origem Fixin foi reconhecida por decreto em dezembro de 1936. Já em 1943, houve a divulgação da lista de climats que poderiam se beneficiar da designação Premier Cru.
Localização e terroir
A denominação de origem Fixin se estende por dois communes diferentes: Fixin e Brochon. Porém, a quase totalidade da área (99%) fica em Fixin, já que apenas uma pequena parcela do vinhedo Premier Cru Queue de Hareng fica em Brochon (vide mapa abaixo). Vale lembrar que os demais vinhedos de Brochon fazem parte da denominação de origem Gevrey-Chambertin. No total, a área demarcada atinge cerca de 125 hectares (123,5 ha em Fixin), com aproximadamente 96 hectares de vinhedos.

De forma geral, a geologia de Fixin se assemelha àquela de Gevrey-Chambertin. Boa parte do solo em Fixin tem alta proporção de calcário da era Bajociana com uma mistura de cascalho calcário e lavagem de declive na superfície. Porém, há também uma faixa de calcário da era Bathoniana, mais argiloso e pedregoso no Premier Cru Clos du Chapître, o que provavelmente contribui para a natureza mais robusta dos vinhos deste climat. O solo é mais pedregoso e a encosta é mais íngreme na seção Premier Cru na parte sudoeste do vilarejo. Fixin raramente sofre com granizo e fica em um local protegido devido à encosta e presença de uma área florestal que ocupa sua linha de cume a oeste.
Área plantada e produção
A área de vinhedos atingia 101,5 hectares em 2018, com aqueles dedicados à produção de vinhos tintos respondendo pela maioria (96 hectares, ou 95% do total). Destes, 79 hectares (82%) tinham classificação Village, com os demais 17 hectares (18%) sendo Premier Cru. Para as uvas brancas eram apenas 5,3 hectares (5%), dos quais 4,5 hectares Village e 0,8 hectare Premier Cru. A título de comparação, em termos de área plantada é a segunda menor denominação de origem da Côte de Nuits, somente à frente de Vougeot.
Em relação ao volume, a produção atingiu 4.031 hectolitros na média entre 2014 e 2019, o que correspondia a cerca de 536 mil garrafas ao ano. Os vinhos tintos respondiam por 95% da produção total (dos quais 17% Premier Cru), com o restante em vinhos brancos (10% destes sendo Premier Cru). Esta produção correspondia a aproximadamente 6% do volume da Côte de Nuits.
Vinhedos
Fixin conta atualmente com seis climats classificados como Premier Cru, dos quais três são monopoles e três possuem diversos donos. Clos de la Perrière, com cerca de 6,7 hectares e posse da família Joliet, possui três lieux-dits diferentes: La Perrière (4,9 ha), En Suchot (0,2 ha) e Queue de Hareng (1,6 ha), este último localizado em Brochon. Este vinhedo quase recebeu classificação Grand Cru no século XIX e hoje os vinhos tintos dominam, com pequena proporção de brancos.
Os outros dois monopoles são Clos du Chapître (4,8 ha, de posse da Domaine Guy & Yvan Dufouleur) e Clos Napoléon (desde 1955 nas mãos da família de Pierre Gelin, gerando vinhos intensos e encorpados a partir de 1,8 hectare de vinhas). Já entre Arvelets, Les Meix Bas e Hervelets, o último é o mais comum, com um estilo mais delicado e que dá origem a vinhos mais acessíveis quando jovens. Dentre os vinhedos Village, os principais destaques são En Combe Roy, Les Clos e Les Crais.

Vinhos e principais produtores
Até por conta de sua pequena produção e amplo consumo local, os vinhos de Fixin são menos conhecidos no exterior. Seus tintos, em geral, mostram um estilo próximo àqueles de Gevrey-Chambertin. Mostram coloração mais intensa e profunda, com olfativo marcado por aromas florais (sobretudo violeta), frutas vermelhas e negras, almíscar e pimenta. São vinhos mais tânicos e um pouco duros na juventude, mas que evoluem muito bem, com boa estrutura. Há quem destaque um ligeiro toque “selvagem”, mais para o lado animal, nestes vinhos.
É uma denominação de origem que concentra poucos produtores, resultado também de sua pequena dimensão. Uma das principais referências é a Domaine Berthaut-Gerbet, com presença tanto nos principais vinhedos locais quanto em outras partes da Côte de Nuits. Outros nomes de destaque são Domaine Pierre Gelin, René Bouvier e Domaine Joliet.
Fontes: Vins de Bourgogne; Wine Scholar Guild; Inside Burgundy, Jasper Morris; Cahier des Charges de L’Appellation d’Origine Contrôlée Fixin;
Mapa: Vins de Bourgogne
Imagens: Arquivo pessoal