Durante boa parte do mês de abril, as atenções do mundo do vinho se voltaram à Europa, sobretudo à França. As fortes geadas que atingiram os vinhedos, concentradas na primeira metade do mês, levaram muitos produtores quase ao desespero, por conta de sua severidade. Mas qual é o efeito que este fenômeno meteorológico terá sobre a safra 2021?
Nesta semana a FranceAgriMer, agência governamental que supervisiona o setor agrícola, divulgou suas primeiras estimativas sobre as consequências desta geada, chamada pelos franceses de Gelée Noir (geada negra). E a perspectiva é desoladora. A colheita francesa pode ser cerca de 28-30% menor que a média dos últimos cinco anos, devido aos graves danos causados pela geada.
Forte queda na produção e perdas financeiras
A produção de vinhos deve cair em cerca de 12,5 a 15 milhões de hectolitros, para 32 milhões de hectolitros, contra uma média de 44,5 milhões de hectolitros entre 2106 e 2020. Neste período o pior ano foi o de 2017 (37,6 milhões de hectolitros), justamente por conta de outra geada. Em 2020, por outro lado, as condições foram muito favoráveis e a produção atingiu 46,7 milhões de hectolitros.
As perdas financeiras também são significativas. A estimativa é de uma queda de receita em até 2 bilhões de euros, lembrando que o governo francês já anunciou, logo após ter ciência da gravidade do problema, 1 bilhão de euros em apoio à indústria vinícola.
Perda de posição e impacto por região
Caso estes dados se confirmem, a França possivelmente perderá a posição de segundo maior produtor de vinhos no mundo. A Espanha, que completou a lista dos três maiores produtores junto com Itália e França, produziu 40,7 milhões de hectolitros em 2020. E ela sofreu danos significativamente menores com a geada deste ano, que não ficou restrita aos vinhedos franceses.
Na França, as regiões vinícolas mais afetadas incluíram a Borgonha, com perda média estimada inicialmente em torno de 50%. Algumas sub-regiões dentro da Borgonha devem mostrar perdas ainda mais significativas, como Chablis. Não foram poucos os produtores desta área, conhecida pelos seus Chardonnay de alta mineralidade, que reportaram perdas entre 80% e 100% em alguns vinhedos.
Mas o impacto não ficou restrito somente à Borgonha, com estimativas indicando a quebra de 40% da safra no Languedoc e de cerca de 30% na Aquitaine, que inclui a região de Bordeaux. E tão pouco restrita somente à viticultura, pois pomares de frutas e campos de beterraba também sofreram danos extensos.
Pior geada já documentada
Neste último mês de abril a França passou por sua pior geada desde, pelo menos, 1947. Foi uma geada intensa e devastadora, tanto por sua duração quanto por sua extensão geográfica. E a referência a 1947 não se deve a este ter sido um ano ruim, mas porque marca o início da série de dados com informações mais detalhadas sobre temperaturas.
Entre 6 a 8 de abril de 2021, os dados mostram que 98% do território francês foi afetado pela geada. Este é o maior percentual da série histórica, batendo o período entre 21-22 abril de 1991, quando 90% do país foi atingido. A situação foi ainda mais séria por conta das altas e surpreendentes temperaturas nas semanas anteriores, que aceleraram o processo de brotação das videiras.
Fontes: FranceAgriMer; Meiningers Wine Business; The Watchers; Burgundy Report; Forbes
Imagem: Jorge Guillen via Pixabay