Gouais Blanc: uva quase extinta, mas com um legado genético invejável

Qual a uva mais importante do mundo? Esta pergunta pode ter múltiplas respostas, dependendo do critério adotado. Seria a Cabernet Sauvignon, a uva com maior área plantada no planeta? Ou a Pinot Noir, que dá origem aos vinhos mais caros e disputados por amadores e profissionais? Já para quem analisa a contribuição que cada variedade trouxe à vinicultura mundial, a resposta pode ser outra. O destaque, porém, fica para uma uva que, ao contrário das citadas anteriormente, está muito longe dos holofotes.

Riesling, Chardonnay, Gamay e Aligoté são apenas quatro das 84 descendentes diretas da Gouais Blanc. Esta variedade, hoje quase extinta, respondeu por parte importante dos vinhedos europeus na Idade Média e deixou um enorme legado genético. Apelidada de “Casanova do mundo das uvas”, deu origem a diversas das variedades mais plantadas não somente na Europa, mas também em todo o mundo.

Origens

Não se sabe ao certo a origem da Gouais Blanc. As maiores suspeitas recaem sobre o leste da Europa, até levando em consideração um de seus nomes alternativos mais comuns, Heunisch Weiss. Se a Pinot Noir, cultivada ao menos desde a Idade Média, representaria a uva dos francos (que dominaram parte da Europa Ocidental após a queda do Império Romano), a Heunisch Weiss seria ligada com os hunos, que focaram suas conquistas no leste do continente.

De qualquer forma, há registros que indicam que a Gouais Blanc tinha amplo cultivo na Idade Média em boa parte da Europa, inclusive no que viria a ser a França. Por conta de sua alta produtividade, era considerada como a uva dos camponeses, ao contrário da Pinot Noir, favorita de quem focava mais na qualidade.

Dentro deste contexto, a Gouais Blanc chegou a ser até “perseguida”. Fontes da época colocam que ela era “uma variedade considerada tão medíocre que foi proibida (sem sucesso) em vários momentos em pelo menos duas regiões francesas”. Até mesmo o nome Gouais, que deriva do antigo adjetivo francês gou, é um termo depreciativo.

Virtual desaparecimento

Se durante a Idade Média ela resistiu bravamente aos seus críticos, o mesmo não pode ser dito nos últimos 200 anos. De uma variedade com enorme área plantada, a Gouais Blanc praticamente desapareceu dos vinhedos europeus, sobretudo após a chegada da filoxera. Mas, paradoxalmente, encontrou em outro continente um local de refúgio.

Em 1999, Bill Chambers, quinta geração de uma família australiana com longa tradição na viticultura, estava prestes a tomar uma decisão que parecia racional. Ele iria arrancar algumas vinhas centenárias de sua propriedade, localizada em Rutherglen, região vinícola a cerca de 250 quilômetros de Melbourne. As videiras eram de uma uva obscura, a Gouais Blanc.

Ciente de que algum tempo antes um estudo publicado pela geneticista norte-americana Carole Meredith havia identificado esta uva como “mãe” da Chardonnay, ele decidiu contatar a professora da Universidade da California. Meredith convenceu Chambers a manter as videiras, preservando um dos poucos vinhedos de Gouais Blanc de uso comercial em todo o mundo.

Enorme legado

Se a trajetória da Gouais Blanc é repleta de altos e baixos, o mesmo não se pode dizer de seu legado. Ela é uma das uvas que mais contribuíram para o patrimônio genético da viticultura mundial. Um exemplo é o seu relacionamento mais do que produtivo com a Pinot Noir. São 21 variedades diferentes resultantes de cruzamentos diretos entre estas duas uvas. Chardonnay, Aligoté, Melon de Bourgogne, Gamay, Romorantin, Sacy e Auxerois são apenas algumas delas.

Mas a Gouais Blanc não deixou descendentes apenas na França. Variedades símbolo de outros países europeus, como Riesling (Alemanha), Blaufränkish (Áustria), Furmint (Hungria) e Xinomavro (Grécia), assim como outras uvas como Ribolla Gialla, Folle Blanche, Jacquère e Elbling também tiveram origem na incansável Gouais Blanc.  No total, são ao menos 84 descendentes diretos mapeados e comprovados geneticamente.

Características e vinhos

Mas quais são as características da Gouais Blanc que a torna uma uva tão particular? Ela é muito produtiva e mostra boa resistência ao frio do inverno, uma enorme vantagem na Idade Média. Porém, é muito sensível a doenças fúngicas, particularmente à podridão cinzenta. Seus cachos são médios a longos e bastante compactos, com grãos de tamanho médio e casca fina.

O geneticista suíço José Vouillamoz, envolvido diretamente com os esforços de preservação desta variedade, traz uma definição no mínimo divertida sobre os vinhos elaborados a partir da Gouais Blanc. São vinhos poucos aromáticos e de baixo teor alcóolico, mas com acidez intensa e desequilibrada. “Costumávamos dizer … que são necessárias três pessoas para consumir Gouais Blanc: uma bebendo e duas outras segurando o degustador, para evitar que ele caia,”

Piadas à parte, Vouillamoz acredita que o segredo desta variedade está no controle de rendimentos. “Com rendimentos menores por conta de podas adequadas e colheita verde, os vinhos são delicadamente perfumados com aromas de maçã verde, flor de pêra e limão. A estrutura é bastante leve, com um final agradável e cítrico.”

Área plantada e nomes alternativos

Não existem estatísticas confiáveis para a área plantada de Gouais Blanc ao redor do mundo. As poucas parcelas na Europa dividem-se em países como França e Suíça, com pequenos trechos em outros países. Há registros também de vinhedos de uso comercial na Austrália e nos Estados Unidos, mais especificamente no Willamette Valey, no Oregon.

Se falta área plantada, não há escassez de nomes alternativos para esta variedade. Por conta de sua presença no passado em diversas áreas da Europa, possui uma enorme quantidade de menções além dos dois nomes mais usados: Gouais Blanc e Heunisch Weiss. Os demais nomes, segundo o catálogo da Universidade da California – Davis, são: Absenger, Baii blanc, Bauernweinbeer, Bauernweinbeere weiss, Bauernweintraube, Belina, Belina Debela, Belina Drobna, Best’s No.4, Blanc de Serres, Blancio, Boarde, Bogatyur, Bon blanc, Bordenauer, Borzenauer, Bouillan, Bouillaud, Bouilleaud, Bouillen, Bouillenc, Bourgeois, Bourguignon, Branestraube, Branne, Burgegger weiss, Burger, Cagnas, Cagnou, Champagner Langstielig, Colle, Coulis, Dickweisser, Dickwiss, Enfarine blanc, Esslinger, Figuier, Foirard blanc, Frankenthaler, Gau, Gauche blanc, Geuche blanc, Goe, Goet, Gohet, Goi, Goin, Goix, Got, Gouai, Gouais Jaune, Gouais Long, Gouais Rond, Gouas, Gouaulx, Gouay, Gouche, Gouche blanche, Goue, Gouest, Gouest Sauge, Gouet blanc, Gouette, Gouge, Gouget blanc, Gouillaud, Gouis de Mardeuil, Gousse, Grauhuensch, Grobe, Grobes, Grobheunisch, Grobweine, Grobweisse, Gros blanc, Gruenling, Guay Jaune, Gueche blanc, Guest Salviatum, Gueuche blanc, Guillan, Guinlan, Guy, Guy blanc, Gwaess, Harthuensch, Hartuensch, Heinisch, Heinish, Heinsch, Heinschen weiss, Hennische weiss, Hensch, Heunisch, Heunisch blanc, Heunisch weisser, Heunischtraube, Heunish weiss, Heunsch, Heunscher, Heunschler, Heunschlir, Hinschen, Hinschene, Hintsch, Huensch, Huenschene, Huentsch, Hunnentraube, Hunsch, Hunschrebe, Huntsch, Hyntsch, Issal, Issol, Kleinbeer, Kleinberger, Laxiertraube, Liseiret, Lisoera, Lombard blanc, Luxiertraube, Mehlweisse, Mehlweisse Gruen, Mendic, Moreau blanc, Mouillet, Nargouet, Pendrillart blanc, Perveiral, Perveiral bianco, Petit Gouge, Pichons, Plant de Sechex, Plant Madame, Plant Seche, President, Preveiral, Preveiral blanco, Proveiral, Pruvera, Regalaboue, Riesling Grob, Rous Hette, Roussaou blanc, Rudeca Belina, Saboule Boey, Sadoulo Bouyer, Seestock Grob, Stajerska Belina, Tejer Szozeloe, Thalburger, Trompe Bouvier, Trompe Valet, Verdet, Verdin blanc, Vionnier, Weisse Traube, Weisser Heunisch, Weissgrobe, Weissheinsch, Wiessstock, Weisstock, Wippacher e Zoeld Hajnos.

Fontes: Foundation Plants Services Grapes, UC Davis; Plant Grape; Wine Enthusiast; The Vintner Project; Wine Grapes: Uncovering Origin and Family Ties, José Vouillamoz

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