Histórias do vinho: o rei que odiava Gamay e mudou a viticultura da Borgonha

Quem gosta de Pinot Noir da Borgonha pode colocar uma data importante na sua agenda: 31 de julho de 1395. Foi quando Felipe, o Temerário, Duque da Borgonha, decidiu, entre outras medidas, ordenar a remoção de todos os vinhedos da uva Gamay do território sob seu controle. E isso teria um impacto decisivo sobre o futuro da região. A partir desta data, a Pinot Noir passou a reinar quase que sozinha como a uva tinta da Borgonha.

Na época, a Borgonha era independente da França, e por conta do casamento de Filipe com a Duquesa de Flandres, controlava também diversos territórios, inclusive uma parte significativa da atual Holanda. E foi neste reino poderoso que o soberano, envolvido em diversos conflitos políticos, decidiu escolher um inimigo incomum: a uva Gamay.

Objetivo: recuperar a região

Em meados da década de 1390, a arrecadação real com tributos sobre o vinho vinha caindo, tanto como resultado de uma menor produção, como da perda de importantes mercados externos. E para o Duque, a culpada era a uva que ela chamou de “muito ruim e desleal”. Mas o que a Gamay teria a ver com isso tudo?

Para o Duque, a Gamay seria responsável pela menor arrecadação e perda dos mercados externos. Ela passou a ganhar maior participação nos vinhedos a partir de meados do século, sobretudo por ser uma uva mais produtiva e mais fácil de ser cultivada que a Pinot Noir. O rendimento da Gamay é cerca de três vezes superior ao da Pinot Noir e ela amadurece cerca de duas semanas antes, ou seja, há um menor risco de perda da colheita.

Mas a decisão de mandar arrancar todas as videiras de Gamay não foi a única tomada naquele dia: o Duque também proibiu o uso de fertilizantes orgânicos nas videiras, decidiu combater o abandono de bons vinhedos e proibir o uso de água quente no mosto, tudo isso em nome de um objetivo. A proposta era melhorar o vinho local, que seria sujeito ao que ele chamava de fraude.

Reações contrárias

Porém, as reações às decisões do Duque mostram que o assunto estava longe de ser um consenso. O conselho municipal de Dijon reagiu negativamente, e anunciou em 9 de agosto que o decreto seria uma violação de seus privilégios. Assim, proibiu a publicação e implementação das decisões de Felipe. A reação do Duque foi à altura: indicou um interventor para tomar o poder em Dijon, mandando o prefeito para a prisão.

A expectativa era que estas medidas recuperassem a viticultura local, mas isso não aconteceu. Ao contrário, elas acabaram transformando o que era uma recessão em uma depressão. Foi uma pá de cal que acabou resultando em colheitas menores, que foi minando o poder dos Duques, até a incorporação formal da região pela França, em 1477.

O que realmente aconteceu

As medidas de Felipe falharam, pois não atacaram as raízes da crise, apenas um de seus sintomas. A real causa da crise que a viticultura da Borgonha sofria na época não era a Gamay ou o uso de fertilizantes orgânicos. O problema maior era o impacto da Peste Negra, que reduziu de forma significativa a população local e levou ao abandono de muitos vinhedos.

A Peste Negra atingiu a região em 1348-1356 e voltou a atacar intermitentemente em 1360-63 e 1374. Na verdade, a maior popularização da Gamay e o uso de fertilizantes eram reações à forte queda na oferta de mão de obra. Os viticultores tentavam garantir uma produção maior, com o plantio de uma uva mais produtiva e de menor risco.

Efeitos de curto e longo prazo

Por conta disso, o impacto das medidas do Duque da Borgonha foi decisivo para o futuro. No curto prazo, levou a região à depressão, pois eliminou a única alternativa que os agricultores tinham encontrado para aumentar a produção. Os efeitos de longo prazo, porém, foram bastante distintos.

Embora não tenha conseguido eliminar a Gamay na Borgonha (novas legislações anti-Gamay foram anunciadas em 1567, 1725 e 1731), ela foi decisiva para mudar os rumos da viticultura na região. Apesar dos menores níveis de produção, ajudou a garantir a melhora na qualidade dos vinhos, que passaram a contar com a Pinot Noir como uva principal.

À Gamay restou a busca por novas regiões, mais distantes do pequeno povoado de mesmo nome, parte de Saint-Aubin, de onde acreditam ter se originado. A solução foi migrar para o sul, fora da área dos Duques da Borgonha, no Beaujolais. E de lá, livre das perseguições políticas, prosperou e hoje é a uva principal desta região, que, assim como a Borgonha, encanta a quem gosta de vinhos leves e delicados.

Fontes: The “Disloyal” Grape: The Agrarian Crisis of Late Fourteenth-Century Burgundy, Rosalind Kent Berlow; The Drinks Business

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