Antes de mais nada, preciso começar declarando meu amor incondicional pelo vinho de Jerez. E não é disso que se trata essa coluna. Mas o bom senso sugere não ser saudável brigar com os fatos. E os dados são inegáveis. Trata-se de um estilo de vinho que já viveu tempos mais auspiciosos. Basta citar que em 2022, o volume vendido de Jerez representou apenas 25% do mesmo período em 1983. Na coluna de outubro de 2021, aqui no WineFun, essa história foi contada em detalhe
De 4 a 10 de novembro, será celebrada a Sherry Week 2024, a semana internacional do Jerez. Criada em 2014, essa iniciativa do Consejo Regulador do Jerez busca recuperar parte do volume perdido ao longo dos anos. Durante a semana, seremos agraciados com uma série de eventos, como jantares, degustações e outras atividades, todas voltadas para a promoção e divulgação do Jerez. Mas como se posiciona a indústria do Jerez nos dias de hoje ?
Distribuição geográfica do consumo do Jerez
Em 2022, 90% do consumo de Jerez concentrou-se no Reino Unido, Espanha, Holanda e Alemanha. Em 1983, quando o volume atingiu seu pico, o Reino Unido respondia sozinho por aproximadamente 85% do consumo. Como destacado na coluna de outubro de 2021, a queda de Jerez esteve diretamente ligada ao Reino Unido, especialmente ao estilo Cream, uma das variantes doces de Jerez.
A queda do Jerez foi mais acentuada do que a de outros vinhos doces, como o Porto, Banyuls e Madeira. Essa redução foi agravada por dificuldades financeiras de um grande produtor da região e por uma mudança nos hábitos de consumo que penalizou os vinhos doces.
Já os estilos secos de Jerez – Fino, Manzanilla, Oloroso, Amontillado e Palo Cortado – mantiveram o volume de 1983 com apenas uma leve queda, bem menor que a dos estilos doces. Mesmo assim, a imagem do Jerez hoje é envelhecida e pouco atraente.
Tempos de mudança
A denominação de origem Jerez entrou no século XXI tentando se recuperar de uma crise sem precedentes em seus quase 3.000 anos de história. Na busca por sobreviver, o setor passou por um período de reestruturação entre 1990 e 2010. A reconstrução tem sido lenta e dolorosa. Ainda hoje, quem visita Jerez de la Frontera encontra antigas bodegas abandonadas, muitas com avisos de falência nas portas, como determina a legislação de falência da Espanha. Inclusive com preço de aquisição para eventuais interessados.
A Sherry Week foi uma das primeiras ações em busca de uma nova era para o Jerez. Outras iniciativas estão em andamento, algumas delas questionando pilares tradicionais do Jerez, o que tem deixado puristas e aficionados “de cabelo em pé”.
El Marco de Jerez e as armadilhas da reserva de mercado
Sou daqueles que acreditam que reservas de mercado raramente funcionam bem. Nos anos 1930, a DO Jerez definiu a zona de produção, que engloba o triângulo formado pelos municípios Jerez de la Frontera, Sanlúcar de Barrameda e El Puerto de Santa María, além de outras localidades próximas como Chiclana, Chipiona, Puerta Real, Rota, Trebujena e Lebrija
Por trás dessa definição, houve uma disputa de interesses, na qual Jerez de la Frontera, a cidade mais poderosa da região, saiu vitoriosa. Sanlúcar de Barrameda foi “trazida para o jogo” com a concessão de um nome específico para seu Fino: Manzanilla. Embora haja diferenças sutis entre o terroir do Fino e da Manzanilla, o processo de produção é o mesmo e poucos especialistas conseguem distinguir entre eles com precisão.
Outro município, Montilla-Moriles, que foi o tema da coluna de novembro de 2023 — ficou de fora da DO Jerez. Ironia, pois a DO Jerez permite o uso de uvas Pedro Ximenez dessa região, já que sua própria produção é insuficiente.
Esse tipo de regulamentação é também observado em outras denominações de origem. Mas ao compararmos da DO do Jerez com Champagne, notamos enormes diferenças. Na região de Champagne a zona de produção demarcada é, verdadeiramente, diferente das regiões limítrofes. E superior. Em Champagne parece que o terroir foi o grande fator de delimitação da área. Em Jerez não. Regiões próximas de Jerez são capazes de produzir vinhos muito parecidos, quando não melhores.
Em Champagne as regras de produção são rígidas, mas permitem algumas nuances que são devidamente comunicadas ao consumidor. Em Jerez não. Em Champagne o Non Vintage pode ser rotulado com várias dosagens de açúcar (Brut, Extra Brut, etc). Já o Fino de Jerez é um só. O problema disso é que, recentemente, outras regiões, dentro e fora da Espanha, passaram a produzir vinhos “a la Jerez” sem obviamente usar esse nome. O enorme potencial gastronômico do Jerez passou a ser explorado, especialmente em restaurantes sofisticados e seus menus harmonizados, usando vinho produzidos pelo método de Jerez, porém com menos tempo de contato com a flor de levedura.
Por conta disso, a DO Jerez vem flexibilizando suas regras. O Fino não fortificado, mas com passagem pela Flor é uma tentativa de capturar essa tendência. Junto com isso, Fino e Manzanilla com mais tempo de envelhecimento também foram autorizados. A Manzanilla Pasada e o Fino Antiguo se enquadram nesse movimento de buscar se enquadrar em novas oportunidade de demanda. Mesmo que regras definidas no século passado tenham que ser revistas.
O colunista da Decanter Magazine, Andrew Jefford, em sua coluna de setembro de 2024, relata a surpresa ao adquirir uma garrafa de Manzanilla, em Jerez de Fronteira, com uma coloração e sabores muito diferentes do que ele já tinha provada. E estamos falando de um degustador experimentado e que dispensa apresentações. Sem entrar no mérito de que se as mudanças foram boas ou ruim, o risco da perda de identidade é algo a ser levado em conta num processo de transformação.
O fascinante e sedutor mercado da Coquetelaria
Indústrias que buscam aumentar o volume de vendas geralmente exploram novas ocasiões de consumo. Na França, o vinho rosé tem crescido, e estima-se que 20% dele seja usado em coquetéis. A França é também o maior importador de vinho do Porto em volume, embora boa parte seja para culinária. Com o crescimento da coquetelaria nos últimos anos, a DO Jerez vê nela uma grande oportunidade.
Harmonização de Jerez com comida
Além da Sherry Week, a Copa Jerez é outro evento de sucesso da DO, onde chefs competem pela melhor harmonização de pratos com Jerez. Esse evento ajuda a construir uma imagem premium do Jerez, associando-o a pratos sofisticados, distantes das “comidas de boteco” dos tapas. Restaurantes renomados, como o El Celler de Can Roca, ao valorizarem o Jerez em suas harmonizações contribuem para a construção da imagem “premium”, tão desejada pelos produtores e lideranças da DO.
O que falta para o dinossauro voltar a brilhar
Atuar em um setor maduro e em declínio não é fácil. Nos mercados que consomem mais de 90% do Jerez, a base de consumidores está envelhecendo. Vinhos doces e de alto teor alcoólico enfrentam dificuldades em um momento em que o consumo calórico é restrito. Além disso, em um mercado de constante inovação, é difícil para um estilo associado ao passado se reinventar.
Apesar dos esforços, Jerez ainda não conseguiu conquistar o público jovem, que representa a maior fonte de crescimento. A coquetelaria pode ajudar, mas em um papel secundário. As mudanças são importantes, mas a experiência de Andrew Jefford ilustra o risco da perda de identidade. Não será fácil para o “dinossauro” recuperar o tempo perdido. Contudo, os primeiros passos foram dados, e a jornada promete ser longa.
Renato Nahas é um grande apreciador de vinhos que adora se aprofundar no tema. Concluiu as certificações de Bourgogne Master Level da WSG, e também de Bordeaux ML. É formador com homologação pelo Consejo Regulador de Jerez e Italian Wine Specialist – IWS e Spanish Wine Specialist – SWS.. Sommelier formado pela ABS-SP, possui também as seguintes certificações: WSET3, FWS e CWS, este último pela Society Wine Educators.
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Fotos: Renato Nahas, arquivo pessoal; Consejo Regulador de Jerez