A Nebbiolo é, sem dúvida, a grande protagonista da vinicultura do Piemonte. Seu prestígio deve-se, em grande parte, a denominações de origem como Barolo e Barbaresco. Ambas consagraram esta uva como origem de alguns dos grandes vinhos tintos do mundo. No entanto, existem outras expressões igualmente relevantes desta casta. Elas podem representar excelentes pontos de entrada para quem quer conhecer mais de perto esta variedade fascinante.
É o caso de duas denominações de origem, ambas localizadas no Piemonte: Langhe Nebbiolo e Nebbiolo d’Alba. A primeira é mais ampla geograficamente, cobrindo também áreas que fazem parte de Barolo e Barbaresco, sendo muito mais flexível. A segunda, que inclui algumas da área da anterior (como pode ser visto nos mapas a seguir) tem regulamentação mais estrita, traz uma expressão da Nebbiolo mais tradicional.
Langhe DOC: a denominação guarda-chuva
A denominação Langhe DOC, criada oficialmente em 1994, nasceu com a proposta de reunir sob um mesmo guarda-chuva diversas expressões vitivinícolas do território de Langhe. Trata-se de uma denominação de origem regional, ampla em extensão e flexível em regulamentação, que permite a elaboração de vinhos a partir de diferentes uvas. A grande maioria dos vinhos, porém, é monovarietal (existem exceções como Langhe Rosso). No rótulo, além da expressão Langhe, deve constar também o nome da uva.

É uma denominação com múltiplas tipologias e variedades. Além da Nebbiolo, pode haver uso de variedades locais como Barbera, Dolcetto, Favorita, Freisa, Arneis, Nascetta e Rossese Bianco. Além disso, permite também o uso de cepas internacionais, como Chardonnay, Sauvignon Blanc, Riesling, Cabernet Sauvignon, Merlot e Pinot Noir. Dentro desse mosaico de tipologias, porém, Langhe Nebbiolo ocupa uma posição especial, ao oferecer uma alternativa mais acessível e versátil às expressões mais consagradas da casta.
Langhe Nebbiolo e sua regulamentação
As uvas para a elaboração de Langhe Nebbiolo podem ter origem em até noventa e cinco municípios da província de Cuneo, abrangendo tanto áreas dentro das zonas clássicas de Barolo e Barbaresco quanto localidades do Roero e de outras colinas piemontesas. Essa abrangência geográfica o diferencia de outras denominações mais restritivas e confere aos produtores liberdade para definir o estilo, a origem e o destino de cada lote de uva.
Em termos de regulamentação, os vinhos devem conter ao menos 85% de Nebbiolo, embora a maioria dos produtores utilize 100%. A altitude dos vinhedos não pode ultrapassar 800 metros e não há exigência de envelhecimento mínimo (como ocorre em Barolo e Barbaresco), o que abre espaço para estilos mais frescos, prontos para consumo mais rápido.
A vinificação deve ocorrer dentro da área delimitada da denominação, respeitando os rendimentos máximos que, de acordo com a tipologia, variam de nove a onze toneladas por hectare. A densidade mínima de plantio é de 3.500 plantas por hectare, e o rendimento em vinho não deve ultrapassar 70% do total de uvas vinificadas.
Estilos e características dos Langhe Nebbiolo
Na prática, muitos vinhos rotulados como Langhe Nebbiolo provêm de vinhedos jovens localizados dentro da zona de Barolo, de lotes que não foram selecionados para o corte final de um Barolo ou Barbaresco, ou ainda de parcelas situadas fora das MGAs oficialmente reconhecidas. Por esses motivos, há quem chama os Langhe Nebbiolo de “Baby Barolo”. Trata-se de uma categoria que traz mais flexibilidade aos produtores, que podem expressar sua filosofia ou estética. Foi por alguns anos o caso de Angelo Gaja, que por várias safras, rotulou seu Sori San Lorenzo como Langhe Nebbiolo, embora na prática as uvas fossem provenientes de vinhedos classificados como Barbaresco.
Sensorialmente, o Langhe Nebbiolo geralmente traz os aromas florais típicos da casta (rosa e violeta seca), além de frutas vermelhas, especiarias, tabaco e toques terrosos. Os taninos tendem a ser mais polidos do que em um Barolo, com corpo médio e alta acidez. Em geral, até por serem mais receptivos e de consumo mais rápido, representam uma espécie de cartão de visita para muitos produtores.
Nebbiolo d’Alba: além de Barolo e Barbaresco
Mais tradicional, a denominação de origem Nebbiolo d’Alba surgiu em 1970 e sofreu sucessivas revisões e atualizações, a mais recente delas em 2014. Sua criação teve entre seus objetivos valorizar a qualidade do Nebbiolo cultivado fora de Barolo e Barbaresco, em especial na região de Roero e no entorno de Alba. A área autorizada para sua produção compreende trinta e dois municípios da província de Cuneo. São eles: as áreas integrais de Canale, Castellinaldo, Corneliano d’Alba, Monticello d’Alba, Piobesi d’Alba, Priocca, Santa Vittoria d’Alba, Vezza d’Alba, Sinio e Govone, além de partes de Alba, Bra, Diano d’Alba, Grinzane Cavour, La Morra, Monforte d’Alba, Novello, Roddi, Roddino, Verduno, entre outros.

Embora não tenha a flexibilidade da Langhe DOC (até por considerar somente a Nebbiolo), reconhece quatro tipologias específicas. A mais comum é Nebbiolo d’Alba, mas destaque também para Nebbiolo d’Alba Superiore (mínimo de 18 meses de envelhecimento, dos quais ao menos seis em madeira), Nebbiolo d’Alba Spumante e Nebbiolo d’Alba Spumante Rosé. Em todas as tipologias, é obrigatória a utilização de 100% de uvas Nebbiolo. A densidade mínima de plantio é igual à da Langhe DOC, com 3.500 plantas por hectare, e os vinhedos devem ter altitude máxima de 650 metros em relação ao nível do mar. Assim como nas denominações Barolo e Barbaresco, é vetado o plantio em encostas voltadas diretamente ao norte, algo permitido na Langhe DOC.
Duas alternativas para conhecer a Nebbiolo
Por que explorar estas duas alternativas para a uva Nebbiolo? Em primeiro lugar, a questão de diversidade. Langhe Nebbiolo e Nebbiolo d’Alba representam, juntas, duas excelentes opções para explorar diferentes expressões fora das rígidas exigências das DOCG Barolo e Barbaresco. A primeira é mais ampla e flexível, quase sempre resultando nos Nebbiolos ”de entrada” de produtores consagrados. A segunda, mais regulada, traz a possibilidade de conhecer vinhos com esta variedade de áreas que estão fora das DOCGs, mas com muita tipicidade.
Outra questão diz respeito à variável preços. Barolo e Barbaresco viram uma forte valorização nas últimas décadas, de forma que tanto Langhe Nebbiolo como Nebbiolo d’Alba representam excelentes alternativas do ponto de vista de custo. Por fim, sobretudo quando falamos de Langhe Nebbiolo são vinhos, em geral, mais “prontos” para consumo rápido, sem abrir mão das qualidades da uva Nebbiolo.
Fontes: Consorzio di Tutela Barolo Barbaresco Alba Langhe e Dogliani; Barolo and Barbaresco: The King and Queen of Italian Wine, Kerin O’Keefe; Barolo MGA; Entrevistas com produtores
Imagem: Arquivo pessoal