Limoux: pioneirismo na produção de espumantes

Limoux não é o primeiro nome que vem à cabeça quando se pensa em vinhos espumantes franceses. Porém, foi exatamente nesta região do sul da França que os espumantes usando o método tradicional foram criados, cerca de 100 anos antes mesmo do que em Champagne. Foram os monges beneditinos da Abadia de Saint-Hilaire que desenvolveram, no século XVI, a técnica de fermentação secundária em garrafa, pré-requisito para a elaboração de vinhos espumantes de alta gama.

Mesmo quase 500 anos depois, os espumantes ocupam um espaço significativo em Limoux. Esta região, que fica a sudoeste da espetacular cidade medieval de Carcassone, conta atualmente com cinco denominações de origem distintas. Três delas tem dedicação integral aos espumantes. Além dos vinhos tranquilos da Limoux Rouge AOC e da Limoux Blanc AOC, o destaque fica com as denominações de origem Blanquette de Limoux, Limoux Méthode Ancestrale e Crémant de Limoux, onde os espumantes reinam soberanos.

Longa história

Citado nos escritos do historiador Tito Lívio desde os tempos do Império Romano, o cultivo da videira foi por muito tempo uma cultura secundária em Limoux e arredores. Na época, o foco principal era o cultivo de cereais. Isso, porém, viria a mudar na Idade Média com a chegada das ordens religiosas. Já no século XIV seus vinhos contavam com excelente reputação, como registrado nas crônicas de Froissart. Ele escreveu sobre as qualidades do que chamou de “deliciosas beuveries de vin blanc Limouxin“.

O trabalho dos monges teria levado à criação dos primeiros espumantes com segunda fermentação em garrafa, em 1531. Portanto, ao se falar em método tradicional, Champagne não seria a pioneira. Apesar da descoberta, os vinhedos de Limoux não mostraram forte crescimento até o século XIX, quando se espalharam pelas encostas do vale de Aude e seus afluentes. Como em toda a França, porém, a chegada da filoxera na segunda metade do século impactou os vinhedos, com forte queda da produção.

Todavia, a tradição foi mantida. Em 1938 houve o reconhecimento das denominações de origem Blanquette de Limoux e Limoux Méthode Ancestrale, com foco em espumantes elaborados sobretudo a partir da uva branca autóctone Mauzac. O que muda, como os nomes indicam, é o método de elaboração: de um lado o método tradicional, de outro o ancestral. Já em 1959 foi a vez da denominação de origem AOC Limoux Blanc, seguida por AOC Crémant de Limoux (1990) e AOC Limoux Rouge (2004).

Localização e terroir

Localizados a cerca de vinte quilômetros ao sul de Carcassonne, os cerca de 7.800 hectares de vinhedos de Limoux contam com diversas influências. É a parte mais a sudoeste da região vinícola de Languedoc, na rota para os Pirineus. Conta com clima mediterrâneo, mas com dois fatores que amenizam o calor desta região. De um lado, a altitude, com vinhedos entre 200 e 450 metros acima do nível, de outro, as brisas frescas do Mediterrâneo.

Vinícolas e os quatro terroirs distintos de Limoux

As vinhas se beneficiam tanto do sol típico do Languedoc como de um regime ideal de chuvas, distribuídas ao longo do ano. A paisagem de Limoux – desde seus vales escavados pelo rio Aude e seus afluentes, até as encostas cobertas por altos planaltos – não é dominada pela monocultura. Suas vinhas se misturam com bosques e florestas, em solos predominantemente argilo-calcário leve e pedregoso, criado pela erosão dos topos das montanhas dos Pireneus.

Quatro terroirs

Com base nos dados climáticos, a área de vinhedos ao redor de Limoux pode ser dividida em quatro terroirs, ordenados a seguir pelo momento de colheita. A vindima começa nos vinhedos com Terroir Méditerranéen. Com clima quente, conta com o efeito amenizador da brisa do mar, que cria umidade ambiente e promove um rápido aumento nos níveis de açúcar.

Já o Terroir d’Autun se situa na área em torno da cidade de Limoux. Tem proteção do fluxo de chuva por conta da presença de duas cadeias de montanhas – Corbières e Chalabrais. O resultado é um clima bastante quente e seco. Já o Terroir Océanique se caracteriza por um clima temperado e úmido, exposto aos fluxos de ar do oeste. O amadurecimento das uvas ocorre cerca de duas semanas mais tarde do que nos dois terroirs anteriores. Por fim, o Terroir de la Haute-Vallée fica no curso superior do rio Aude, em direção aos Pirineus. Esta área se mostra mais úmida e mais fria, também por conta de sua maior altitude.

Blanquette versus Crémant de Limoux

Ambos tem elaboração pelo método tradicional, de forma que a principal diferença é no blend de uvas. O Blanquette de Limoux deve conter pelo menos 90% da variedade Mauzac, com os demais 10% divididos entra Chardonnay e Chenin Blanc. Já no caso dos Crémant de Limoux, as regras são um pouco mais complexas. Chardonnay e Chenin Blanc devem responder por 60% e 90%, porém a Chardonnay deve ter ao menos 30% e Chenin Blanc 10%. Já a proporção de Mauzac e Pinot Noir deve ser inferior ou igual a 40%, com um máximo de 20% de Mauzac.

Em termos de estilo, os Crémant de Limoux são normalmente mais complexos e elegantes. Já os Blanquettes trazem uma certa rusticidade, com acidez cortante e corpo leve a médio. De forma geral, ambos são espumantes para consumo mais rápido, geralmente até dois anos após safra. Quanto à produção, o Crémant de Limoux fica na frente, com cerca de 53 mil hectolitros (7 milhões de garrafas) em 2022, acima dos 40 mil hectolitros do Blanquette de Limoux.  

Especificamente sobre os Crémant de Limoux, são pouco mais de 1.000 hectares de vinhedos, com cerca de 160 produtores. Dentre as oito denominações de origem francesas que produzem Crémant, Limoux fica em quinto lugar em termos de produção. Fica somente à frente de Die, Jura e Savoie, com um volume correspondente a aproximadamente 20% dos Crémant d’Alsace, os mais populares.

Produtores de destaque

Como muitas regiões vinícolas do sul da França, Limoux conta com uma combinação entre cooperativas de grande porte e produtores independentes. A cooperativa local, composta por cerca de 200 viticultores, opera com as marcas Aimery e Sieur d’Argues e produz mais de 60% dos vinhos espumantes da região. Entre os produtores independentes, alguns dos destaques são Château Martinolles (que pertence a Paul Mas), Domaine de l’Aigle, Château d’Autugnar, Domaine J Laurens, Domaine Collin, Jean-Louis Denois e Domaine Mouscaillo.

Fontes: Fédération Nationale des Producteurs et Élaborateurs de Crémant; Limoux AOC; A Enciclopédia do Vinho, Hugh Johnson; Encyclopedia of Wine, Larrouse; Atlas Mundial do Vinho, Hugh Johnson, Jancis Robinson; Decanter

Imagem: View more by arenysam via Getty Images, licença CanvaPro Teams

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