A Moscatel de Alexandria é uma das mais versáteis variedades de uvas no mundo, sendo usada não somente para a elaboração de vinhos, mas também para a produção de uvas passas e para o consumo como uva de mesa. Assim como o Moscatel Branco, é conhecida pelo seu dulçor e pelas características aromáticas que transfere aos vinhos, que lembram a própria uva fresca.
Não há uma confirmação científica do seu local de origem, mas seu nome sempre serviu como um importante ponto de referência. A alusão direta à cidade egípcia de Alexandria é um sinal, assim como seu nome no sul da Itália (Zibibbo), possivelmente uma menção ao Cabo Zebib, que fica na Tunísia. Por conta disso, o norte da África, ao menos com base na etimologia, sempre apareceu como a hipótese mais provável.
Porém, a análise de DNA parece mostrar uma trajetória distinta. Estudos publicados em 2010 confirmaram que a Moscatel de Alexandria resulta do cruzamento natural entre Moscatel Branco e uma variedade tinta hoje autóctone somente em algumas ilhas do Mediterrâneo, como aquelas do Mar Egeu (na Grécia), Malta, Sicília e Sardenha. Nas ilhas gregas é chamada de Eftakoilo ou Heptakilo, enquanto nas italianas chama-se Axina de Tres Bias ou Tribbuoti.
História e ascensão
Embora haja quem acredite no cultivo da Moscatel de Alexandria já no Egito Antigo, as maiores evidências apontam para a Grécia e o Império Romano. Embora não haja amostras da época passíveis de análise genética, características olfativas, descritas por autores como Cato, Columella e Plínio, podem indicar alguma relação das uvas da época com a família Moscatel.
Mesmo em regiões onde a uva é extremamente popular hoje em dia, como a Espanha, as primeiras menções a ela são pouco precisas. Por exemplo, o primeiro uso do nome Moscatel na Península Ibérica apareceu em um documento de Alonso de Herrera (1645). Porém, há evidências que antes disso a uva já teria sido levada para as Américas pelos espanhóis, onde se tornou muito popular. De fato, a Moscatel de Alexandria é uma das duas variedades que mais prosperaram na região.
Características e descendentes
A Moscatel de Alexandria é uma variedade facilmente detectável, por conta de suas características, que incluem cachos grandes e pouco compactos, além de grãos bastante volumosos. Ela não é muito vigorosa e se adapta bem a uma variedade de terrenos. Prefere condições climáticas com temperaturas mais altas, se adaptando bem a secas ou solos muito ácidos. Por outro lado, é suscetível ao míldio e oídio, o que dificulta seu cultivo em regiões mais úmidas.
É uma parte importante da “família Moscatel”, com diversos “herdeiros” espalhados sobretudo pelo Mediterrâneo. Juntamente com a Schiava Grossa, deu origem ao Moscatel de Hamburgo, enquanto seu cruzamento com a Catarratto resultou na Grillo. Também Moscatello Selvatico (de cultivo sobretudo na Puglia) e Mathiàsz Jánonsné (cruzamento com a Chaselas Riouge popular na Hungria) são descendentes diretos.
Vinhos
Polivalência é uma palavra-chave para o Moscatel de Alexandria. Embora tenha ganhado enorme reputação por conta de vinhos doces como o Passito de Pantelleria, por exemplo, também tem usos diversos. Além de seu consumo como uva in natura, pode produzir vinhos brancos secos, inclusive vinhos com maceração com suas cascas (vinhos laranja) e mesmo espumantes.
Mas são seus vinhos doces aqueles que chamam mais atenção. Trazem aromas poderosos, cítricos e florais, com muita untuosidade e acidez suficiente para equilibrar a forte concentração de açúcares e os sabores de frutas maduras. Já seus vinhos de mesa não mostram o mesmo potencial de evolução, com aromas característicos de tangerina, uva, raspas de laranja e notas de pétalas de rosa.
Área plantada
Emboa de origem mediterrânea, é uma variedade que ganhou o mundo. Segundo dados da OIV, a área plantada de Moscatel de Alexandria ao redor do mundo, em 2015, era de 33.850 hectares. É uma das variedades mais bem distribuídas geograficamente, com nove países diferentes com parcelas superiores a 5% da área total. Está mais concentrada na bacia do Mediterrâneo e nações do Novo Mundo, como Chile, Argentina, Austrália, Estados Unidos e África do Sul.
A maior área plantada se encontra na Espanha, com 10.090 hectares, cerca de 29,8% do total mundial. A seguir, vêm dois países onde esta uva se destaca por conta do legado colonial: Chile, com 4.031 ha (11,9%) e Argentina (2.750 ha, 8,1%). Esta variedade também tem área significativa de vinhedos na França (2.731 ha, 8,1%), Marrocos (2.380 ha, 7,1%), Austrália (2.210 ha, 6,5%), Estados Unidos (2.079 ha, 6,1%), Itália (1.924 ha, 5,7%) e África do Sul (1.904 ha, 5,6%). Curiosamente, na Grécia, a área plantada é de apenas 2,5% do total mundial, enquanto no Egito se restringe a 1,5%.
Nomes alternativos
Por conta da diversidade de regiões produtoras, a variedade recebe uma grande quantidade de outros nomes. Boa parte deles inclui menções a Moscatel ou Muscat, como Alexander Muskat, Alexandriai Muskotaly, Augibi Muscat, Bowood Muscat, Chasselas Musque, Damascener Weiss Muscat, Iskendiriye Misketi, Moscatel de Alejandria, Moscatel de Chipiona, Moscatel de Espana, Moscatel de Grano Gordo, Moscatel de Jesus, Moscatel de Lanzarote, Moscatel de Malaga, Moscatel de Samso, Moscatel de Setubal, Moscatel de Valencia, Moscatel Flamenco, Moscatel Gordo, Moscatel Gordo Blanco, Moscatel Gordo blanco, Moscatel Real, Moscatel Roma, Moscatel Romano, Moscatellone, Moscato di Calabria, Moscato di Pantelleria, Moscato Gordo, Moschato Alexandrias, Muscat Candia, Muscat Croquant, Muscat d’ Alexandrie, Muscat d’ Espagne, Muscat de Jerusalem, Muscat de Kelibia, Muscat de Raf-Raf, Muscat de Rivesaltes, Muscat de Roma, Muscat Flame, Muscat Grec, Muscat Primavais, Muscat à Gros Grains, Muscataiu, Muscatdamascener Weiss, Muscatellone di Espagna, Muscat Romain, Muskat Etolyata, Muskat Krupni, Muskat Rapski, Muskat Veliki, Panse Muscade, Panse Muscat, Panse Musquee, Pascal Muscat, Passe Muscat, Tokay Musque e Tottenham Park Muscat.
Outros nomes, também segundo o catálogo da Universidade da California – Davis, são: Aggliko, Albillo de Toro, Angliko, Apostoliatiko, Argelino, Augibi blanc, Broccula, Englesiko, Gerosolimitana bianca, Gordo, Hanepoot, Isidori, Jubi, Kabrija, Malaga blanc, Meski, Pais Myuske, Paradisia, Pasa de Malaga, Raisin de Malaga, Roode Hanepoot, Salamanna, Smirnai Szagos, Spanier Weiss, Vanille Raisin, White Hanepoot, Zibebenmuscateller Weiss, Zibibb e Zibibbo.
Fontes: Foundation Plants Services Grapes, UC Davis; Distribution of the World´s Grapevine Varieties, OIV; Vitivinicultura; PlantGrape; Genetic variability assessment in ‘Muscat’ grapevines including ‘Muscat of Alexandria’ clones from selection programs, Peiró et al; Jancis Robinson; La Stirpe del Vino, Attilio Scienza & Serena Imazio
Imagem: Foundation Plants Services Grapes, UC Davis